Amor: o pacto quebrado

Barbara Cartland




Romances Rebeca 5223

Ttulo Original: "The complacent wife"
1972 by Barbara Cartland
Traduo Editora Tecnoprint S.A. Edies de Ouro, 1976


Coleo Barbara Cartland Edio de Natal, sob o ttulo "Karina, adorada Karina"

Ttulo original: "The Complacent Wife"
Copyright: Cartland Promotions 1972
Traduo: Tadeu Chiarelli
Copyright para a lngua portuguesa: 1984 Abril Cultural S.A- - So Paulo
Esta obra foi composta na Linoart Ltda. e impressa na Editora Parma Ltda.



PROJETO REVISAR

    Este livro faz parte de um projeto sem fins lucrativos.
Sua distribuio  livre e sua comercializao estritamente proibida.
Cultura: um bem universal.

Digitalizao: Palas Atenia
Reviso: Edna MaFiquer



Na pequena clareira do bosque, com o vaporoso vestido de musselina esvoaando, Karina mais parecia uma ninfa de histrias de fadas. Escondido pelos pinheiros, o
conde de Droxford olhava para a esposa, mal contendo o mpeto de correr at ela e abra-la, confessando seu amor. Mas isso era impossvel: suas suspeitas de estar
sendo trado se confirmavam! Um homem estava ao lado dela e segurava-lhe a mo, fitando-a de maneira insinuante. Droxford parou, com cime e raiva misturando-se 
em seu ntimo. Karina, a mulher que ele adorava, o traa com sir Guy, o seu pior inimigo!
      
CAPTULO I
      
      Lady Sibley e o conde de Droxford caminhavam com calma estudada atravs do gramado, em direo ao pequeno caramancho cercado de madressilvas e roseiras. Ali 
estariam fora da viso dos convidados do duque de Severn, que passeavam alegremente pelas alamedas do palcio, decorado para aquela festa, que era o ponto alto da 
temporada. Apenas o som distante da orquestra atravessava os arbustos que cercavam o pequeno recanto escondido do jardim.
      Quando lady Sibley se viu longe de todos, deixou de lado sua postura discreta e cerimoniosa, dando um longo suspiro de alvio, antes de dizer:
      - Graas a Deus! Pensei que nunca mais ficaramos sozinhos!
      - Antes de mais nada, Georgette, devo lhe dar meus parabns. Voc est encantadora - o conde declarou, com uma voz profunda e penetrante.
      De fato, lady Sibley estava apaixonada e este sentimento parecia dar um toque de frescor e doura  sua beleza clssica e aos seus olhos um tanto cruis.
      Naquele instante ela sentia-se romntica, aspirando o delicioso perfume das flores que rodeavam o belo recanto do jardim. Aquele ambiente bonito e perfumado 
era o lugar ideal para um encontro de amor.
      - Oh, Alton, j fazia mais de uma semana que eu no o via! - ela exclamou. - Gregory insistiu para que vissemos, mas voc sabe como odeio o campo quando existem 
tantas coisas mais interessantes para se fazer em Londres!
      - Senti muito a sua falta.
      - Gregory com certeza vai dormir assim que terminar o jantar, pensando que estarei cansada depois da festa desta tarde. No entanto, vou me retirar bem cedo 
e fugirei para me encontrar com voc, como sempre.
      Ela falava de modo apressado, quase sem respirar, mas de repente parou e olhou atentamente para o conde. Alton era um homem bonito, talvez o mais sedutor de 
toda a sociedade londrina, mas naquele momento, um ar de preocupao parecia nublar o encanto do seu rosto. Uma ruga lhe vincava a testa e um sorriso triste tomava 
conta de seus lbios sensuais.
      - O que aconteceu? - perguntou lady Sibley, ansiosa. - Alguma coisa errada?
      - S estou um pouco agitado, Georgette.
      - Mas por qu?
      - Sou obrigado a lhe comunicar algo extremamente delicado. - Ele hesitou, antes de concluir: - Preciso me casar.
      - Voc... vai se casar?!
      Ela recuou um passo e ficou observando o conde de Droxford. Todo o romantismo que a envolvia se evaporou como que por encanto, e seus olhos se tornaram impenetrveis.
      - Sim. Casar com alguma mocinha idiota. E, para piorar, terei que encontrar uma noiva, pedi-la em casamento e marcar a cerimnia no prazo de um ms!
      - O que houve? Quem  essa moa? No compreendo o que est me dizendo, Alton!
      - Para falar a verdade, minha cara, nem eu entendo direito.
      - Ento me conte tudo desde o incio. Quero saber dessa histria em detalhes, embora mal consiga suportar a idia de v-lo comprometido!
      - Vamos nos sentar, Georgette.
      Por um momento lady Sibley deu a impresso de que preferia ficar de p, mas logo em seguida se acomodou no banco e cruzou as mos, com os olhos fixos no conde.
      Ele, por sua vez, se limitou a sentar-se ao lado dela, admirando uma rosa que desabrochava. Angustiada com aquele silncio, lady Sibley o intimou:
      - Conte-me logo o que aconteceu, pois no consigo acreditar em suas palavras.
      - Voc sabe que o ttulo de lorde-tenente sempre pertenceu  minha famlia. Meu pai o ostentou at antes de morrer, assim como meu av e meu bisav. Entretanto, 
eu no o recebi por ocasio do falecimento de papai, porque era muito criana. Assim, lorde Handley o assumiu enquanto eu no completasse a idade adequada para arcar 
com tamanha responsabilidade.
      - Creio que voc j me falou a respeito antes. Mas no entendo como isso se relaciona com o seu casamento.
      - Bem, lorde Handley faleceu h alguns dias. Ontem conversei com o primeiro-ministro e perguntei quando o rei passaria o ttulo de lorde-tenente para mim.
      O conde de Droxford se calou de repente, envolvido nas lembranas do seu encontro com lorde Grey, no luxuoso escritrio de Downing Street. Conhecia o primeiro-ministro 
desde pequeno, pois ele sempre fora muito amigo de seu pai e costumava visit-los com freqncia em Droxford Park.
      Por isso, estranhara que ele se mostrasse to embaraado quando passaram a conversar sobre a sucesso do ttulo.
      - Sinto muito, Droxford, mas no posso prometer que voc ser nomeado lorde-tenente.
      O conde se afundara na poltrona onde se havia sentado, profundamente perturbado.
      - Quer dizer que Sua Majestade pretende agraciar a outro? Mas quem no condado merece mais do que eu? Possuo a maior parte das terras daquela regio e, alm 
do mais, esse ttulo sempre pertenceu  minha famlia!
      - Sei de tudo isso to bem quanto voc. Mas o rei me deu novas instrues a respeito dessa sucesso.
      - E quais so?
      - Sua Majestade deseja que o nobre a receber essa honraria seja casado.
      - Casado?!
      - Imaginei que isso o chocaria bastante - o primeiro-ministro comentou com sua voz calma e pausada, porm muito temida na Cmara dos Comuns. - Entretanto, 
 do conhecimento pblico que Sua Majestade pretende construir uma nova era de respeitabilidade em nosso pas. Para tanto, deseja que os excessos do reinado de seu 
irmo sejam esquecidos. E, como agora ele est casado e parece muito feliz, decidiu que o matrimnio proporciona uma boa estabilidade  vida dos homens, devendo 
se transformar em uma condio para todos os seus representantes.
      - Considero isso uma hipocrisia! - protestou Droxford, nervoso.
      - Para quem sabe que o rei gerou dez filhos bastardos com a sra. Jordan,  impossvel acreditar que Sua Majestade tenha a coragem de negar as alegrias que 
povoam a existncia de um homem solteiro! Ainda mais ele, que levava uma vida absolutamente desregrada!
      - Eu sei, eu sei. Mas isso pertence ao passado. Hoje nosso soberano pretende fazer o que considera melhor para o pas, e, junto com a rainha, resolveu se tornar 
o exemplo de casal feliz a ser seguido por todos os sditos, sem exceo.
      - Bem, devo concluir ento que, se eu no me casar, o ttulo de lorde-tenente pertencer a outro, no  mesmo?
      - Exato. Infelizmente, no me restar outra alternativa, Droxford.
      - J imagino o motivo de Sua Majestade tomar essa deciso...  devido ao comportamento de lorde Beaton, que se envolveu com uma danarina do corpo de baile 
e a leva a todos os lugares onde vai. Dizem, inclusive, que as damas respeitveis de Wessex esto apavoradas, porque ele insiste para que elas conversem com sua 
amante!
      - Realmente, desde que tomou posse do ttulo, lorde Beaton tem dado muitas dores de cabea ao rei. Para ser sincero, Sua Majestade decidiu que ele deve renunciar 
 condio de nobre.
      Droxford arregalou os olhos.
      - Ser que o rei faria uma coisa dessas? Pensei que isso s ocorresse em casos extremos.
      - Um antigo primeiro-ministro obrigou o prprio irmo a abdicar do status de tenente, de Buckinghamshire. . . Mas voc tem razo, isso raramente acontece, 
e  por esse motivo que o rei pretende tomar muito cuidado com o problema de sucesso do ttulo de lorde-tenente.
      - Ser que eu poderia conversar com Sua Majestade a respeito? - perguntou Droxford, sabendo que William IV, o bem-humorado "rei-marinheiro", dificilmente recusaria 
um favor que lhe fosse pedido pessoalmente.
      - Acho que no adiantaria nada - retorquiu lorde Grey, meneando a cabea. - J conversei muito com o rei sobre esse assunto, mas ele agora conta com o apoio 
da rainha, e voc sabe muito bem o que isso significa, no?
      - Sei, sim. Ontem mesmo recebi uma carta do sir Greville, que est em Brighton, contando que a rainha proibiu as damas de comparecer s suas festas com vestidos 
decotados.
      - Os tempos mudaram, meu caro... George IV, o antigo rei, na certa preferia que as damas fossem s recepes sem roupa alguma.
      Embora risse do gracejo, Droxford sentia-se apreensivo.
      - De quanto tempo disponho para encontrar uma esposa, lorde Grey?
      - O ttulo significa tanto assim para voc?
      - Respeito muito meus antepassados. Papai era muito amado, pois governou o condado com habilidade e justia. Estou exagerando?
      - Claro que no. Seu pai foi muito amigo meu mas, independente disso, o povo o adorava.
      - Pois bem, pretendo seguir o exemplo dele. Apesar dos prazeres da vida de solteiro, no posso permitir que outra pessoa represente o rei no condado, onde 
meus antepassados tanto lutaram para criar escolas, hospitais e asilos. Papai sempre afirmava que aquele territrio lhe pertencia, e juro me esforar ao mximo para 
manter essa honra nas mos da minha famlia.
      - Eu o admiro por sua determinao, Droxford. E sinto muito por voc ter sido prejudicado devido a uma situao que no lhe diz respeito diretamente.
      - Obrigado. Agora, por favor, diga quanto tempo me resta para encontrar uma noiva.
      - Acredito que Sua Majestade lhe concederia um ms. No entanto, devo adverti-lo de que esse prazo ser irrevogvel, pois j existe outra pessoa que aspira 
a esse ttulo.
      - Por acaso,  o duque de Severn?
      - Justamente.
      -  um absurdo! Ele possui apenas dez mil acres de terras, alis muito mal cultivadas e administradas, alm de maltratar tanto seus empregados que j se tornou 
famoso em toda a regio!
      - Por outro lado, o duque  casado e altamente respeitvel, segundo os novos padres.
      Depois de um breve instante de silncio, Droxford se levantou de um salto e afirmou com convico, os olhos duros e impenetrveis:-
      - Garanto que o duque de Severn s se tornar lorde-tenente depois de passar sobre o meu cadver! At logo!
      Assim que o viu  sada do escritrio de Downing Street, o cocheiro intuiu, por sua expresso contrariada, que algo de muito grave acontecera. No era comum 
que o conde, sempre cordato e afvel com os empregados, se mostrasse grosseiro, porm, em seus raros dias de mau humor, os criados temiam at mesmo se aproximar 
dele.
      Quando acabou de contar a Georgette sua entrevista com lorde Grey, Droxford pousou as mos sobre as pernas, exclamando:
      - Prefiro morrer a ver o duque com o ttulo de lorde-tenente!
      - Imagino o quanto isso o aborreceria, pois ele  de fato uma pessoa detestvel.
      - Ento, Georgette, me ajude a arranjar uma esposa.
      - No ser difcil. E talvez, Alton, isso facilite as coisas para ns dois.
      - Que coisas?
      - Veja, querido, voc  to lindo que, assim que aparece, todos os maridos se sentem ameaados. Gregory, por exemplo, morre de cime de voc.
      - E da?
      - Da que, depois do casamento, nenhum homem se oporia  sua presena nas festas e reunies sociais, visto que sua esposa o acompanharia. - Sem responder, 
o conde deu de ombros num gesto de indiferena que a fez acrescentar, rpido: - No se preocupe, querido. Encontrarei uma esposa submissa e tolerante, que pense 
apenas nas jias da famlia Droxford, permitindo que voc continue a agir como se permanecesse solteiro!
      - Francamente, Georgette, no me anima nem um pouco a perspectiva de aturar uma idiota pelo resto dos meus dias!
      - Independente disso, voc precisa arranjar algum que no implique com seus outros. . .   afazeres. Se formos bem-sucedidos, nossa vida se tornar muito mais 
fcil!
      - Sinto muito por no compartilhar do seu otimismo, mas, alm de no querer me casar, acho repugnante ligar minha vida  de uma mulher pela qual no sinta 
nenhuma afeio ou interesse!
      - Deus me livre que voc se interessasse por outra mulher! Temos sido to felizes nesses ltimos meses que se algo perturbasse o nosso relacionamento, eu morreria 
de desgosto.
      Sensibilizado pela nota de sinceridade e emoo que havia em sua voz, ele a fitou profundamente nos olhos, acariciando-lhe o queixo de maneira suave.
      - Voc  to linda, Georgette.
      - Espero que voc sempre ache isso.
      Nenhum argumento transmitiria mais segurana a lady Sibley do que a forma quente e apaixonada com a qual o conde pousou os lbios sensuais sobre os dela, numa 
carcia embriagadora. Por quanto tempo permaneceram abraados, eles jamais seriam capazes de calcular, mas, de repente, ela se afastou dos ombros fortes e comeou 
a vestir as luvas brancas de renda.
      - Precisamos nos encontrar esta noite, Alton. J no consigo viver sem os seus carinhos.
      - Irei esper-la no lugar de sempre, mas, por favor, procure no se atrasar.
      Experiente como era, ela logo deduziu que o conde ainda a desejava com a mesma intensidade de antes, o que a fez sentir-se confiante em relao aos prprios 
encantos. Assim, depois de encar-lo com uma expresso cheia de promessas veladas, disse:
      - No se preocupe que chegarei no horrio. At l, vou me dedicar a lhe arranjar uma esposa entre as muitas moas presentes  festa. As garotas do campo normalmente 
so menos espertas e no se ressentiro pelo fato de receber apenas o mnimo da sua ateno.
      - Meu Deus, Georgette! Pelo que voc est dizendo, terei que me casar com algum sem nenhum sabor!
      - Basta uma mulher ingnua e ignorante... Eu serei o champanhe da sua vida, querido!
      - Tem razo, querida. Voc sempre me excitou como um bom champanhe e talvez nenhuma outra mulher faa com que eu me sinta to bem, como quando estou ao seu 
lado!
      - timo, porque, como lhe disse, acredito que esse problema acabe facilitando ainda mais os nossos encontros. Agora espere at que eu me junte aos demais convidados. 
No conseguiramos sair juntos daqui sem dar muito na vista!
      - At a noite, ento.
      - Prometo que no o deixarei esperando.
      Assim que Georgette desapareceu por entre as roseiras e madressilvas, Droxford tirou o relgio do bolso do colete e, aps alguns segundos, pegou a cartola 
que deixara no banco, preparando-se para abandonar o caramancho.
      - Conde de Droxford! - algum chamou.
      Intrigado, ele se deteve olhando  sua volta, mas no havia ningum.
      - Estou aqui - a voz disse.
      Erguendo os olhos, Droxford custou a acreditar que aquela criana, semi-escondida pelas folhas do imenso carvalho da entrada, fosse real.
      - O que est fazendo a em cima?
      - Se aguardar um momento, descerei para explicar.
      Como no tinha outra escolha, Droxford, muito nervoso, concordou, enquanto deduzia que seu encontro com lady Sibley corria o risco de se tornar pblico... 
A menos que convencesse aquela criana a no contar nada a ningum.
      Ser que se lhe desse uma moeda de ouro, ele ficaria quieto? Mas como um garoto explicaria aos pais tamanha quantia sem lhes revelar de quem a recebera?
      Ainda assim no custava nada arriscar, e, com dedos geis, ps-se a procurar uma moeda no bolso quando um estalido de folhas secas o obrigou a levantar a cabea. 
Ora, no era uma criana, mas uma moa e, por sinal, muito simptica.
      Vestida com uma saia verde de algodo estampado, os seios arfantes sob um corpete de cetim azul, a jovem o encarava com uma expresso tipicamente infantil, 
que o teria fascinado em outras circunstncias. No entanto, Droxford sabia que precisava encontrar um modo de conquistar-lhe o silncio a qualquer preo, embora 
preferisse admirar aquele rosto delicado, com clios espessos sombreando os belos olhos verdes de formato amendoado, e emoldurado pelos fortes cabelos loiros da 
cor do trigo.
      - Quer dizer que a senhorita estava a, escutando tudo?
      - Elizabeth e eu sempre usamos este carvalho como esconderijo, mas hoje ela est com os convidados...
      - E quem  Elizabeth?
      Aborrecida pela interrupo, ela jogou os cabelos para trs de modo que o sol se refletiu neles, produzindo um inigualvel tom avermelhado.
      - Elizabeth  a filha do duque de Severn, dono do palcio. Este ano ser apresentada a todas as pessoas importantes do condado, como o senhor, por exemplo.
      - Ento voc sabe quem sou?
      - Claro!  o famoso conde de Droxford, de quem se contam as mais interessantes histrias de amor da Corte.
      - Esquecerei sua insolncia, por ora. Diga-me como se chama.
      - Sou Karina Rendell. O senhor, na certa, conhece o meu pai.
      - Voc se refere a sir John Rendell, que foi membro do Parlamento?
      - Exatamente!
      - Se no me engano vocs moram aqui perto, no?
      - Sim. Nossa propriedade  vizinha  do duque de Severn.
      - E por que voc no est na festa?
      - Quer mesmo saber?
      -  claro!
      - Primeiro porque sou bonita, e depois porque no tenho uma roupa apropriada.
      - Qual  o problema de voc ser bonita?
      - A duquesa no quer saber de concorrentes quando se trata da filha dela. Por isso eu s poderei entrar para fazer a minha refeio quando todos os convidados 
j tiverem se retirado.
      Cruzando os braos ele a fitou, interessado. No entanto, no podia dar-se ao luxo de permanecer tanto tempo longe dos demais convidados e anunciou, aps consultar 
o relgio:
      - Vou voltar para a festa.
      - Espere um pouco. Eu no teria aparecido, nem lhe permitido perceber que escutei sua conversa, se no quisesse pedir uma coisa.
      - Nesse caso, faa o seu pedido.
      Hesitante, Karina abaixou a cabea, enquanto procurava as palavras apropriadas. Finalmente, percebendo que o conde demonstrava impacincia, comeou:
      -  que. . . Bem, se est procurando uma esposa, por que no me escolhe?
      - Como?!
      - Sugiro que me tome para noiva.
      - Escute aqui, minha jovem, vamos pr as coisas em seus devidos lugares. Voc no tinha o direito de permanecer escondida, escutando uma conversa de adultos 
que no lhe dizia respeito, por isso trate de esquecer esse assunto.
      - No vejo motivos para tanto. Lady Sibley disse que procuraria uma jovem submissa e tolerante para ser sua esposa, o que  o meu caso. E, como est disposto 
a se casar com algum que nunca viu e sobre quem no sabe nada, s lhe peo para levar meu pedido em considerao!
      - Voc sempre pede estranhos em casamento?
      Ignorando o tom sarcstico que ele dera  pergunta, Karina sorriu de modo radiante.
      - Eu no vejo muitos homens, alm de papai e seus caadores.
      - Por que tem tanta vontade de se casar?
      - Se estivesse no meu lugar, tenho certeza de que agiria da mesma forma... Desde que mame morreu, papai s se interessa por seus assuntos particulares e renunciou 
inclusive ao Parlamento, se dedicando apenas s caadas de inverno que constituem um divertimento alm de nossas posses. No vero ele senta-se  mesa e... - Subitamente 
sria e com os olhos marejados de lgrimas ela se calou, sem coragem de dizer o que todos comentavam no condado. Ou seja, que sir John Rendell passava a maior parte 
do dia embriagado. Entretanto, temendo que o conde tocasse nesse ponto, retomou a conversa, rapidamente: - Considerando tudo isso, no vejo nada de condenvel na 
minha proposta. Se est procurando uma esposa apenas para conseguir o ttulo de lorde-tenente, no vejo por que no posso ser a escolhida. Afinal, possuo os requisitos 
necessrios citados por lady Sibley.
      - Peo-lhe o favor de no tocar no nome de lady Sibley.
      - Ela  to linda, no? Na minha opinio, o senhor  o amante mais bonito que ela j teve! O ano passado ela trouxe sir Hubert Bracket aqui, mas Elizabeth 
e eu no simpatizamos com ele!
      - Aqui onde? - o conde perguntou, indignado.
      - No caramancho, ora! Ela sempre vem para c com seus amantes durante as festas. O do ano passado o senhor precisava ver...
      - Fique quieta! Voc no deveria me dizer essas coisas!
      - Desculpe-me. Mas o senhor no imaginava que fosse o primeiro amante dela, no  mesmo? - Depois de um breve instante de silncio, j refeita do susto e percebendo 
que o conde no ia fazer qualquer comentrio, ela continuou: - Elizabeth e eu a apelidamos de Serpente porque ela costuma atrair todos os homens com seu encanto. 
No que eu j tenha visto uma serpente, mas tenho certeza de que lady Sibley age da mesma maneira.
      - Se voc no se calar imediatamente, juro que sou capaz de lhe dar umas merecidas palmadas! Quem voc pensa que  para se esconder nas rvores e ficar ouvindo 
a conversa dos outros!
      - Por favor, no fique nervoso! Perdoe-me se falei algo de maneira irrefletida que o tenha aborrecido, mas o julguei como o tipo de homem que gosta da verdade... 
e eu costumo diz-la. Discordo da duquesa, que vive afirmando que toda dama de classe deve permanecer calada, sem revelar o que sabe ou pensa, e recomenda s filhas 
que se limitem a responder "sim, senhor" ou "no, senhor".
      - Hum, talvez elas se transformem em excelentes esposas!
      - Pensei que o desagradasse uma esposa idiota. Se no  esse o caso, aproveite para cortejar as jovens que esto na festa, pois a maioria delas  incapaz de 
uma opinio prpria sobre qualquer assunto!
      - No  isso, mas tampouco me agrada uma noiva com uma lngua ferina igual  sua!
      No instante que se seguiu, um silncio carregado de tenso caiu sobre eles, at que, assumindo uma postura altiva, Karina falou, com firmeza:
      - Se fui muito indelicada, peo que me desculpe mais uma vez.
      - S me surpreendo pelo fato de voc ter a pretenso de se apresentar como uma noiva potencialmente submissa e conformada.
      - Oh, mas eu garanto que seria! Posso alimentar alguma esperana? O senhor vai pensar no meu pedido?
      - Sem dvida que sim. Mesmo porque  impossvel encontrar outra mulher to decidida a casar comigo quanto voc.
      - Isso no seria problema, pois os pais delas as obrigariam a isso. Afinal, ningum se importa com a opinio das filhas num caso como este.
      - Que exagero! Hoje em dia as mulheres no so foradas a se casar e, se no querem um determinado homem, basta recus-lo.
      - Engana-se! Apesar de estarmos em 1831, jamais permitiriam que uma jovem rejeitasse um homem de sua posio. O senhor  o que o duque chama de um bom partido!
      - E voc tambm acha que sou um bom partido?
      - Claro que sim! Caso percebam qualquer interesse seu por Elizabeth, ela ser obrigada a aceit-lo da mesma forma que a irm dela, Mary, no pde recusar lorde 
Hawk.
      A simples meno daquele nome trouxe  mente do conde a imagem de uma mulher jovem, delicada, extremamente atraente e triste; lady Hawk.
      - Lady Mary no queria desposar Hawk?
      - Ela sempre desprezou aquele homem horrvel, grosseiro e desagradvel. Uma vez ele tentou me abraar, mas lhe dei um soco no estmago e sa correndo enquanto 
ele tossia!
      - Pelo visto voc sabe muito bem como se cuidar!
      - Eu tinha apenas catorze anos na poca e nem sempre  fcil escapar. Mas, falvamos sobre Mary. Ela havia se apaixonado por um soldado muito jovem, de poucas 
posses, e ambos se encontravam s escondidas at o dia em que o duque descobriu e a castigou, trancando-a no quarto  base de po e gua. Como se no bastasse, ele 
apresentou queixa ao coronel do regimento, que mandou o pobre rapaz para o exterior!
      - Meu Deus, que crueldade! Acredita que se alguma jovem se recusasse a me desposar receberia tratamento semelhante?
      -  bvio que sim. Afinal, poucos se comparariam ao senhor em termos de propriedades, poder e elegncia.
      - Ento voc acha invivel que algum se case comigo somente por amor?
      - De maneira nenhuma.  Seria fcil que uma mulher se apaixonasse pelo senhor, desde que fosse cortejada durante um certo tempo, o que prejudicaria seus outros. 
. . compromissos.
      - Isso seria impossvel, se for considerado que s posso dispor de um ms.
      -  por essa razo que estou sugerindo... apenas sugerindo que posso ser a esposa ideal. Em primeiro lugar, me agrada a idia de ter um marido to bonito e 
elegante, depois imagino que o senhor deva fazer amor melhor do que qualquer outro que j vi com lady... - De repente, calou-se enrubescida, e acrescentou rapidamente: 
- Quero dizer, na maioria das vezes os homens parecem estpidos no que se refere  paixo!
      - Fico lisonjeado por ter aprovado o meu procedimento...
      - No precisa zombar de mim, pois tenho conscincia da minha impertinncia e sei que no  da minha conta como o senhor faz amor, na medida em que devo me 
limitar a ser tolerante, sem interferir nos seus inmeros. . . afazeres. Tambm no possuo uma noo exata do significado de uma esposa submissa, mas imagino que 
isso implique agir de maneira apropriada, sendo gentil com os empregados e visitando os pobres da propriedade.  isso?
      - Mais ou menos...
      - Alm disso, minha pequena estatura na certa o faz considerar que as tiaras no ficariam devidamente destacadas, porm, como herdei a beleza de mame, que 
era considerada muito bonita, no lhe darei motivos para se envergonhar. Quanto aos meus antepassados, os Rendell vivem neste condado desde antes de Henrique VIII, 
e meu av materno era o conde de 0'Malley. Os demais parentes moram na Irlanda e, como nunca tivemos dinheiro para visit-los, no os conheo pessoalmente, embora 
imagine que tambm sejam pobres. Mas, de acordo com mame, h algumas geraes os 0'Malley foram reis da Irlanda, o que equivale dizer que no sou uma plebia. Portanto 
no haveria empecilhos dessa natureza para a nossa unio.
      Notando-lhe a expresso ansiosa e considerando divertida toda aquela situao, o conde replicou gentilmente:
      - Concordo que sua aparncia  encantadora, srta. Rendell. E tambm no duvido de que pertena a uma alta linhagem.
      - Obrigada. Jamais admitiria que me confundissem com uma pessoa vulgar. Alis, se fosse assim, eu no precisaria fazer o menor esforo para agir com submisso 
e tolerncia, no  mesmo?
      - Imagino que esteja certa.
      - E, para terminar, o senhor afirmou que no queria uma idiota. Bom, mame insistiu em que eu aprendesse corretamente o francs e o italiano, alm de um pouco 
de alemo, que, a propsito, considero uma lngua horrvel. Possuo tambm alguns conhecimentos sobre a cultura grega, que era um dos assuntos preferidos de papai, 
mas, sinto dizer que meu latim ... lamentvel.
      Nesse instante, Karina assumiu um ar preocupado, diante do qual o conde precisou se conter para no estourar em uma gargalhada, em vez de tranqiliz-la:
      - No considero primordial que uma esposa saiba latim. Depois de um sorriso cheio de gratido, ela continuou a falar sobre sua vida de uma maneira rpida e 
atropelada, que muito divertiu o conde.
      - Tenho um pouco de dificuldade em matemtica, mas em compensao costumava ajudar papai a redigir seus discursos polticos para o Parlamento, o que me obrigava 
a ler bastante. No entanto, creio que no estou suficientemente atualizada, pois nesses ltimos anos no pudemos nos dar ao luxo de comprar livros ou jornais, embora 
eu sempre pea algo emprestado da biblioteca do duque.
      - Vejo que teve uma excelente formao, srta. Rendell.
      - No se iluda! Preciso, lhe contar uma coisa; quando toco piano, at os cachorros uivam. E essas sardas no meu nariz se devem a que, desde a morte de mame, 
sempre esqueo de usar chapu quando saio para cavalgar. No entanto, se o senhor for gentil e me aceitar como esposa, prometo que nunca mais deixarei de us-lo.
      - Oh, claro! Fico tranqilizado com isso - zombou Droxford, sem reprimir um leve sorriso.
      - Por que est rindo de mim, se estou apenas tentando ser absolutamente; honesta? Acredito que a sinceridade e a franqueza so fundamentais entre marido e 
mulher, concorda?
      - Sem dvida. Inclusive, insistirei para que minha esposa, seja ela quem for, me fale sempre a verdade. Espero tambm que ela me obedea...
      Estremecendo, Karina o interrompeu, fitando-o de maneira inter-rogativa:
      - Em tudo?
      - Hum. . . em tudo!
      Apreensiva, Karina deduziu que isso seria quase inevitvel em se tratando daquele homem que, apesar da aparncia tranqila e da expresso quase entediada, 
nos olhos cinzentos, transmitia uma personalidade decidida, tpica de pessoas que quando resolvem algo no se desviam por nada de seu objetivo.
      Ainda pensava a respeito quando Droxford voltou a consultar o relgio, anunciando:
      - Preciso voltar para a festa.
      - Antes me responda uma coisa; se resolver levar em considerao essa nossa conversa, vir nos visitar amanh? No quero ser insistente mas gostaria de saber 
a que horas devo esper-lo para manter papai... em casa.
      Apesar de Karina ter se corrigido a tempo, Droxford percebeu que ela estivera prestes a mencionar o constante estado de embriaguez do pai, e, compreendendo-lhe 
a preocupao, declarou:
      - Independente de nossa discusso, sentirei um imenso prazer em rever sir Rendell, de modo que estarei em Blake Hall por volta do meio-dia. Que acha?
      - Para mim est timo! Quero tambm pedir um favor; quando for apresentado s possveis noivas que lady Sibley vai lhe escolher, lembre-se de mim.
      - Fique tranqila. Tenho a sensao de que vai ser muito difcil esquec-la depois dessa nossa entrevista um tanto... singular.
      - Ora, quer dizer que nunca foi pedido em casamento antes? - ela zombou, com uma expresso travessa no olhar.
      - Sem dvida  pouco convencional as mulheres terem esse tipo de atitude.
      - Entenda que no havia sada. Nunca seramos apresentados durante a festa e, a menos que eu o chamasse na beira da estrada, o que seria ainda pior, jamais 
nos conheceramos.
      Concordo que voc agiu da nica maneira possvel. Saiba tambm que tive muito prazer em conhec-la srta. Rendell, e aguardarei ansioso o reencontro com seu 
pai. - Em seguida, ele retribuiu  discreta reverncia de Karina e perguntou, curioso: - Como pretende ir embora?
      - Por acaso, tem a inteno de me oferecer um lugar em seu fiacre? No mnimo isso provocaria um escndalo... . No!  melhor que eu volte da mesma maneira 
como vim; pulando o muro que divide as duas propriedades. Meu cavalo est esperando do outro lado.
      - Voc cavalga com esses trajes?
      - Sim. No tenho nada mais adequado para vestir, e  quase impossvel vir ao castelo a p debaixo desse sol. Afinal so trs quilmetros...
      - Como queira, srta. Rendell... Pode ter certeza de que me deu muita coisa em que pensar. At logo!
      Lisonjeada com o comentrio, Karina sorriu de um modo encantador, capaz de despertar no conde uma sincera admirao por aquela jovem de aspecto quase infantil, 
mas, ao mesmo tempo, dotada de uma incrvel determinao e coragem.
      Enquanto se afastava, andando lentamente, Droxford considerava que sem dvida ela ficaria fascinante se vestida de maneira adequada. Porm, nem por isso sentia-se 
inclinado a transform-la na condessa, embora a julgasse capaz de valorizar os diamantes e as safiras da famlia mais do que qualquer outra mulher.
      Alis, ele sempre fora da opinio de que as loiras realavam a beleza das safiras e das turquesas, como lhe provava uma antiga recordao da infncia, quando 
a me entrara no quarto dele, usando uma tiara e um colar de turquesas que combinavam perfeitamente com sua pele clara e seus cabelos brilhantes como ouro.
      Era curioso que todas as amantes que ele tivera fossem morenas, como provava a exuberante Georgette com seus cabelos e olhos negros, que pareciam guardar um 
mistrio profundo, capaz de despertar o desejo do mais indiferente dos homens. No entanto, quem quisesse lhe dar um presente, na certa escolheria rubis.
      Para Karina, porm, diamantes seriam o ideal e se assemelhariam s estrelas nos longos cabelos cor de milho que lhe emolduravam o delicado rosto ovalado. Talvez 
ela ficasse muito parecida com a falecida condessa que, quando se sentava, precisava afastar para o lado as fartas madeixas douradas, provocando um bem-humorado 
elogio do esposo, que dizia:
      - Todas as mulheres bonitas sentam-se sobre os cabelos!
      Recordando-se do doce sorriso da me nessas ocasies, Droxford acabou de percorrer o gramado, enquanto pensava que nunca tinha encontrado outra mulher que 
pudesse sentar-se sobre os cabelos.
      - Quem sabe um dia eu encontre uma - murmurou para si mesmo a voz sufocada pelo som estridente da orquestra e pelos rudos das conversas. Finalmente, ao entrar 
por uma alameda, avistou a silhueta esguia de lady Sibley.
       
      CAPTULO II 
      
      A carruagem aberta que conduzia o conde entrou na alameda da manso, que abrigava a famlia Droxford h muitas e muitas geraes.
      Parcialmente reformada por Vanburgh, o engenheiro que construra o Palcio Blenheim, Droxford Park era uma das maiores casas de toda a Inglaterra, dominando 
a paisagem de maneira imponente, com sua magnfica beleza, caracterstica dos castelos de contos de fadas.
      - No existe criao arquitetnica to grandiosa em todo o reino! - comentara George III, em sua primeira visita ao local.
      Na verdade a construo colossal, com seus lagos, jardins e parques, fazia parte integrante da vida de Alton Droxford, que, cheio de orgulho, ansiava em deix-la 
a um herdeiro capaz de respeit-la e preserv-la com o mesmo carinho de seus ancestrais.
      De fato, cada membro da famlia, desde o primeiro conde, que recebera o ttulo depois da Batalha de Agincourt, contribura para o enriquecimento do vasto patrimnio.
      Por isso, as obras de arte que enfeitavam as dependncias da manso eram notveis, incluindo uma coleo de quadros de Van Dick e Gainsborough, comparvel 
apenas ao acervo da famlia real, alm da excelentes esculturas de Gibbons, dos tetos pintados por Thornhill e dos impressionantes murais executados por Laguerre.
      Mas qualquer pessoa, sem dvida, se espantaria mais com a autonomia alcanada pela prspera propriedade do que com as obras de arte. Nas dezenas de estbulos 
se encontravam nada menos que trezentos cavalos de diferentes raas e origens; e um verdadeiro exrcito de homens e mulheres dava conta do trabalho. Havia jardineiros, 
agricultores, vidraceiros, cervejeiros, alm de carpinteiros, lenhadores, ferreiros e at guardas florestais, o que apenas reforava um comentrio de lorde Grey, 
que chamava Droxford Park de "uma pequena cidade-estado"!
      No entanto, enquanto atravessava as alamedas floridas da manso, o conde se mantinha indiferente a tudo, mergulhado em um profundo mau humor.
      De repente, porm, seu olhar se deteve nas torres esguias que davam um ar romntico  manso, fazendo-o desabafar:
      - Onde vou arranjar coragem para colocar nesta casa, no lugar que pertenceu a minha me, uma daquelas mulheres horrveis?
      A bem da verdade Droxford nunca se deparara com jovens to medocres e sem graa como aquelas que circulavam pela festa do duque. Apesar de cuidadosamente 
vestidas e penteadas, elas mal se comparavam em espirituosidade  mdia das mulheres casadas, com quem invariavelmente ele preferia danar.
      E imaginar que seu herdeiro teria algum daquele jeito para me... . Ah, no! Pessoas to sem fibra poderiam significar o fim da famlia Droxford!
      De fato, Karina tivera razo ao mencionar a forma como as jovens eram ensinadas a se comportar. S sabiam dizer "sim, senhor" e "no, senhor".
      Nervoso, Droxford se ps a rememorar as coisas que ela lhe contara de maneira descontrada e sincera. Desde aquele estranho encontro, no conseguia se libertar 
da sementinha de dvida que ela plantara em sua mente sobre a exuberante Georgette, imaginando-a rodeada de diferentes amantes, em dias de festa, no recanto do palcio.
      Ser que ela j olhara para outros homens com a mesma paixo e sensualidade com que o fitava? E os beijos intensos que trocavam no pequeno templo grego, meio 
oculto no jardim da propriedade de lorde Sibley?
      Pela primeira vez, desde que se tornara amante de Georgette, Droxford se perguntou o motivo de aquele templo ser decorado com sofs e almofadas confortveis, 
alm das pesadas cortinas de veludo, que na certa impediriam qualquer olhar indiscreto de surpreender o que se passava l dentro. Antes, ele nunca havia considerado 
a possibilidade de outros homens terem se avistado com Georgette naquele lugar, mas, desde o momento em que lhe beijara a delicada mo coberta de anis e ouvira 
o rouco murmrio com que ela reforava o encontro naquela noite, essa idia no o abandonava.
      Profundamente irritado, Droxford suspirou e tentou se divertir com a lembrana das expresses ansiosas com que as mes o fitavam enquanto Georgette o apresentava 
s suas filhas. Na certa, aquelas mulheres dariam tudo para t-lo como genro.
      Ele, por sua vez, faria o impossvel para no repetir a frustrante experincia daquela tarde, onde as apresentaes se sucediam rapidamente, deixando-o quase 
atordoado.
      Consciente, porm, de que uma daquelas jovens seria o trunfo que lhe permitiria conquistar o glorioso ttulo de lorde-tenente, se esforara para iniciar um 
dilogo agradvel. E o que tinha conseguido?
      - Que belo dia, no lady Longford?
      - Sim, senhor.
      - Est apreciando a festa?
      - Sim, senhor.
      - No se entristece por perder as recepes londrinas, quando vem para o campo?
      - No, senhor.
      Desanimado, ele gentilmente se afastava para iniciar outras conversas que davam sempre o mesmo resultado, fazendo-o ficar convencido de que se dependesse daquelas 
belas damas, passaria o resto dos dias solteiro.
      - Diabos as carreguem! Ser que no existe uma jovem no mundo capaz de manter uma conversa inteligente? - desabafou, ao se aproximar da imponente manso de 
Droxford Park.
      - Deseja alguma coisa, senhor? - o cocheiro indagou, assustado.
      - No. Estou s pensando em voz alta.
      Em seguida, o conde se ps a ponderar se, por acaso, Georgette no lhe havia apresentado apenas as piores damas. Ou ser que qualquer mulher parecia feia e 
desinteressante ao lado dela?
      Sim, porque como a prpria Karina reconhecera, era inegvel a beleza da sedutora lady. Que tolo fora ao se julgar o primeiro amante de sua vida...
      Ningum discordaria de que Serpente era o apelido ideal para ela, conforme a chamavam Karina e a filha do duque, que, sem dvida, no havia sido a responsvel 
pela escolha do nome. Quem, seno aquela impertinente, poderia ter semelhante idia?
      Na certa, tambm, nenhuma outra pessoa, com um mnimo de bom senso, ousaria espionar um encontro secreto entre dois amantes e muito menos question-lo a ponto 
de ele se ver obrigado a reformular todas suas concepes.
      Somente agora o conde percebia que, no fundo, ansiava por uma esposa que o amasse profundamente, colocando-o acima de qualquer coisa e ficando satisfeita com 
o mnimo de ateno que ele lhe dispensaria, desde que isso no interrompesse seus negcios ou seus romances.
      Mas, na medida em que desejava apenas uma mulher dcil que o aguardasse em casa, cuidando dos bebs, por que ento o repugnava tanto a idia de se unir a uma 
das jovens que conhecera?
      Provavelmente porque nenhuma delas se compararia nem de longe  falecida condessa, sua me, que fora uma mulher incrvel, elegante e sempre agradvel para 
com os hspedes que levavam lembranas inesquecveis da manso.
      O prprio prncipe regente os visitara algumas vezes, deliciando-se com as recepes que a condessa lhe preparava, convidando polticos brilhantes como lorde 
Melbourne, sir Robert Peel e lorde Palmerston, cujos discursos calorosos enchiam de espirituosidade a hora das refeies.
      Como alguma daquelas criaturas medocres que conhecera na festa poderia se tornar uma grande anfitri?
      - Maldio, tentarei encontrar uma viva que esteja apta a ocupar uma posio dessa - resmungou Droxford, provocando um olhar desconfiado do cocheiro.
      "Mas onde vou encontrar uma viva jovem, bonita e importante o suficiente para desempenhar o papel de condessa?", perguntou-se com um suspiro de desnimo.
      Nesse instante, a carruagem estacionou diante do enorme prtico de entrada, precedido por um lance de largos degraus de pedra. O crepsculo lanava uma sombra 
lils sobre o ptio, e as bandeiras multicoloridas da torre tremulavam com o vento suave, formando um belo desenho contra o cu sem nuvens.
      Mais adiante, um lago artificial refletia os ltimos raios de sol em suas guas tranqilas, agitadas apenas pelos elegantes cisnes negros que emprestavam sua 
majestade a Droxford Park, tornando-a famosa.
      Detendo-se para lhes observar o porte garboso, Droxford os comparou  altivez natural de Georgette Sibley.
      A brisa clida do fim da tarde trazia o forte perfume dos lilases e das roseiras que a condessa havia plantado ao longo das alamedas, fazendo com que a paisagem 
ganhasse um aspecto etreo.
      Ainda fascinado pela indescritvel beleza do lugar, Droxford entrou no vestbulo principal, onde as esttuas de mrmore e o teto pintado por um artista italiano 
de renome serviam de fundo para a fileira de criados uniformizados que o aguardavam para acompanh-lo at a biblioteca, que se situava na outra extremidade.
      - Deseja alguma coisa, senhor? - o mordomo perguntou se adiantando para receber a bengala e a cartola.
      - Sim, um conhaque.
      Sem nada dizer, Masters, que servia a famlia h mais de quarenta anos, fez um sinal a um dos criados, que se apressou em cumprir a ordem.
      A biblioteca, decorada com luxo e bom gosto, tinha as paredes recobertas por livros valiosos, encadernados em couro marrom com lombadas de ouro. Sobre a lareira, 
pintado por Stubbs, o retrato de seu av ao lado de um perdigueiro dominava todo o ambiente.
      - Diga-me, Masters, o que sabe sobre sir John Rendell, aquele que fazia parte do Parlamento?
      - Infelizmente no tenho boas notcias dele, senhor. Parece que aps a morte da mulher, sir John decaiu muito, dilapidando toda a fortuna da famlia em jogos, 
apostas e bebidas.
      - Que pena! Ele era um homem to respeitvel!
      - Sem dvida, senhor.
      - Sabe o motivo de ele ter sido afastado do Parlamento?
      - Creio que isso se relaciona  vida que ele passou a levar, senhor.
      - Obrigado, Masters. Sua resposta confirma as minhas suspeitas. Apesar de o tom de voz de Droxford indicar que a conversa estava encerrada, Masters continuou:
      - A falecida lady Rendell costumava nos visitar e sempre foi muito simptica, sem nenhuma semelhana com o marido, que  tido como um homem difcil. Inclusive, 
no povoado, as pessoas contam histrias terrveis a respeito dele.
      - Que histrias?
      - Dizem que ele ficou desesperado depois que a mulher morreu, pois ela era a nica pessoa capaz de control-lo! Desde ento, sir John descarrega sua tristeza 
em cima da filha.
      - O que significa descarregar a tristeza?
      - S estou repetindo o que ouvi, senhor, mas dizem que sir John, quando bebe, costuma bater na filha. A moa deve ser muito nova ainda e, se for parecida com 
a me,  uma criatura doce e delicada. Ele no deveria maltrat-la, mas o que se pode fazer, no  mesmo? Um homem tem o direito de agir como bem entender em sua 
casa!
      Droxford assentiu com um gesto de cabea e, enquanto o homem se retirava, ele se perguntou se todos os senhores de terras da vizinhana cultivavam hbitos 
estranhos como aquele.
      De acordo com Karina, o duque de Severn forara a filha a cumprir sua vontade, ameaando trancafi-la, se no se casasse com lorde Hawk.
      E agora, sir Rendell, que sempre desfrutara de sua considerao, agredia a prpria filha, uma jovem graciosa, que possua os olhos verdes mais lindos do mundo...
      Era um verdadeiro disparate que uma mulher, apenas por ser menor de idade, ficasse exposta  ira de um bbado, ainda que ele fosse seu pai.
      At que ponto algum tinha o direito de dispor da vida dos outros ao seu bel-prazer?
      Bem, por mais revoltante que achasse essa situao, manteria sua promessa de visitar sir John Rendell no dia seguinte e tentaria averiguar se todos aqueles 
boatos possuam algum respaldo na realidade.
      Aps tomar essa resoluo, Droxford mandou que o jantar fosse servido no imenso salo de banquetes, suntuosamente decorado em estilo Vanburgh, com pinturas, 
mveis e ornamentos de valor incalculvel.
      A mesa comprida, recoberta por uma delicada toalha de rendas brancas, estava enfeitada com arranjos de orqudeas, vindas da prpria estufa da manso, e os 
pratos eram servidos em baixelas de ouro que pertenciam  famlia desde o reinado de Charles II.
      Embora a comida, cuidadosamente preparada pelo chefe de cozinha, estivesse saborosa, Droxford comeu pouco, recusando-se a experimentar a sobremesa.
      Em nenhum instante conseguia se desligar do impasse que o atormentava, imaginando qual seria a escolhida para ocupar a cadeira situada na outra extremidade 
da longa mesa. Mais dia, menos dia, uma semidesconhecida estaria ali, conversando com ele e ostentando as jias da famlia. . . Mas quem?
      Lady Longforde, com aqueles olhos opacos e esbugalhados? Ou lady Mary Fortesque, sorrindo de maneira nervosa? Ah, no! No suportaria v-las ocupando o lugar 
que pertencera a sua me!
      S mesmo Georgette Sibley seria insensata a ponto de supor que ele desposaria uma daquelas tolas... Se bem que a sociedade tambm aceitaria sem questionar 
que uma delas fosse escolhida para se tornar a futura esposa do lorde-tenente.
      "Jamais me casarei com alguma delas!'', pensou Droxford, levantando-se e saindo s pressas do salo, antes que Masters pudesse lhe servir o vinho do Porto.
      Atnito com aquele gesto brusco, o mordomo o fitou de maneira preocupada, ignorando a piscada maliciosa que o criado, postado  porta do salo, lhe dirigia. 
Entre os empregados corriam boatos de que a razo do constante mau humor de Droxford se relacionava sem dvida a uma desiluso amorosa.
      Na certa, esses comentrios deixariam o conde furioso se lhe chegassem aos ouvidos. Afinal, o que ele menos queria era que os servos soubessem de seus planos 
para aquela noite e sorrissem s escondidas de suas justificativas para o passeio noturno. . .
      Entretanto, sem nada suspeitar, Droxford pediu que lhe selassem o garanho negro para em seguida sair cavalgando em disparada pelo campo aberto, o vento selvagem 
lhe desarrumando os cabelos.
      Ao atingir os limites de Droxford Park, ele enveredou pelo bosque que separava sua propriedade da de lorde Sibley, chegando aos jardins do vizinho em poucos 
minutos.
      Devido s extravagncias de Georgette em Londres, lorde Sibley no tinha condies de cultivar as terras que possua, arrendando-as aos colonos.
      Como as dependncias da fazenda ficavam cercadas por plantaes que encobriam toda a viso dos jardins, dificilmente um dos em pregados o veria entrar. Assim, 
Droxford desmontou, amarrou o cavalo em uma cerca e caminhou rapidamente at um pequeno templo branco, construdo pelo pai de lorde Sibley, que era um estudioso 
da cultura grega.
      A construo, imersa nas sombras da noite, parecia deserta, mas assim que Droxford abriu a porta, a luz bruxuleante de dois candelabros iluminou o vulto esguio 
de Georgette Sibley.
      Recostada num sof de cetim, contra algumas almofadas de seda, ela estendeu os braos alvos na direo de Droxford, entreabrindo a frente do sensual neglig 
de gaze cor-de-rosa que revelava a completa nudez de seu corpo maravilhoso.
      Hipnotizado pela beleza daquela mulher, Droxford fechou a porta com gestos mecnicos, antes de atirar a cartola e as luvas em uma das poltronas. Em seguida, 
caminhou com passos firmes ao seu encontro.
      - Voc est linda, Georgette - ele disse, com a voz rouca de desejo.
      - No agentava mais esper-lo, meu amor...
      Em resposta, ele se inclinou, abraando-a de modo sensual enquanto a beijava com avidez, excitando-se ao notar que Georgette correspondia plenamente s suas 
carcias...
      
      Perto do meio-dia, Karina foi mais uma vez at a janela a fim de espiar a estrada. Para sua desiluso, porm, no havia sinal de carruagem ou de cavalos...
      - No acreditei mesmo que ele viesse... - murmurou em voz baixa, tentando se consolar.
      Fora difcil convencer o pai a se vestir e fazer a barba naquela manh, mas mais trabalhoso ainda tinha sido for-lo a sentar-se na sala enquanto ela lhe 
lustrava as botas de cano alto.
      Sir Rendell havia gritado com ela, acusando-a de viver interferindo em sua vida, mas depois, com uma de suas costumeiras mudanas de humor, sentira remorsos 
e lhe pedira desculpas pelos maus-tratos.
      - Sei que a culpa de poucas pessoas decentes virem nos visitar hoje em dia pertence a mim, portanto, eu deveria ficar feliz, por Droxford querer me ver. No 
entanto, juro que irei me comportar direitinho, minha filha, desde que voc me d uma bebida. No conseguirei encar-lo sem um trago!
      - Alm de ser muito cedo, papai, acho que o senhor fica mais agradvel sem esse maldito conhaque que o faz enrolar as palavras e esquecer as coisas.
      - Droga! Ser que no posso tomar um drinque na minha prpria casa? - gritou sir John, antes de acrescentar, num tom de arrependimento: - Est bem. Vou obedec-la, 
querida.
      - Obrigada, papai, Vou trazer um caf quente para ns dois.
      - Certo! Afinal isso  melhor do que nada - ele murmurou, aparentemente conformado.
      Quase feliz, Karina correu para a cozinha, onde pediu  sra. James que lhe preparasse um bule de caf. A velha assentiu com um sorriso e se levantou devagar 
do banquinho ao lado do fogo, adiantando-se para pegar a gua.
      O casal James trabalhava para seus pais desde o nascimento de Karina e tinham mais ou menos oitenta anos de idade. Eram os nicos empregados a permanecer na 
propriedade em troca de teto e comida e dividiam entre si os servios domsticos.
      Naquela manh, embora protestando, o velho vestira a casaca de cerimnia e calara as botas de couro, ficando com um aspecto simples! mas bastante apresentvel.
      Enquanto aguardava que a gua fervesse, Karina se ps a rememorar os acontecimentos da noite anterior, quando havia contado ao pai sobre a visita do conde.
      Ao chegar do castelo do duque, ela encontrara sir John bbado e de mau humor, o que a desanimara de imediato.
      - Droxford! Quem  Droxford? - ele perguntara, atropelando as palavras.
      -  o conde de Droxford. O pai dele era o responsvel pela caa  raposa e pelas festas em Droxford Park que tanto o agradavam, papai.
      - Mas por que voc no me disse antes?
      Em resposta, Karina sacudira a cabea, desolada ao contemplar aquele homem alto e corpulento, com os belos traos do rosto deformados pela bebida. A cada dia 
que passava, pior ficava sua aparncia; os olhos opacos constantemente inchados e os cabelos grisalhos caindo em desalinho sobre a testa.
      Com as mos trmulas, ele jogara para o lado a garrafa de conhaque vazia e abrira outra, sorvendo um longo trago.
      - A propsito, papai, o conde est ansioso para rev-lo e espera ser recebido dignamente. Creio que vai lhe fazer bem encontrar algum importante, para variar. 
. .
      - O que quer dizer com "para variar"? - interrompeu sir John, de maneira rude.
      - Antigamente, nos tempos do Parlamento, nossa casa vivia cheia de gente importante, que o senhor tratava de uma forma magnfica, no faltavam elogios. 
      - E o que h de errado comigo, hoje em dia?
      -  inegvel que o seu atual crculo de amizades se compe apenas de gente de baixa categoria. Alm disso, ns estamos quase sem dinheiro, mas o senhor gasta 
tudo em jogos e bebidas!
      - Escute aqui, bebo o quanto quiser, pois pago para isso. Por outro lado, nem imagino o que voc faz com o dinheiro que lhe dou para as despesas.
      - Ora, h meses que o senhor no me d um centavo sequer! Nossa situao  to crtica que os comerciantes da aldeia se recusam a nos vender algo, at que 
saldemos pelo menos parte de nossas dvidas. Sinceramente, sinto medo, papai.
      - Mas que impertinncia! Mostrarei a esses petulantes quem sou.
      - Por favor, papai, no fique nervoso. S nos resta vender os quadros que esto no quarto de mame. Se consegussemos fazer isso, poderamos saldar boa parte 
do que estamos devendo.
      - Atrevida! Como ousa sugerir que eu venda os objetos que foram de sua me? Eles pertencem a ela e ningum ir toc-los, ouviu bem? Ningum! Muito menos voc, 
que vive querendo me extorquir dinheiro! No vou vender nada, nem que eu a veja morrendo de fome, entendeu?
      - Acredito que  isso o que vai acontecer, papai.
      Enfurecido pela calma da filha, sir John lhe desferiu um tapa no rosto que a fez cambalear. Surpreendida, Karina no caiu porque ele a amparou nos braos.
      - Voc no vai vender nada do que foi de sua me, est me entendendo? Nada! E se eu peg-la levando alguma coisa daqui sem que eu saiba, vai se arrepender 
por ter nascido. Fui claro?
      Enquanto falava, ele a sacudia violentamente, cravando os dedos nos braos delicados de Karina.
      --Claro que entendi, papai. No farei nada sem antes consult-lo. Mas tenho medo de no podermos comprar mais conhaque, pois o dono da adega no nos vender 
mais bebida, se o senhor no lhe pagar.
      - Ento, essas so as ltimas garrafas que me restam? - De sbito ele a largou, cobrindo o rosto com as mos. - Mas eu no vivo sem beber! Voc sabe, Karina, 
que no vivo sem isso!
      Apesar de ainda sentir o ardor do tapa no rosto, Karina se compadeceu diante do desespero do velho, que andava de um lado para outro, desorientado. De repente, 
aps um longo trago de conhaque, ele se postou  sua frente e disse num fio de voz:
      - Venda alguma coisa, qualquer coisa, mas no me conte nada... No me fale sobre o que perdemos... Eu no suportaria! Os tesouros de sua me. . .
      Ao v-lo naquele estado, ela deduziu que logo o pai ficaria completamente bbado, sem condies de dar um passo sequer. Assustada, foi  procura do velho James, 
pedindo-lhe que a ajudasse a transport-lo para o quarto, evitando assim que ele passasse o resto da noite acomodado apenas na poltrona.
      Ento, com lgrimas nos olhos, ela massageou os hematomas dos braos, lamentando-se por todas as vezes em que o pai lhe batera, inclusive com a bengala. Mas 
agora o que mais a afligia era a demora do conde. Se Droxford no aparecesse, ela no queria nem pensar nas conseqncias que precisaria suportar, pois sem dvida 
sir Rendell no hesitaria em descontar nela a prpria frustrao.
      Preocupada, ela tornou a espiar pela janela. Dessa vez, porm, seu corao quase parou.
      Atravessando os portes da propriedade em uma carruagem aberta, conduzida por dois cavalos magnficos, o conde de Droxford se aproximava.
      - Ele est chegando! James, o conde chegou. Rpido, v para a porta enquanto deso para receb-lo.
      - Pois no, srta. Rendell, j estou indo.
      - Vamos, se apresse.
      - No consigo andar depressa. Meus ps doem demais.
      - Certo, James, certo. Ento fique ao lado da porta de entrada e no se mova por nada.
      Assim que o criado assumiu seu posto, Karina saiu at o ptio para receb-lo. A expresso de alegria que havia em seus olhos brilhantes, aliada a um leve rubor 
que lhe coloria as faces, tornou-a encantadora aos olhos do conde que a fitou com sincera admirao, enquanto estacionava o veculo.
      Impressionado com a elegncia que ela aparentava, apesar da simplicidade do vestido de algodo branco, ornado somente com uma fita de cetim verde na cintura, 
Droxford disse a si mesmo que dificilmente outra mulher se igualava a ela em graa e altivez. 
      - Oh, que bom que veio! Tive tanto medo que esquecesse essa visita...
      - Nunca me esqueo das minhas promessas.
      - Eu imaginava isso, mas contudo no pude evitar uma certa apreenso.
      - Por qu?
      - Bem. ... Papai ficou muito ansioso com a sua visita e se sentiria magoado caso algo desse errado.
      - E onde ele se encontra?
      - Sinto muito, mas o reumatismo o impede de vir receb-lo aqui fora. Importa-se em me acompanhar  sala de visitas?
      -  claro que no! Vamos l.
      No mesmo instante em que transps o solar da entrada, a ateno dele foi chamada para o vestbulo quase sem mveis e para os espaos mais claros nas paredes, 
que indicavam os lugares onde outrora havia quadros.
      Ao final de um corredor, cujo carpete estava bastante estragado, uma porta conduzia  sala de estar, que seria agradvel, no fosse a ausncia de moblia. 
No cmodo imenso se espalhavam de forma desordenada umas poucas cadeiras, uma escrivaninha antiga e uma mesa, onde tinha sido colocado um vaso de flores.
      Depois de bater com suavidade  pesada porta, Karina anunciou:
      - O conde de Droxford, papai.
      Sem se mover da cadeira, sir John lhes indicou que se aproximassem, explicando:
      - Desculpe-me, Droxford, mas no posso me levantar para cumpriment-lo. O reumatismo est acabando no s comigo, como com as minhas boas maneiras tambm.
      Longe de demonstrar qualquer desagrado, o conde sorriu de maneira amigvel e se aproximou do velho, estendendo-lhe a mo, num cumprimento caloroso.
      Aliviada, Karina observou a cena, perguntando:
      - Aceita um caf, conde de Droxford?
      - Caf!  isso que se oferece a um velho amigo, minha filha? Traga vinho ou conhaque.
      Percebendo o olhar angustiado de Karina, o conde interveio:
      - No, muito obrigado, Rendell. Ainda  cedo para bebidas. Prefiro caf e tenho certeza de que voc me acompanhar.
      Sem dvida, sir John teria soltado um palavro se Karina no lhe cutucasse o brao disfaradamente.
      - Muito bem, ento tomarei uma xcara de caf em sua homenagem.
      - timo! Vou busc-lo e volto em alguns instantes. J deve estar quase pronto, papai.
      Ato contnuo, Karina se virou para sair da sala, deixando  mostra o hematoma que havia em um de seus braos. Era uma marca de trs dedos, e Droxford compreendeu 
de imediato que Masters no mentira ao lhe falar sobre o tratamento violento que sir John dispensava  filha.
      Apressada, ela deixou o ambiente em direo  cozinha, onde despejou o caf no bule de prata que fora polido logo cedo. Em seguida, ajeitou tudo em uma bandeja 
e voltou rapidamente para a sala, temendo que o pai cometesse alguma indelicadeza para com o visitante. No entanto, ao entrar, notou que os dois homens conversavam 
animados, parecendo se divertir.
      Poucos minutos depois, porm, o conde se levantou, fazendo meno de ir embora.
      - Senti um enorme prazer em rev-lo, sir Rendell. Espero que volte em breve  vida pblica.
      - Ah, no! O Parlamento nunca mais contar comigo. Minha sade j no agenta mais as lutas das eleies!
      -  uma pena. Mas, independente disso, espero que aceite jantar em Droxford Park quando estiver melhor.
      - Voc vai receber o ttulo de lorde-tenente, agora que Handley faleceu, no  mesmo?
      "Como ser que ele se lembrou disso agora?", perguntou-se Karina, apreensiva.
      Ser que fora ela prpria quem lhe contara a respeito da morte de lorde Handley? Ainda assim era admirvel que ele no se tivesse esquecido da tradio de 
os condes de Droxford serem agraciados com o ttulo de lorde-tenente!
      - Correto, sir Rendell. Sua Majestade deve me indicar como o novo lorde-tenente a qualquer momento.
      Depois de se despedir do velho, acompanhou Karina atravs do corredor, dizendo:
      -Falar de Preciso um voc de com de ss. 
      Com o corao descompassado, ela o conduziu  saleta ntima, que dispunha apenas de um tapete, um sof prximo  lareira e cortinas nas janelas, indicando 
que aquele cmodo ainda era usado.
      Todos os outros mveis haviam sido retirados, assim como os quadros, os espelhos e a pequena escrivaninha de laca chinesa onde lady Rendell costumava escrever 
cartas.
      Aps trancar cuidadosamente a porta, Karina cruzou os braos e o fitou de um jeito inquiridor.
      - Voc possui algum parente com que possa morar? - o conde perguntou, de repente.
      - Por qu?
      Antes de responder, ele apontou para a mancha arroxeada em seu brao direito.
      - Isso sempre acontece?
      - S quando ele se lembra de minha me. Meu pai a amava com loucura e, desde sua morte, acha tudo insuportvel e fica bravo comigo porque imagina que pretendo 
substitu-la.
      - E o que aconteceria se voc o deixasse? 
      Enrubescendo, Karina abaixou os olhos e declarou, vacilante:
      - Papai tem uma... amiga, que cuida dele melhor do que eu, embora se recuse a vir morar aqui enquanto eu estiver presente. Creio que se eu me mudar ela vir 
para c. Trata-se de uma senhora gentil, que dispe de uma pequena renda particular. Alis, este  um dos motivos pelos quais quero me... casar.
      O silncio pesado que caiu sobre os dois foi subitamente quebrado por uma exclamao do conde:
      - Que v tudo para o inferno! Voc conseguiu, Karina! Pode me agradecer, porque vou livr-la dessa situao absurda.
      - Quer dizer que... pretende se casar comigo?
      - Sim, mas lembre-se de que fao isso sem nenhum prazer. Odeio o fato de estar sendo obrigado a escolher uma esposa, o que significa que no me revelarei um 
marido exemplar, Karina. Portanto no crie iluses.
      - Fique tranqilo, pois no tenho falsas esperanas. Simplesmente, desejo me tornar sua esposa. . . no s para escapar daqui. Acredito que ns dois faremos 
um bom negcio.
      - Espero que sim, Karina. Rezo para que tudo isso acabe dando certo. Bom, pelo menos voc  mais inteligente e espirituosa do que aquele bando de jovens insossas 
que conheci ontem, na festa do duque de Severn.
      - A propsito, elas no passaram o tempo todo dizendo: "Sim, senhor" e "no, senhor"?
      - Acertou!
      - Oh, eu estava convencida de que se abrissem a boca, elas perderiam todas as chances de conquist-lo.
      - Para falar a verdade, acho que eu no perceberia tantos defeitos nelas se voc no tivesse despertado a minha ateno.
      - Talvez... No entanto, eu no podia me arriscar a deix-las vencer o grande prmio. Por isso, me limitei a falar mal das jovens de classe.
      - Ento, para voc, casar-se comigo  o mesmo que vencer uma corrida de cavalos?
      - Oh, muito mais!  equivalente a ganhar a copa de ouro em Ascot!
      - Voc  incorrigvel! S que, apesar de divertida, voc precisa aprender a se comportar direito e a moderar a lngua para se tornar uma condessa  altura 
do ttulo.
      -  claro! Garanto-lhe que serei conhecida como a simptica e educada condessa de Droxford, com a vantagem extra de saber manter um dilogo interessante.
      - timo! Agora, mudando de assunto, acho que preciso dar a notcia para seu pai... Na verdade eu deveria ter pedido sua mo a ele e no diretamente a voc.
      - Agora  tarde, de modo que talvez seja melhor eu mesma contar a novidade. Quando podemos nos casar?
      - Ainda no pensei a respeito. 
      - Posso dar uma sugesto?
      -- Lgico.
      - Acredito que a cerimnia tem que se realizar o mais rpido possvel, antes que o rei resolva dar o ttulo de lorde ao duque de Severn.
      - Por qu? Teme que, se isso acontecer, eu volte atrs no meu pedido?
      - Oh, sem dvida!
      - Ento o que sugere?
      - Que tal se nos casarmos em segredo na capela de Droxford Park? Mais tarde alegaramos que no houve comemorao porque um parente da noiva estava doente, 
o que alis no seria mentira, pois papai no tem condies de participar de uma festa.
      - Entendo a sua preocupao... 
      Ignorando a interrupo, ela acrescentou:
      - Ao final da cerimnia, podemos partir para Londres. Desse modo, nos livraramos das especulaes do pessoal da regio, deixando-os tomar conhecimento do 
fato atravs dos jornais londrinos.
      - Hum, parece que voc j pensou em tudo... . Confesso que estou meio confuso.
      - Se pensar um pouco vai ver que a minha sugesto  a mais acertada.
      - Creio que tem razo, Karina. O capelo de Droxford Park celebrar a cerimnia e viajaremos em seguida, escapando dos comentrios e das fofocas, at que seja 
tarde para protestos.
      Alis, protestos no faltariam. Principalmente por parte de lady Georgette Sibley, que no ficaria nada contente quando descobrisse a noiva que Droxford havia 
arranjado. Seria impossvel para algum em seu juzo perfeito acreditar que o conde fosse completamente indiferente quela jovem de aspecto quase infantil, corpo 
esguio e traos belssimos, que revelavam uma alma cndida e, ao mesmo tempo, forte e determinada.
      Tentando afastar da mente essas preocupaes, ele declarou:
      - Faremos exatamente como voc falou, Karina. Escreverei ainda hoje solicitando uma licena especial que me ser entregue amanh de manh. Minha carruagem 
vir busc-la s trs horas da tarde, certo? Depois da cerimnia, partiremos, com a inteno de chegar a Londres antes do jantar.
      - Perfeito! Tentarei convencer meu pai a ir comigo. Entretanto, caso ele no concorde,  fcil arrumar outra testemunha?
      - Claro!
      Cada vez mais surpreso, ele a encarou durante um longo tempo, incapaz de acreditar que uma jovem pudesse falar com tamanha tranqilidade sobre o prprio casamento.
      Karina, sentindo-se observada, desviou o olhar e tentou acabar com o clima de intimidade que se instalar, quebrando o silncio:
      - Quero lhe agradecer por tudo. Prometo que serei uma esposai submissa e conformada e que nunca irei interferir nos seus outros... afazeres. Asseguro que jamais 
se arrepender desse nosso trato.
      -  o que espero, Karina.
      Em seguida, ele lhe beijou a mo de maneira respeitosa e se deixou conduzir por Karina at o vestbulo, onde apanhou a cartola e a bengala.
      Assim que a carruagem se ps em marcha, ele se virou e acenou para a jovem, que mais parecia uma deusa com os cabelos loiros brilhando ao sol. Apesar de julg-la 
encantadora, Droxford no conseguia evitar uma certa apreenso em relao ao futuro.
      - Dane-se o rei! - murmurou entre dentes. - No quero nunca me ver preso a mulher alguma, nem que ela seja minha esposa!
      
      CAPTULO III
      
      Apressada, Karina se deu conta de que a carruagem j a esperava h mais de quinze minutos. Apesar de seus esforos, no conseguira arrumar-se dentro do horrio 
previsto, pois tinha sido necessrio providenciar uma poro de coisas na ltima hora.
      O elegante veculo, conduzido por uma parelha de lindos cavalos, despertou-lhe uma irresistvel vontade de gui-lo em vez de ficar imvel no assento de cetim, 
encimado pelo braso dos Droxford. Conteve-se, porm, temendo que o conde se horrorizasse ao ver a noiva, em pleno dia do casamento, dirigindo a carruagem com o 
cocheiro confortavelmente acomodado na parte interna... Ah, sem dvida isso o irritaria ao extremo.
      No entanto, assim que se estabelecessem, ela decidiu que lhe pediria uma pequena carruagem descoberta, ainda que para tanto precisasse lhe explicar como aprendera 
a manejar to bem as rdeas.
      Aquele fora um dos perodos mais difceis de sua vida, e ela se lembrava bem do quanto se desesperara ao se ver sozinha, sem um centavo, cheia de dvidas para 
saldar e sem o apoio do pai que, em Londres, parecia no se importar com nada, alm de seu recente desgosto pela morte da mulher. Por isso, Karina tinha sido obrigada 
a trabalhar, se empregando como adestradora em um estbulo a trs quilmetros de Blake Hall.
      Era um lugar bastante conceituado que, alm de alugar cavalos, vendia parelhas especialmente treinadas. O proprietrio, um senhor de meia-idade, tinha fama 
de profundo conhecedor de animais, o que o obrigava a se locomover constantemente a fim de atender os inmeros chamados dos fazendeiros da regio.
      Isso, aliado ao movimento crescente do seu negcio, fez com que ele precisasse encontrar algum com uma certa experincia, que pudesse ajud-lo. Assim, quando 
Karina se apresentou para a funo, o homem a aceitou de imediato. A partir de ento, ela comeara a se dedicar ao adestramento de potros e garanhes para o uso 
de selas ou para serem atrelados a carruagens e coches.
      No havia dvida de que essa tarefa se revelava perigosa e at mesmo muito ousada para uma jovem de sua posio social, porm isso no a envergonhava. Pelo 
contrrio, despertava nela um grande orgulho por ser capaz de ganhar seu prprio sustento, alm de pagar tudo o que devia.
      Admirando-se da prpria coragem, Karina sorriu satisfeita, espiando mais uma vez a bela parelha. Nesse momento um pensamento lhe atravessou a mente, excitando-a. 
Depois que se tornasse a condessa de Droxford, teria oportunidade de montar os animais mais lindos e velozes, uma vez que Alton era considerado um verdadeiro expert 
em matria de cavalos, alcanando um enorme sucesso no turfe e nas corridas mais importantes de toda a Inglaterra.
      De repente, porm, um arrepio lhe percorreu a espinha, lembrando-a do motivo real que a levava a Droxford Park naquele momento.
      Seria verdade que aquilo ia mesmo acontecer? De fato, estava a apenas um passo do casamento?
      Havia acontecido tanta coisa no dia anterior, depois da visita de Droxford, que ela mal tivera tempo para se convencer de que estava prestes a se tornar a 
nova condessa.
      Logo depois do almoo, Karina correra ao estbulo em busca de Jim, o garoto que a ajudava a cuidar dos dois cavalos de sir Rendell em troca de autorizao 
para cavalgar de vez em quando.
      Apesar de o pai oferecer certa resistncia at permitir que um simples garoto de aldeia tomasse conta dos garanhes, no lhe restar alternativa depois que 
o cocheiro partira de Blake Hall por falta de salrio.
      O rapaz, esperto e dedicado, era de grande valor para Karina, pois levava recados tambm e a auxiliava em pequenas tarefas domstica uma vez que o casal James 
mal conseguia se locomover.
      - Boa tarde, Jim - ela dissera, assim que havia avistado o jovem moreno, de aspecto infantil.
      - Boa tarde, senhorita. Precisa de algo?
      - Sim. Por favor, sele Kingfisher para mim. Depois, v  aldeia de Severn e pea ao sr. Abbott que me procure esta noite ou no mximo amanh bem cedo. Diga-lhe 
que  urgente.
      -  Por acaso, esse  o homem que mora ao lado da igreja e vende mveis?
      -  Exatamente. Agora se apresse, Jim.  muito importante.
      -  Pois no, senhorita.
      Minutos mais tarde, Karina cavalgava em campo aberto, em direo ao castelo do duque de Severn.
      Ao se aproximar da propriedade, em vez de deixar o cavalo preso  cerca, como de costume, optou por avanar pelo parque, parando diante de uma das portas de 
servio, onde um criado se adiantou para receb-la.
      Sorrindo, ela apeou e pediu ao lacaio:
      -  Voc olharia meu cavalo, por gentileza? Caso seja necessrio, pode deix-lo no estbulo que irei busc-lo mais tarde.
      -  Est certo, srta. Rendell.
      -  Muito obrigada!
      Em seguida, ela lhe deu as costas, rumando apressada para o interior do castelo. Como o conhecia desde pequena, no encontrou a menor dificuldade em se locomover 
atravs dos longos corredores lajeados, nem dos interminveis lances de escada que conduziam s diversas alas do palcio.
      Ofegante, chegou ao segundo andar e, pouco depois, batia  imponente porta de carvalho com aldravas banhadas a ouro.
      -  Entre - falou Elizabeth com suavidade; estava confortavelmente instalada na sala de aulas e se ocupava em bordar uma tapearia.
      -  Ol, querida, tudo bem? - perguntou Karina, entrando e relanceando um olhar  sua volta. - Voc est sozinha?
      -  Felizmente. A professora levou as crianas para darem um Passeio.
      -  Oh, que timo!
      -  Ai, Karina, que bom v-la. Nem imagina o quanto desejei que voc aparecesse ontem. Esperei at tarde, morta de curiosidade par saber a sua opinio sobre 
a festa.
      -  Voc gostou?
      -  Hum, detestei. Para ser exata, achei tudo horrvel... Mama no parava de me apresentar aos cavalheiros e, no momento em que eu os encarava, as idias sumiam 
da minha cabea. Quando eles pediam licena e saam, o que era inevitvel, uma vez que eu no abria boca, mame se mostrava furiosa! Alis, eu no a compreendo... 
Ela passa os dias dizendo que no devemos conversar com os rapazes e no entanto...
      Divertida com o ar pensativo da amiga, Karina se ps a rir exclamando:
      -  Voc precisa deixar de ser to tmida!
      -  No consigo. Alm disso, odeio estar no meio de muita gente. E voc? Conseguiu ver tudo, do nosso esconderijo? Lady Sibley foi ao recanto escondido? Tenho 
certeza de que lorde Droxford a acompanhava, acertei?
      Surpreendida, Karina permaneceu calada durante alguns instantes! Se por um lado as duas jovens possuam uma amizade antiga e no mantinham segredos entre si, 
por outro, Droxford ia se tornar se marido, merecendo, portanto, completa lealdade.
      Alm disso, no seria nada fcil explicar a Elizabeth o que acontecera entre ela e o conde. Na certa, a moa a recriminaria, censurando-lhe o comportamento 
ousado e impetuoso...                               I
      Tentando arranjar um meio de escapar de uma resposta direta, ela desviou o rosto, disfarando o rubor, e disse, hesitante:
      -  Eu... no fiquei muito tempo. Achei bem maante observar as coisas sozinha.
      -  Que chato! Imaginei que voc teria tantas novidades... Ah, sim! Lady Sibley me apresentou ao conde Droxford, ontem. Karina, que homem bonito, apesar de 
ser meio intimidador...
      Desejando mudar de assunto, antes de se ver em situao embaraosa, Karina ignorou o comentrio, anunciando:
      -  Preciso de sua ajuda, Elizabeth.
      -  Por qu? Algum problema na sua casa? Seu pai adoeceu outra vez?
      -  No,  algo completamente diferente. O conde Droxford convidou papai para visit-lo amanh  tarde. Eu preciso acompanh-lo, mas no possuo nenhuma roupa 
apresentvel.
      -  Oh, que maravilha, Karina! Ser que lady Sibley vai estar l? 
      - Creio que no... Querida, voc poderia me emprestar um vestido? Prometo tomar bastante cuidado.
      -  Claro! Entretanto, mame no pode descobrir, seno vai brigar comigo.
      -  Sim, eu sei. Inclusive, s me atrevi a lhe pedir isso, porque no tenho coragem de chegar a Droxford Park nestes trajes.
      Enquanto falava, ela apontou para o simples vestido de algodo, j fora de moda e pouco adequado para sua idade, pois fora comprado por sua me h trs anos, 
quando ela ainda era uma adolescente.
      Naquele momento, Karina se arrependia amargamente por no ter guardado as roupas da falecida lady Rendell que, embora estivessem um pouco desatualizadas, mantinham 
o inegvel toque de elegncia e bom gosto, exigidos pelas festas e reunies que ela era obrigada a participar como esposa de um membro do Parlamento.
      Porm, durante aqueles dias de desespero, quando sir John voltara de Londres sem um centavo e doente, Karina se viu forada a se desfazer dos caros e sofisticados 
vestidos.
      Por sorte, uma vizinha, que muitas vezes tomara emprestado de sua me vestidos e capas para ocasies especiais, a procurara, dizendo que ia se casar e mudar 
dali dentro de duas semanas.
      -  Oh, Karina, disponho de pouqussimo tempo para comprar um enxoval, e as roupas de sua me sempre me serviram perfeitamente. - Ela havia lamentado. - Por 
favor, venda-as para mim. Consegui economizar algum dinheiro durante esses anos e posso lhe pagar uma quantia razovel pelos trajes.
      As altas contas dos mdicos e dos remdios mais as despesas de manuteno da casa foram argumentos suficientemente fortes para vencer qualquer relutncia por 
parte de Karina. Alm disso, ela estava certa de que sua me, se fosse viva, compreenderia suas razes e a apoiaria.
      Por isso, superando a dor que sentia por se desfazer dos objetos que haviam pertencido  pessoa que mais amara no mundo, Karina vendeu um enxoval completo 
 vizinha, utilizando o dinheiro para sustentar a casa durante todo o inverno.
      Agora, porm, censurava-se por no ter guardado pelo menos alguns modelos clssicos que poderia reformar para si mesma.
      Imersa nesses pensamentos, ela nem se deu conta de que a amiga a conduzia para o quarto, dizendo:
      -  Vamos ver as roupas, Karina. Mame se queixa tanto do preo dos tecidos que sinto vontade de rir com as tentativas dela de me transformar de patinho feio 
em cisne! Coitada,  to otimista!
      Elizabeth acompanhou as palavras com um profundo suspiro de desolao, que arrancou uma risada de Karina.
      -  Pois saiba que eu a considero bastante atraente, seu nico problema  a timidez. Se superar isso, na certa voc vai brilhar na sociedade.
      -  Sinto desiludi-la, mas acho isso impossvel.
      "Depois do meu casamento, vou convid-la para passar alguns dias em Londres... Ento, encontrarei um marido gentil e compreensivo para ela", pensou Karina, 
fitando-a com ternura.
      Simultaneamente, porm, se perguntou se no era isso o que toda mulher desejava.
      Um homem como Droxford, sem dvida, assustaria no s a Elizabeth, como a qualquer outra que ousasse enfrent-lo, inclusive a prpria Karina.
      Entretanto, como no dispunha de tempo para analisar aquela situao, resolveu concentrar a ateno apenas nos modelos que a amiga lhe mostrava, quase todos 
brancos, como convinha a uma debutante.
      A nova moda apresentava cintura fina, saias rodadas sobre diversas anguas de seda e decote largo, revelando a elegante inclinao dos ombros e finalizando 
em mangas bufantes, que acentuavam o corpete justo.
      Apesar de muito graciosos e luxuosos, Karina os achou excessivamente enfeitados com fitas, plumas, flores, laos e babados. -- Engraado, mame sempre apreciou 
roupas simples...
      -  Oh, eu tambm prefiro. Para ser franca, Karina, quando me visto para sair, normalmente me sinto vulgar em meio a tantos adornos.
      -  Qual voc vai me emprestar?
      -  Escolha  vontade. S no pegue este enfeitado com fitas de veludo porque ainda no o usei, nem este com laos de cetim, que  o preferido de mame.
      Ato contnuo, Elizabeth tirou um cabide do qual pendia um traje de musseline branca, composto de uma saia ampla com trs saiotes de seda superpostos e um lao 
de cetim, volteando o decote e as mangas de tule, suavemente bufantes.
      -  Que acha deste, Karina?
      -   lindo! Muito mais bonito que os outros.
      -  Concordo, mas mame o considera muito austero. Conseqentemente, no me pedir para us-lo, pelo menos at que voc me devolva.
      -  Posso mesmo lev-lo?
      -  Lgico. Vamos embrulh-lo com cuidado, e espero que voc tenha vindo a cavalo.
      -  Sim, claro!
      -  Que tal escolher um chapu?
      -  Oh,  mesmo! Quase me esqueo desse detalhe.
      -  Isso seria imperdovel. Ali, naquela diviso do armrio, h no mnimo uma dzia de chapus.
      Em seguida, ela comeou a desfilar diante de Karina uma srie de pequenas toucas que se usavam atrs da cabea e que estavam muito em voga, fazendo os demais, 
altos e de abas largas, parecerem vulgares.
      Depois de algum tempo, Karina optou por um de aspecto bastante simples, confeccionado em musseline e fitas, o que combinaria perfeitamente com o vestido.
      Ao experiment-lo diante do espelho, a imagem refletida lhe confirmou a suposio. O chapu no s combinava muito bem com a cor de seus olhos e cabelos, como 
lhe realava os traos delicados do rosto, emprestando-lhe uma expresso angelical.
      -  Ficou perfeito, Karina! Parece que foi feito sob medida para voc.
      -  Posso lev-lo tambm?
      -  Claro! O nico problema  como, uma vez que no podemos embrulh-lo sem correr o risco de amass-lo.
      -- J sei... Vou vesti-lo e descerei pela escada do fundo, assim, ningum vai me ver.
      -  Ah, ento est perfeito!
      -  Obrigada, querida! Algum dia lhe pagarei por toda sua gentileza, prometo.
      -  Ora, deixe de bobagens! Voc sabe que a sua amizade significa muito para mim, Karina. S me divirto na sua companhia, e voc  a minha nica confidente.
      -  Nem sei como agradecer, querida, mas quero lhe pedir uma ltima coisa; reze por mim amanh  tarde, enquanto eu estiver em Droxford Park.
      -  Meu Deus, que trgica! Voc no est nervosa porque vai l, est? Nunca a vi com medo de enfrentar qualquer situao e duvido que mesmo o arrogante conde 
Droxford consiga amedront-la!
      -  Eu adoraria ter tanta segurana a meu respeito... Percebendo que Elizabeth parecia surpresa e temendo qualquer pergunta embaraosa, Karina tratou de se 
despedir com um beijo, antes de correr para a escada dos fundos.
      Naquela manh, quando se admirara no espelho do quarto, Karina concluiu que sua aparncia nada tinha em comum com a da jovem simples e mal vestida que saltara 
de uma rvore para pedir o conde de Droxford em casamento!
      O vestido que a amiga emprestara lhe realava no s a cintura fina e a suave elevao dos seios, como tambm o tom acetinado de sua pele.
      A saia longa, um pouco acima do cho, conferia-lhe um porte esguio, e o chapu acentuava o verde profundo de seus olhos grandes e amendoados, assim como os 
lbios rosados e carnudos.
      Com um pequeno suspiro de satisfao, ela se ps a recordar o encontro que tinha mantido com o vendedor de mveis na tarde anterior.
      O sr. Abbott fora visit-la logo depois de receber o recado de Jim e comprara quase todos os quadros do quarto da falecida lady Rendell.
      Sem perder tempo, Karina tornara a chamar Jim e o mandara procurar os comerciantes locais, pagando tudo o que Blake Hall lhes devia.
      Infelizmente, o negociante de vinhos, contente por receber uma dvida que julgara perdida, mandara de imediato uma caixa de conhaque. Para piorar a situao, 
o velho James, achando que aquele era um momento para ser comemorado, levara uma garrafa para o quarto do patro.
      Resultado: quando Karina percebeu o que estava acontecendo, sir Rendell j estava completamente bbado e era impossvel levant-lo da cama.
      Por isso, enquanto dava os ltimos retoques na aparncia, ela imaginava que na certa, quando descesse, encontraria o pai num terrvel mau humor,
      Dito e feito! Assim que a viu, ele se ps a acus-la de todos os crimes possveis, inclusive de esbanjar o dinheiro obtido com a venda dos quadros de sua me. 
E ela s escapou de uma surra porque lhe ofereceu outra garrafa de bebida. Desse modo, quando se aproximou a hora do almoo, sir Rendell no era capaz de sequer 
articular uma palavra com coerncia.
      Aps a refeio, ele mergulhou num sono to profundo que nem percebeu quando a carruagem do conde chegou para buscar a filha.
      Antes de sair, num ltimo gesto de piedade, ela pediu a James que a ajudasse a transportar o velho para cima, o que foi feito com muito esforo.
      Em seguida, ela o cobriu com um cobertor e rabiscou um bilhete para a sra. Arbuthnot, a amiga de sir Rendell, avisando-a de que ia casar-se e pedindo-lhe que 
se mudasse para Blake Hall o mais rpido possvel.
      Tranqilizada com a certeza de que a mulher a atenderia de imediato, no s porque morava a menos de dois quilmetros dali, como tambm por ser loucamente 
apaixonada por sir Rendell h dez anos, Karina pediu a Jim que entregasse a mensagem, gratificando-o com algumas moedas.
      Depois se despediu do atnito casal de criados que a observava com curiosidade, embora sem fazer qualquer pergunta, e relanceou um ltimo olhar de adeus a 
Blake Hall, tentando lembrar se deixara algo sem soluo. Certificando-se de que tudo estava em ordem, deu um suspiro e partiu, sentindo um misto de alvio e apreenso 
lhe invadir o peito.
      Entretanto, no momento em que a carruagem deixou para trs a estrada pblica, enveredando pelas alamedas bem cuidadas de Droxford Park, o corao de Karina 
se acelerou.
      A suntuosidade do lugar e o imenso nmero de criados que por ali circulava a excitavam, despertando-lhe uma terrvel sensao de irrealidade.
      Quando o pedira em casamento, Karina agira apenas de modo impulsivo, no levando em conta que, tornando-se sua esposa, tambm compartilharia das responsabilidades 
que acompanhavam o poder exercido por Droxford.
      E o pior; ela teria que se ocupar da administrao domstica no apenas de Droxford Park, como tambm das demais propriedades dele que, alis, no eram poucas.
      Havia Droxford House, em Londres, famosa por um grandioso baile promovido pelo conde h trs anos, onde compareceram todos os nobres importantes da Inglaterra, 
alm de um chal de caa em Leicestershire, um castelo na Esccia, uma casa na Irlanda e dezenas da outras propriedades de menor importncia.
      Como pudera ser to atrevida a ponto de pedir que um homem como ele se tornasse seu marido? De onde havia tirado a idia de que estava apta a desempenhar o 
papel de condessa de Droxford?
      Assustada pelos problemas que a esperavam, Karina quase ordenou ao cocheiro que a levasse de volta a Blake Hall, de onde mandaria um bilhete, comunicando ao 
conde que no podia casar com ele e que tudo no tinha passado de um terrvel engano.
      Entretanto, a lembrana de que Droxford s aceitara aquele casamento por convenincia e que, portanto, se ela no correspondesse s expectativas a culpa caberia 
aos dois, a fez mudar de idia. Alm  disso, sabia que, se voltasse para casa, no mnimo seria recebida com uma boa surra.
      Seu corao voltou a gelar quando a carruagem parou na entrada da manso, e ela viu a longa fila de criados uniformizados, que a aguardava.
      Mal conseguindo controlar as pernas, que no paravam de tremer, saltou da carruagem com o auxlio do lacaio e, numa pose altiva, se ps a subir os largos degraus 
de pedra, sendo recebida pelo mordomo que, aps uma respeitosa reverncia, lhe entregou um buqu de orqudeas brancas, dizendo:
      - O conde de Droxford a espera na capela. Por gentileza, queira me acompanhar.
      Em resposta, ela assentiu com um aceno de cabea e seguiu o homem atravs dos corredores imensos e imponentes, decorados com quadros valiosos e outros adereos 
de extremo bom gosto.
      A medida que avanavam, seu corao se acelerava, fazendo-a segurar o buqu com fora, como se aquela fosse uma prova de amizade do conde. Finalmente, o som 
delicado de um rgo encheu o ambiente, ao mesmo tempo em que as portas entalhadas da capela particular surgiam  sua frente, abertas de par em par. O mordomo se 
colocou de lado, e Karina deu um passo adiante, parando logo  entrada do templo.
      A pequena igreja se encontrava apenas clareada por uma luz suave, filtrada pelos vitrais coloridos que enfeitavam o altar, realando a singela decorao composta 
de flores brancas e fitas de cetim da mesma cor.
      Droxford, extremamente elegante, em uma casaca azul-escura, a aguardava nos degraus da sacristia.
      Amedrontada pela expresso sria que havia no rosto dele, Karina recuou um passo, empalidecendo.
      Percebendo-lhe a indeciso, Droxford se aproximou dela, perguntando com calma:
      -  Seu pai no pde acompanh-la?
      -  Ele no estava muito bem.
      Embora se sentisse aliviada com o tom tranqilo de Droxford, ela permanecia plida. Preocupado, ele a fitou profundamente nos olhos, perguntando:
      -  Tem certeza de que deseja se casar comigo?
      -  S-sim! E o senhor?
      -  De qualquer modo,  tarde demais para alguma dvida. Acalme-se que dar tudo certo.
      Em seguida, ele lhe ofereceu o brao, conduzindo-a at o altar, enquanto o rgo recomeava a tocar com intensidade, marcando o incio da cerimnia.
      Mais tarde, na carruagem que os levava a Londres, Karina no conseguia lembrar o casamento com detalhes. Gravara somente partes isoladas, como a voz grave 
e profunda de Droxford ao fazer os juramentos, ou o prprio estremecimento ao prometer fidelidade eterna ao marido. O resto lhe parecia muito distante, como se tudo 
no passasse de um sonho.
      Ao final da cerimnia, enquanto tomavam champanhe junto com as testemunhas no salo de recepes, Droxford lhe havia perguntados
      -  Quer fazer alguma coisa antes de partirmos?
      -  Sim, eu gostaria de visitar os estbulos para conhecer seus famosos cavalos.
      Antes de responder, ele a fitou surpreso. Normalmente, quem ia  manso pedia para apreciar a coleo de pinturas, o salo de banquetes, a sala oval de msica, 
a biblioteca ou outro cmodo importante  da residncia, mas nunca os estbulos. 
      -  Se isso a alegrar, sentirei um imenso prazer em acompanh-la. Entretanto, se o conde se surpreendera com a originalidade do pedido, ficou absolutamente 
pasmo ao notar o entusiasmo da esposa enquanto examinava os animais, tratando-os de uma maneira prpria a pessoas acostumadas a lidar com eles.
      Sem um comentrio, Droxford a conduziu  segunda cavalaria, onde a grande vedete era um indomvel garanho negro; havia dois criados especialmente treinados 
para cuidar dele.
      -  No se aproxime muito, lady Droxford, este animal  um perigo quando se enfurece - advertiu o sr. Hansen, o chefe dos cocheiros.
      -  Pois aposto que comigo ele vai se comportar igual a um carneirinho.
      De fato, em poucos minutos, Karina j lhe conquistara a confiana, chegando mesmo a acarici-lo no pescoo e no focinho, enquanto lhe dizia palavras carinhosas.
      - Como aprendeu a conquistar a simpatia dos animais? - indagou o conde, encarando-a, admirado.
      - Creio que j nasci sabendo... No entanto, ningum ignora que todos os bichos s se tornam agressivos quando percebem que algum os teme. Eles necessitam 
de muito amor; concorda comigo, sr. Hansen?
      -  Completamente, lady Droxford. Os animais so muito sensveis...
      -  Confesso que me espantei com a sua habilidade, Karina. Parece que me casei com uma mulher que passou a vida inteira mexendo com cavalos!
      Karina se limitou a sorrir, imaginando que Droxford ainda continuava intrigado, pois mesmo durante a poca em que sir John integrara o Parlamento, Blake Hall 
no possua estrutura econmica para manter uma grande criao. Ainda assim, aquele no era o momento adequado para lhe contar sua experincia como domadora.
      Tampouco ela desejava iniciar uma conversa to embaraosa agora, enquanto a carruagem corria pela estrada, o vento entrando pela janela e lhe desarrumando 
os sedosos cabelos loiros... Talvez, quando chegassem a Londres...
      De repente, seu olhar se deteve na figura mscula e sedutora que se acomodava ao seu lado. Custava a Karina acreditar que aquele homem era seu marido e que 
ela se tornara condessa de Droxford, futura moradora de Droxford Park e uma das damas mais ricas do pas!
      Com medo de que tudo no passasse de um sonho, recostou-se no assento estofado e, fechando os olhos, ps-se a fazer planos para o futuro. S esperava no acordar 
de uma hora para outra e se certificar de que seus problemas no tinham sido resolvidos...
      A imponente manso dos Droxford em Londres contava cerca de cem anos mas, como fora modernizada recentemente, possua um aspecto mais aconchegante e acolhedor 
do que Droxford Park.
      Assim que chegara, Karina havia se retirado para seus aposentos a fim de se recompor. Por isso, meia hora depois, quando se juntou ao conde no andar inferior, 
espantou-se por v-lo to alinhado, em uma casaca verde-oliva, gravata de seda, cala branca e uma esmeralda no bolso do colete de brocado.
      Com passos lentos e firmes, ele se aproximou e a tomou pelo brao, introduzindo-a no grande salo iluminado por suntuosos lustres de cristal, que combinavam 
perfeitamente com os delicados vasos de porcelana chinesa.
      -  Aceita uma taa de champanhe, Karina?
      - No, obrigada! J bebi antes de sairmos para c.
      -  E o que tem isso? Afinal, hoje  o dia do nosso casamento...
      -   verdade, mas no estou acostumada a bebidas alcolicas. 
      Antes que Droxford pudesse retrucar, o mordomo bateu  porta, anunciando em seguida:
      -  O capito Frederick Farrington deseja v-lo, senhor.
      Sem esperar um segundo, o empregado abriu as portas de par em par, dando entrada a um homem alto, moreno, de traos atraentes e extremamente elegante.
      - Bem vindo, Freddie! Tinha me esquecido de nossos planos para jantar esta noite.
      -   por isso mesmo que vim at aqui, Alton! Combinamos de sair juntos para ver as fran...
      Dando-se conta da presena de Karina, ele no concluiu a frase, mostrando-se bastante constrangido. Felizmente, o conde se adiantou apresentando-os:
      -  Karina, este  Freddie Farrington, um velho amigo. Freddie, minha esposa.
      -  Sua... o qu? Voc est brincando comigo, Alton?
      -  Claro que no! Ns nos casamos hoje  tarde.
      -  Ento voc realmente levou a srio aquela histria de casar para conseguir...
      Percebendo que cometera uma gafe, o jovem se calou, caminhando em direo a Karina para lhe beijar a mo.
      -  Muito prazer, lady Droxford. Desculpe minha reao, mas seu marido acaba de me fazer uma grande surpresa. Como somos amigos h muito tempo, julguei que 
seria convidado para o casamento.
      -  Oh, mas no houve convidados, sr. Farrington.
      -  Karina e eu optamos por uma cerimnia simples e discreta, a fim de evitar aquela infinidade de formalidades que sempre atrapalham tudo.
      -  Bem, Alton, se no fosse por voc ter me contado pessoalmente, juro que eu nunca acreditaria. - Em seguida, ele olhou de modo simptico para Karina e concluiu: 
- Para ser franco, no o censuro! Sua esposa  encantadora!
      Em resposta, ela retribuiu o sorriso, enquanto Droxford propunha:
      -  Que tal um champanhe, Freddie?
      -  timo! Estou louco para brindar  sua felicidade, mas prometo que vou me retirar logo em seguida para no estragar o jantar de vocs.
      -  De maneira alguma, meu caro. Voc jantar conosco; vai ser um prazer se nos fizer companhia.
      -  Sim, por favor, fique. Assim, se voc e meu marido precisarem sair mais tarde, eu poderia ir junto. - Nem bem acabou a frase, Karina se arrependeu por ter 
aberto a boca, percebendo pela expresso dos dois que o programa deles para aquela noite no era dos mais apropriados para uma dama. Rapidamente, tentou consertar 
a situao: - Oh, me desculpem... . Talvez seja melhor eu descansar.
      -  No, no - interveio Freddie. - Existem vrios lugares em Londres onde poderamos lev-la para se divertir... Mas, vocs tm certeza de que desejam que 
eu jante aqui hoje?
      -  Claro que sim, meu caro. Voc j me conhece h bastante tempo para saber que eu no sentiria o menor constrangimento de dispens-lo, se fosse necessrio.
      -  Ento, aonde levaramos sua jovem esposa, Alton?
      -  Preciso preveni-los de uma coisa - atalhou Karina, repentinamente. - No disponho de um vestido de noite para sair com vocs. Esta  a nica roupa que eu 
trouxe e, ainda por cima...  emprestada.
      Somente quando terminou, ela notou que o visitante a encarava, atnito. Alton, em contrapartida, soltou um suspiro resignado e comentou, num tom de censura:
      -  Como fomos distrados, Karina... Mas amanh cedo vamos resolver esse problema, certo?
      Notando que a esposa assentia com um gesto, ele se virou para o amigo e, servindo-se de mais uma dose de champanhe, ofereceu:
      -  Que tal outra taa, Freddie?
      -  Obrigado - o capito disse em voz alta, acrescentado num murmrio para que Karina no o escutasse: - Alton, eu simplesmente no estou entendendo nada.
      -  No existe nenhum mistrio. Em outra ocasio explicarei tudo, Agora precisamos escolher um lugar para levar Karina esta noite - o conde sussurrou.
      -  Posso sugerir um passeio interessante?
      -  Lgico! Qual?
      -  Que acha de visitarmos os jardins reais de Cremorne?
      -  Boa idia! Mas acredito que l ainda esteja fechado para reformas, no?
      -  Engana-se. O baro Random de Berenger acaba de reinaugur-lo. Ele construiu um pavilho onde tenta ensinar alguns esportes... Inclusive, h um horrio, 
reservado apenas para mulheres.
      -  Que interessante! Eo que elas praticam? - perguntou Karina.
      - Diversas modalidades, embora as mais procuradas sejam o arco e flecha e o tiro ao alvo, alm da natao. Fora isso, todas as noite h a apresentao de uma 
orquestra e um pequeno baile.
      -  Deve ser um lugar bastante alegre. Eu adoraria conhec-lo.
      -  Tem certeza de que  apropriado para Karina, Freddie?
      -  Claro! Uma poro de nossos amigos j foi at l, e minha irm achou o lugar delicioso. A propsito, Harriet me contou que logo na entrada existe uma tenda 
onde se l a sorte.
      -  Hum, no sei... Tenho a impresso de que tudo isso  um pouco vulgar para o meu gosto.
      -  Ah, por favor, vamos. Fiquei to curiosa. . .
      -  Est bem! Vocs venceram! Agora vou mandar servir o jantar, Pouco depois, os trs saboreavam, deliciados, a refeio especial que o cozinheiro-chefe tinha 
preparado pessoalmente para a ocasio. Ao final, muito alegres e descontrados, partiram na carruagem do conde em direo aos jardins de Cremorne.
      Margeando o Tmisa, que refletia as lanternas coloridas, os jardins se estendiam a perder de vista, divididos era vrias alas, onde se desenvolviam diferentes 
atividades. Em uma, animadas disputas de arco e flecha, outra dedicada a tiro ao alvo, pouco adiante, mgicos, palhaos e equilibristas animavam uma multido de 
jovens e, numa quarta, se apresentava uma verdadeira miscelnea de artistas populares.
      Entusiasmada com tantas novidades Karina ria, divertida, fazendo questo de visitar tudo e tecendo comentrios espirituosos. Sua empolgao era to sincera 
e espontnea que em pouco tempo contagiou os dois homens a ponto de eles aplaudirem  apresentao da orquestra, um tanto desafinada, por sinal.
      Para o desapontamento de Karina, porm, eles se recusaram terminantemente a ficar para o baile, alegando que j passava de meia-noite.
      Momentos mais tarde, ao chegarem  manso, Karina disse ao novo amigo:
      -  Muito obrigada pela noite encantadora.
      -  Eu tambm gostei desse passeio e espero encontr-la outras vezes. 
      Ela sorriu, desviando o olhar para o marido. Para sua decepo, em vez de marcar um novo encontro entre os trs, Droxford anunciou:
      -  Eu o encontro amanh no White's Club, Freddie.
      - Certo, Alton. E parabns, meu caro! A propsito, nem preciso lhe desejar felicidades, pois no h possibilidade de voc se entristecer ao lado de uma esposa 
to encantadora.
      Ansioso por colocar um ponto final na conversa, o conde ignorou o comentrio, se antecipando para acompanhar o capito at a porta.
      Karina, por sua vez, sentindo-se cansada, decidiu se retirar para o quarto grande e bem decorado que lhe fora destinado.
      No centro do aposento havia uma espaosa cama de casal, em madeira entalhada, recoberta por um vu de seda azul-clara, preso ao teto por anjinhos de mrmore 
italiano. Os demais mveis eram franceses, possuindo frisos de ouro, e o tapete Aubusson que revestia o cho tinha a mesma tonalidade das cortinas de cetim.
      Reprimindo a curiosidade de examinar detalhadamente o ambiente, Karina resolveu ceder ao apelo do sono e, sem nem mesmo chamar uma criada que a auxiliasse, 
despiu-se, trocando o elegante vestido branco por uma camisola de algodo j muito usada e gasta pelo tempo.
      Em seguida, sentou-se diante do espelho, retirando os grampos que lhe prendiam os cabelos. A luz das velas produzia reflexos dourados nos fios sedosos, deixando-os 
parecidos com uma cascata chamejante que lhe cobria desde os ombros at a coxa.
      Achando-se linda e sedutora, Karina despiu a camisola com um gesto impetuoso e decidiu que manteria os cabelos soltos at a manh seguinte, quando pediria 
a uma das criadas que a ajudasse a escov-los.
      A seguir, apagou todos os candelabros, menos um, que estava sobre o criado-mudo. Na semi-escurido, ela se envolveu na maciez dos lenis de cetim, achando 
confortador desfrutar de um sono tranqilo em um quarto elegante, aps o dia tenso e agitado que tivera.
      A suave luminosidade do quarto convidava ao repouso, e Karina ajeitou os travesseiros fofos debaixo da cabea, cerrando os olhos, enquanto um gostoso langor 
lhe entorpecia os msculos.
      Estava quase dormindo quando uma leve batida  porta lhe provocou um sobressalto. Julgando que fosse uma criada, ela fixou o olhar na entrada, preparando-se 
para dispensar a inoportuna visita.
      Para seu desespero, porm, o vulto que irrompeu no quarto com passos firmes e decididos no era o de uma mulher. Num luxuoso robe de brocado, com um leno 
de seda no pescoo e segurando um candelabro, Droxford parou ao lado de sua cama, fitando-a com o olhar cheio de desejo.   .
      - O que est fazendo... aqui? O que voc quer?
      Num movimento instintivo de autodefesa, Karina sentou-se na cama, deixando a descoberto os ombros macios e os seios arredondados.
      No entanto, ao perceber que o conde se inclinava para toc-la, recuou, puxando as cobertas at o pescoo.
      -  No se assuste, Karina. Afinal, somos marido e mulher - replicou Droxford, num tom tranqilo, enquanto se sentava na beirada do colcho.
      -  Quer dizer... Voc pretende... dormir aqui comigo?
      -  Vamos dizer que  mais ou menos isso.
      -  Mas voc no pode... Quero dizer... Eu no permito.
      -  Por qu? O que h de errado nisso?
      -  Voc precisa ir embora. Isto no faz parte do nosso... trato.
      -  Mas voc se casou comigo. Agora  minha esposa.
      -  S que esta  uma unio por convenincia. Voc mesmo me alertou para que eu no alimentasse esperanas. . .
      - Acontece que, como seu marido, tenho alguns privilgios.
      -  Nesse caso, deveria ter me avisado antes. Se eu soubesse o que voc tinha em mente, no aceitaria este casamento. Alm disso, por que me quer, uma vez que 
j tem lady Sibley? Sou capaz de apostar que voc fez amor com ela ontem  noite... Acredita realmente que eu o deixaria me tocar, sabendo disso?
      -  Pensei que tivssemos combinado no tocar no nome de lady Sibley, ou de qualquer outra mulher de meu relacionamento... Eu preciso de um herdeiro, s minha 
esposa poderia me dar um.
      -  O qu?! De onde voc tirou essa idia de termos um beb, sem nos amarmos? J imaginou a espcie de criana que iramos gerar? - Droxford ia retrucar alguma 
coisa, mas Karina no lhe permitiu abrir a boca, acrescentando, com nfase: - Estou convencida de que a maior parte dos doentes mentais  fruto de relacionamentos 
desprovidos de amor.
      - Interessante, Karina. No entanto, esta afirmao no possui nenhuma validade mdica.
      - E da? Eu acredito nisso. Portanto, ponha na cabea que jamais lhe darei um filho... A menos que me apaixone perdidamente por voc.
      Aps alguns instantes de silncio, Droxford perguntou, com um brilho estranho no olhar:
      - Ento o que devo fazer para que voc me ame?
      - Nada, por favor. J imaginou o que aconteceria, caso eu viesse a am-lo?
      - No, o qu?
      - Simplesmente, eu deixaria de ser uma esposa tolerante... Caso eu me apaixonasse por voc, comearia a sentir cime de suas amantes e chegaria mesmo a provocar 
escndalos para acabar com os seus casos.
      - Pare de falar bobagens. Vou lhe mostrar que no  to ruim assim estar casada comigo.
      Para reforar essa afirmao, ele se curvou como se fosse abra-la.
      -  Se encostar um dedo em mim, juro que o abandono... Deixo esta casa hoje mesmo e no volto nunca mais. J pensou no escndalo de estar casado, sem ter uma 
esposa? Caso isso acontea, trate de dar adeus ao ttulo de lorde-tenente.
      - Meu Deus, que grande erro cometi me casando com voc!
      - Erro muito maior  tentar mudar as regras do nosso trato. Isso  pura trapaa!
      - Que absurdo! Eu nunca trapacearia com voc, Karina.
      - Est traindo a confiana que depositei em voc. Agora no consigo acreditar na sua... palavra.
      - Eu nunca prometi que no a possuiria!
      - Tampouco deu a entender o contrrio. Pensei que voc j estivesse satisfeito com os seus romances. Enfim, jamais permitirei que voc faa amor comigo, sendo 
amante de outra.
      Plido de raiva, Droxford se levantou.
      - Como voc  imatura. . . Bem que eu podia imaginar sua reao diante de uma situao mais sria. Saiba que eu nunca foraria uma mulher a fazer amor comigo, 
principalmente se ela considerasse isso. . . desagradvel. Portanto, eu lhe peo desculpas e desejo que passe a noite de npcias muito bem, mas sozinha!
      Em seguida, ele se curvou em uma reverncia cheia de ironia, pegou o candelabro e saiu, batendo a porta atrs de si.
      Com a respirao acelerada, Karina voltou a se deitar, mal acreditando que vencera aquela batalha.
      No entanto, passou o resto da noite se revirando na cama, sem conseguir conciliar o sono, embora soubesse que o perigo j havia passado.
      
      CAPTULO IV
      
      Passava das dez da manh quando Karina despertou, os olhos ofuscados pelos raios de sol que invadiam o quarto. Sentia-se cansada, pois s conseguira adormecer 
pela madrugada, e mesmo assim, seu sono fora atormentado por pesadelos terrveis.
      Quando tocou a campainha, chamando a criada de quarto, assustou-se com o avanado da hora.
      - Acalme-se, lady Droxford, ningum vai estranhar o fato de ter acordado tarde. - A moa a tranqilizou.
      - Mas o conde...
      - O conde Droxford j saiu.
      "Provavelmente ele foi  Downing Street avisar o primeiro-ministro de nosso casamento. Por certo, no o verei pela manh. ", refletiu Karina, enquanto se vestia.
      Mais tarde, ao chegar ao vestbulo, Newman, o mordomo, se aproximou.
      -  O conde pediu que eu lhe transmitisse seu bom-dia e tambm que eu a levasse para falar com o sr. Wade.
      -  Quem  o sr. Wade?
      -   o secretrio particular do conde.
      - Ah, sim! Ento, vamos.
      Pouco depois Karina se viu em um amplo escritrio, onde, sentado  escrivaninha de mogno, localizada perto da parede, estava um homem jovem, elegante e de 
traos inegavelmente aristocrticos, diante do qual o mordomo fez uma profunda reverncia.
      -  Sr. Wade, apresento-lhe lady Droxford.
      Sorrindo de maneira simptica, o secretrio se levantou e, mancando um pouco de uma perna, foi ao encontro de Karina.
      - Posso me apresentar? Sou Robert Wade, primo de Alton, e tenho o privilgio de ser seu secretrio particular.
      - Muito prazer. Fico contente em conhec-lo, sr. Wade. Presumo que possa me ajudar em muitas coisas que. desconheo.
      - Assim espero... Sente-se lady Droxford - ele convidou, indicando uma poltrona ao lado da lareira.
      - Obrigada... Faz tempo que o senhor  secretrio de meu marido?
      - Creio que se surpreendeu por eu no ser velho, no ?
      - De fato, achei isso estranho.
      - Na verdade tenho dois anos a mais do que Alton e comecei a trabalhar com ele depois de um acidente em que fui ferido. Nessa ocasio me vi forado a abandonar 
o regimento e passei a exercer funes burocrticas, o que me agrada bastante, pois adoro estar em meio aos livros.
      - Que timo! Passei os ltimos anos praticamente sem ler e gostaria de me atualizar, conhecendo os ltimos lanamentos literrios.
      Wade fez um amplo gesto com a mo indicando as vrias estantes que enchiam o escritrio e replicou:
      - Coloco a biblioteca e meus servios  sua disposio, embora acredite que Droxford Park disponha de colees mais completas.
      - Juro que eu me sentiria muito grata se o senhor me sugerisse alguns ttulos para que eu pudesse organizar um roteiro de leitura.
      - Terei um imenso prazer em ajud-la, embora eu tema que no dispor quase de tempo, lady Droxford.
      - Por qu?
      - Hum, acontecimentos sociais, compras, visitas...
      - Pelo menos, em relao s compras, me sinto bastante ansiosa. No trouxe uma nica pea de roupa.
      - Foi exatamente por isso que a chamei. Alton deixou instrues expressas para que eu a orientasse em relao s compras. Pois bem, todas as contas devem ser 
enviadas para c, certo?
      - Claro, perfeito!
      - Apesar disso, lhe darei dez moedas de ouro para qualquer eventualidade.
      - Essa quantia me parece exagerada, mas como ainda no sei o que comprar...
      - Repito, lady Droxford, no pague nada em dinheiro. Diga s lojistas que mandem as contas para mim, que eu mesmo as pagarei.
      - Entendido... Eu queria lhe pedir um favor.
      - Lgico! O que ?
      - Nunca estive em Londres antes e gostaria que me desse algumas orientaes.
      - Nunca esteve em Londres? Ento encontrar bastante dificuldade em se localizar.
      - Oh, me ajude. Preciso urgentemente de roupas. Esta que uso pertence a uma amiga...
      - Talvez seja mais sensato esperar por algum que a acompanhe. . .
      -  impossvel! No se preocupe. Diga-me apenas qual  a melhor modista de Bond Street.
      - A maioria das pessoas lhe indicaria madame Bertin... - De repente, Robert se interrompeu, imaginando que no seria nada interessante que Karina freqentasse 
as lojas mais concorridas, onde os inmeros romances de Droxford eram famosos. Ento, abrindo a gaveta da escrivaninha, retirou um carto e explicou: - Talvez lhe 
dedicassem um tratamento melhor em um estabelecimento menos badalado que o de madame Bertin. Descobri que Yvette, modista-chefe de madame Bertin, deixou-a e montou 
seu prprio ateli. Acredito que ela far o mximo para satisfaz-la.
      Ao olhar para o carto, Robert se ps a lembrar a visita que Yvette lhe fizera h um ms.
      - Sr. Wade, vim trazer esta conta pessoalmente para lhe pedir um favor.
      - Que favor?
      - Bem. . . Pretendo abrir o meu prprio ateli. J cansei dos acessos de mau humor e da mesquinharia de madame. Durante os ltimos cinco anos, corri feito 
louca naquela loja sem uma palavra de agradecimento! No suporto essa situao nem mais uma semana, sr. Wade...
      - Mas como posso ajud-la?
      - Nem me passou pela cabea tirar lady Sibley de madame, no entanto quero lhe pedir que coloque a prxima paixo do conde em contato comigo.
      - Hum, posso tentar, embora as mulheres a quem voc se refere raramente peam a minha opinio a respeito de onde fazer compras.
      - Por favor, tente sugerir isso ao conde... Mas, se no for possvel, entenderei perfeitamente.
      - Fique sossegada! Garanto que mencionarei seu nome na primeira oportunidade.
      Agora, enquanto entregava o carto para Karina, Wade sorriu, pensando que ali estava a oportunidade que Yvette tanto esperara. Afinal, qualquer modista ficaria 
lisonjeada por vestir uma mulher to encantadora e rica quanto a nova condessa de Droxford.
      - Oh, obrigada! - disse Karina, com entusiasmo. - Prefiro mesmo ir a algum que no me olhe com ar de superioridade, nem tente me empurrar roupas vulgares 
e pouco convenientes.
      - Fique tranqila. Aposto como a senhora tem muito bom gosto e discernimento.
      - Independente disso, no conheo as roupas da moda. Inclusive ser o primeiro vestido que compro para mim. - Percebendo a surpresa estampada no rosto dele, 
Karina se levantou, arrependida do comentrio, e afirmou: - No pretendo aborrec-lo com a histria da minha vida, sr. Wade. A propsito, posso visit-lo outras 
vezes para conversarmos? Eu adoraria contar com um amigo nesta casa imensa.
      - Ficarei muito honrado se a senhora fizer isso.
      - Somos primos por casamento, no?
      - Sim, por qu?
      - Prefiro ento que me chame de Karina somente.
      - timo, Karina. Sempre que precisar de mim, estarei  sua disposio.
      - Fico muito contente!
      
      Duas horas depois, Karina saa da loja de madame Yvette, localizada na parte menos concorrida da Bond Street. Seu rosto corado e os olhos muito brilhantes 
estavam realados pelo traje novo, uma criao exclusiva que, com algumas pequenas alteraes, lhe caa perfeitamente.
      Era um vestido verde-claro, de seda, com delicados detalhes floridos, que a faziam parecer a prpria primavera personificada. O chapu de palha que complementava 
o conjunto tinha largas fitas e delicados botes de rosa, o que lhe dava um toque harmonioso e juvenil...
      Sem disfarar a admirao, o criado abriu a porta da carruagem para ela. Para seu espanto, porm, Karina recusou.
      Desejando mostrar a roupa nova na Bond Street, onde vrias senhoras e cavalheiros muito elegantes passeavam ao sol, ordenou, com firmeza:
      - Espere por mim no fim da rua, por favor. Quero andar um pouco.
      Antes que o rapaz pudesse protestar, ela deu meia-volta e se ps a percorrer a rua, detendo-se diante de uma ou outra vitrine, maravilhada com as novidades.
      No meio do quarteiro, uma joalheria lhe despertou a ateno. Sobre prateleiras forradas de veludo negro, se alinhavam diversas caixinhas contendo as pedras 
mais lindas que ela j vira na vida; broches, anis, colares, braceletes. . . Enfim, tudo o que faria qualquer mulher passar horas se admirando diante do espelho, 
fascinada pelo brilho intenso dos diamantes, safiras, esmeraldas ou rubis.
      Karina no era exceo. Por isso, parou, imaginando o efeito de cada uma daquelas jias com os elegantes vestidos que acabara de encomendar no ateli de madame 
Yvette. Alis, s agora, se dava conta da quantidade enorme de roupas que tinha adquirido, sem ao menos se preocupar com os preos.
      Mas como resistir queles modelos leves e graciosos? Alm disso, a modista se mostrara extremamente gentil, fazendo questo de lhe apresentar as ltimas criaes 
em termos de peas ntimas como meias de seda, saiotes com babados, combinaes, espartilhos e um extico roupo chins de seda branca, enfeitado com fitas de cetim.
      - Existem muitos outros artigos dos quais a senhora vai precisar - avisara Yvette. - Mas fique sossegada que terei todos aqui no final da tarde.
      Nesse momento, porm, uma dvida lhe atravessou a mente. Ser que Droxford se zangaria por ela ter feito tamanha extravagncia e gastado todo aquele dinheiro?
      No, certamente no. Afinal, para ele aquela quantia era irrisria. Em compensao, tinha certeza de que seria difcil faz-lo aceitar e compreender sua reao 
na noite anterior.
      Mas o que podia fazer? Como encontraria coragem para ser complacente se ficasse apaixonada pelo conde?
      Talvez, se o obrigasse a refletir sobre o incidente da vspera...
      Subitamente, Karina foi arrancada de suas reflexes por uma voz grave que lhe dizia ao ouvido:
      -- Linda! Encantadora! A jovem mais sedutora que j vi!
      Um homem de meia-idade, bon, gravata larga e alta, como ditava a moda, algumas rugas em torno dos olhos e ar debochado, havia parado ao lado de Karina e parecia 
devor-la com o olhar.
      Assustada, ela recuou um passo, o que provocou uma risada desagradvel no desconhecido.
      - Diga o que mais lhe agrada nesta vitrine, minha pombinha - ele insistiu, num tom melfluo. - Seja o que for, me deixe satisfazer o seu desejo. Quer que eu 
lhe compre diamantes, ou prefere safiras?
      - Creio... que cometeu um terrvel engano, senhor.
      De repente a expresso de cobia que transparecia no rosto dele a fez compreender que havia sido confundida com uma das inmeras mulheres que circulavam pela 
Bond Street trocando carcias por presentes caros. Horrorizada, Karina se ps a imaginar um meio de escapar dali.
      - No h engano nenhum, meu doce. Deixe que eu me apresente; lorde Wyman, s suas ordens. Juro que nunca me senti to feliz por conhecer uma mulher.
      - Por favor, cavalheiro... Repito que no lhe dou o direito de me dirigir a palavra.
      - No queira parecer difcil, minha cara - o homem replicou, estendendo a mo na direo dela.
      A voz dele parecia estranhamente ameaadora, e tomada por um sbito pavor, ela se ps a correr desesperada.
      Olhando para trs a fim de verificar se no fora seguida, Karina no enxergou o cavalheiro alto e atraente que vinha em sentido contrrio, acabando por se 
chocar contra ele.
      - Desculpe-me.
      - Ora, mas  lady Droxford! O que aconteceu? Para que tanta pressa?
      - Oh, capito Farrington! Que bom encontr-lo. Por favor, me acompanhe. Tem um homem... me perseguindo.
      - Um homem? Quem? Onde est ele?
      - Vamos embora. A culpa foi minha, pois de incio, como no me dei conta de que ele falava comigo, nem me movi do lugar. O nome dele  lorde Wyman.
      - Wyman! Aquele sujeito! A senhora no deveria t-lo conhecido.
      - E no o conheci! Agora, faa a gentileza de me levar para um lugar seguro.
      - Acalme-se. Ele no vai se atrever a importun-la, vendo-a ao meu lado. A propsito, por que est sozinha? No  aconselhvel andar desacompanhada pela Bond 
Street.
      - No  correto?
      - Lgico que no! Nenhuma dama passa por aqui sem a companhia de uma amiga, ou criada. E onde est a sua carruagem?
      - Eu pedi ao cocheiro que me esperasse no final da rua. Agora percebo como fui tola, me expondo tanto apenas para admirar as vitrines.
      - Ora, esquea...  um erro perdovel para quem acaba de chegar a Londres.
      - Sinto-me to desinformada! Diga-me, existem muitas regras desse tipo?
      - Infelizmente, sim. Por que Alton no a informou sobre o assunto?
      - No o culpe. Meu marido  muito ocupado. E, por favor, no lhe conte nada sobre este acidente.
      - Est me acusando de fofoqueiro?
      - No se ofenda. Confio em voc.
      - Obrigado! Garanto que vou me desdobrar ao mximo para no desapont-la. Vamos? Eu farei o resto do percurso ao seu lado, e caso voc queira parar em alguma 
loja, no fique constrangida, pois fui bastante treinado para acompanhar mulheres s compras.
      - Treinado? Por quem?
      - Pela minha irm. Agora ela se casou, mas fez muito sucesso na poca em que era descomprometida. Creio, inclusive, que se vocs fossem amigas, Harriet teria 
vrios conselhos teis para lhe dar.
      - De maneira alguma. Detesto a idia de incomodar algum.
      - Quanto a isso, fique tranqila. Ela adora esse tipo de coisa.
      - Nesse caso, que tal me levar para conhec-la?
      - Excelente! Acredito que essa amizade ser lucrativa para vocs duas e...
      Parando no meio da calada, o rosto subitamente plido, o capito fixou o olhar em algum ponto distante.
      A inesperada reao do amigo despertou a ateno de Karina para uma elegante carruagem, onde um cavalheiro oferecia a mo a uma dama, a fim de ajud-la a descer.
      - Veja! - ela exclamou, entusiasmada. -  Alton! Vamos conversar com ele, pois quero lhe mostrar o meu vestido novo.
      Antes que ela pudesse dar um passo, Freddie a segurou pelos braos, impedindo-a de se locomover.
      - No v, lady Droxford. Ele... est acompanhado.
      Muda de espanto, Karina se limitou a contemplar a bela morena, muito alta e vestida de maneira espalhafatosa, que caminhava ao lado de seu marido em direo 
a uma loja no outro extremo da rua.
      - Por que no devo falar com meu marido?
      - No posso explicar nada. Peo que aceite o meu conselho e finja que no o viu.
      - No entendo. Ao que tudo indica, Droxford no est fazendo nada de condenvel... Ou ser que no devo conhecer a pessoa que o acompanha?
      Perturbado, o capito passou a mo pelos cabelos e desviou o olhar, evitando encar-la de frente.
      - Tente compreender, lady Droxford, que lhe dei esse conselho com a melhor das intenes.
      - Aquela mulher ... amante dele?
      -  incorreto de sua parte me fazer esse tipo de perguntas. Vamos dizer que ela  somente uma velha amiga.
      - Qual o nome dela?
      - Eu... no me lembro.
      - No minta, por favor. Se eu no descobrir isso atravs do senhor, serei obrigada a entrar naquela loja e pedir ao meu marido que a apresente para mim.
      A determinao que havia na voz de Karina fez com que ele a encarasse por um longo momento, um misto de surpresa e admirao no rosto.
      - Sra. Felicite Corwin - murmurou, por fim, num tom hesitante.
      - Obrigada! Agradeo tambm por me impedir de cometer o segundo erro social do dia. Que acha de seguirmos em busca da minha carruagem?
      Haviam se distanciado quase meio quarteiro, quando o capito, quebrando o silncio, comentou, demonstrando uma tristeza sincera:
      - Lamento muito o que aconteceu.
      -No h necessidade de se preocupar... Minha surpresa inicial se deve apenas ao fato de que imaginei Alton interessado... em outra pessoa.
      - Como lhe falei, a sra. Corwin no passa de uma velha amiga, embora no esteja  altura de lhe ser apresentada, entende?
      - Hum, hum! Esclarea-me uma dvida;  errado mencion-la a Alton, no ?
      - Por Deus, nunca faa isso. No mnimo, ele ia querer me matar por ter lhe revelado o nome dela.
      - No se preocupe. Jamais farei algo que o coloque numa situao embaraosa. S o forcei a me contar quem ela era porque...
      - A questo  que a senhora no deveria saber estas coisas - interrompeu Freddie, levemente irritado.
      - Por que no? Na medida em que preciso me comportar como uma esposa complacente,  mil vezes melhor saber com quem devo me mostrar tolerante, seno me arrisco 
a cometer erros como quase aconteceu agora.
      - Bem, acho... Que situao absurda! Urna esposa tolerante, francamente! O que Alton pensa da vida?
      - No vou fazer segredo, pois pela sua reao de ontem, deduzo que ele o informou da inteno de se casar de qualquer jeito, Pois bem, eu sou a esposa que 
ele arrumou para obter o ttulo.
      - Meu Deus! Como pode aparentar tanta tranqilidade?
      Nesse momento, passaram diante da joalheria onde Droxford havia entrado com a sra. Corwin. Karina, se esforando para conter a curiosidade e no olhar para 
dentro, acelerou o passo e se calou. Mais uma vez, foi Farrington quem quebrou o silncio:
      - No interprete mal o que aconteceu. Alton  uma das melhores pessoas que conheo, honrado, correto, justo e incapaz de deixar um amigo em encrencas...
      - No duvido disso. Ele tem agido com bastante lealdade comigo, tanto que no h fingimento algum entre ns.
      - Confesso que j deu para perceber. Mas, eu gostaria que vocs vivessem... felizes!
      - Mas... eu me sinto feliz.
      Em resposta, Freddie lhe lanou um olhar incrdulo, deixando-a constrangida. Pouco depois, os dois chegaram  carruagem de Karina, e ele a ajudou a subir, 
mantendo-se calado, numa postura pensativa durante todo o trajeto.
      
      Jovem e muito atraente, a baronesa Courtney se levantou com certa dificuldade para receber o irmo. Enquanto ela caminhava, seu vestido, apesar de largo, revelava 
uma barriguinha, caracterstica de futuras mames.
      - Oh, Freddie, fico to feliz por v-lo. J estava me sentindo deprimida de tanto pensar numa forma de disfarar o meu corpo para as corridas de Ascot. Minha 
sogra considera desagradvel que eu me apresente grvida em pblico, mas resolvi assistir  competio de qualquer maneira, mesmo porque meu marido inscreveu um 
de seus cavalos.
      - Calma, Harriet. Nem bem cheguei, e voc me atropela com tantas novidades. Antes de mais nada, quero lhe apresentar uma pessoa.
      Em seguida, ele fez um sinal a Karina, pedindo-lhe que se aproximasse.
      - Lady Droxford, esta  Harriet Courtney, minha irm. Harriet, quero que conhea a esposa de Droxford.
      - O qu? O conde se casou? Meu Deus, como ningum me contou?
      Ela fez uma leve mesura para Karina, que retribuiu sentindo-se encabulada com o elogio entusiasmado que Harriet lhe dirigiu:
      - No bastou a Droxford se casar, ele procurou uma mulher linda o suficiente para nos tornar a todas insignificantes!
      - Juro que no  essa a minha inteno. E, por favor, perdoe a Freddie por ter me trazido aqui de forma to pouco convencional, mas eu precisava de alguns 
conselhos.
      - Quanta honra! Freddie, toque a campainha para mim, sim? Vamos tomar alguma coisa enquanto lady Droxford me conta seus planos. Prefere licor ou vinho da Siclia, 
querida?
      - Se no for muito incmodo, tomarei uma xcara de chocolate quente. Pela manh, sa muito agitada e me esqueci de fazer o desjejum. Agora estou quase morta 
de fome!
      - Isso no  problema! O almoo estar pronto dentro de quinze minutos, e vocs dois almoaro comigo, pois detesto comer sozinha.
      Minutos depois, se acomodando no sof, lady Harriet se virou para Karina e lamentou-se:
      - No pretendo aborrec-la com os meus problemas, mas nunca, em circunstncia alguma, engravide durante o vero. Para o inverno, a nova moda de pelicas com 
mangas de tafet  um disfarce perfeito.
      Havia tanta dramaticidade ha voz dela que Karina no conseguiu conter o riso.
      - Tenho certeza de que encontrar uma soluo... De acordo com Freddie, sua especialidade  se sair bem de todo tipo de problemas sociais. Alis,  por isso 
que vim at aqui.
      - Explique-se melhor. No estou entendendo nada.
      -  o seguinte: sou do campo e passei os ltimos trs anos cuidando de meu pai, doente. Conseqentemente, no tive oportunidade de aprender como devo me comportar 
em pblico, ou que atitudes preciso tomar para no parecer muito provinciana. Por isso lhe peo que me ajude.
      - Essa  a coisa mais excitante que j me pediram! Sinto-me como uma nobre preparando uma debutante e, ainda por cima, no me sobrar tempo para eu me preocupar 
com a minha aparncia, nem para ouvir as importunaes de minha sogra. A propsito, no imagina a sorte que  no ter ningum interferindo em sua vida.
      - Harriet, voc costumava moderar mais a sua linguagem - o irmo a censurou, em tom de brincadeira.
      - Tem razo! Este  o tipo de comentrio que eu deveria evitar.
      - No se preocupe, querida. Eu digo coisas muito piores. Devido a nunca ter convivido com algum que prestasse ateno s minhas opinies, me acostumei a falar 
tudo o que me vem  cabea. Por isso, vivo me metendo em encrencas.
      - Ento fique tranqila. Logo, logo daremos um jeito nisso.
      Aps o almoo, as duas amigas saram para continuar as compras. Harriet era conhecida em diversas lojas, o que lhe permitiu um atendimento rpido e atencioso 
na maior parte delas. Ao final da tarde, carregadas de pacotes, decidiram voltar a fim de descansar e se arrumar para a noite. Karina, que mal cabia em si de felicidade, 
se mostrou bastante excitada quando, na despedida, Harriet declarou: 
      - Escute, querida, vou receber alguns amigos para o jantar esta noite e me sentiria muito honrada se voc e lorde Droxford viessem.
      - No posso dar uma resposta definitiva, pois desconheo os planos de Alton.
      - Em todo caso, vou esper-los, a menos que mande um criado avisando o contrrio. Talvez, o conde tenha planejado um jantar ntimo com voc...
      -  bastante improvvel... Como devo proceder se ele sair sozinho?
      Apesar de surpresa, Harriet afirmou:
      - Ento, venha apenas voc. Sempre tenho cavalheiros sobrando em minhas reunies. Portanto, no ficar sem par quando formos  casa de lady Lumley, que dispe 
de uma sala de jogos deliciosa.
      - Tem certeza de que eu no atrapalharia?
      - Claro! Alm disso, se voc no usar logo aquele vestido branco que acabamos de comprar, vai morrer de frustrao! Sei que lhe cair divinamente, e quero 
ser a primeira a apresent-la  alta sociedade, que estar reunida na casa de lady Lumley. Como no posso ser a estrela da festa, ficarei feliz em ajud-la a se 
transformar na grande atrao da noite.
      - Agradeo, de corao. Nunca encontrei algum to gentil.
      - Ento, trate de aproveitar cada momento, porque depois que voc engravidar, se acaba toda a graa.
      Virando o rosto para ocultar a expresso de mgoa, Karina se esquivou de retrucar ao gracejo e ficou imaginando quantas amantes marido teria. Primeiro fora 
lady Sibley, agora, aquela tal de sra. Corwin, e depois?
      Ser que ela no se havia superestimado ao julgar que agentaria aquela situao?
      Quanto a lady Sibley, no se sentia indignada, pois conhecia o romance dos dois desde antes do casamento. Por outro lado, Felicite Corwin a incomodava profundamente, 
fazendo-a duvidar de que ambos fossem meros amigos.
      De repente, foi invadida por um irresistvel desejo de rev-lo, de senti-lo prximo e at mesmo de discutir com ele. . . Enfim, qualquer coisa seria melhor 
do que a solido e a dvida.
      - O conde j chegou? - perguntou ela a Newman, assim que entrou na manso.
      - Ele manda avis-la de que s chegar tarde da noite, lady Droxford.
      - Meu marido no vir para o jantar?
      - No.
      - Por favor, mande uma mensagem  baronesa Courtney, avisando-a de que ficarei encantada de jantar com ela, embora o senhor conde no possa me acompanhar devido 
a outros compromissos.
      - Providenciarei isso, imediatamente. Vai querer uma carruagem?
      - Sim. Apronte-a para as sete horas e quinze minutos.
      
      Quando Freddie Farrington entrou no White's Club, em St. James Street, seu olhar se deteve na figura alta de Droxford, que recostado em uma poltrona de couro, 
na sala de chs, bebericava vinho.
      Acomodando-se ao lado do conde, o capito observou que a garrafa se encontrava quase vazia.
      - Ol, Alton! Podemos conversar um pouco?
      - Lgico! O que aconteceu?
      - Quem pergunta sou eu. . . Que diabos voc estava fazendo em Bond Street na companhia daquela mulher?
      - E desde quando estou proibido de passear com Felicite pela Bond Street?
      - A partir do momento em que se casou. Saiba que sua esposa os viu e precisei fazer um grande esforo para impedi-la de ir falar com voc. Ela estava curiosa 
para saber de sua conversa com o primeiro-ministro e tambm queria lhe mostrar o vestido que tinha acabado de comprar!
      - Karina me viu? Droga, como pude me esquecer de que ela ia hoje s compras?
      - Alton, ponha na cabea que um homem casado deve tomar certos cuidados! Karina pode surpreend-lo outras vezes e. . .
      - Quem lhe deu permisso para trat-la pelo primeiro nome?
      - Voc mesmo, nos jardins de Cremorne, ontem  noite. No se lembra? Entretanto, preferi manter um tratamento convencional at conhec-la melhor.
      - Ao que tudo indica, hoje vocs j se conheceram melhor, no  mesmo?
      - Deixe de cinismos, Alton. Reconhea que agiu errado e no tente desviar o rumo da conversa. Para seu governo, foi bastante difcil convenc-la a ignorar 
o incidente.
      - E de que modo a convenceu?
      - J lhe disse. Procurei dar a impresso de que Felicite no passava de uma velha amiga sua, mas acho que Karina desconfiou da verdade. Sua esposa  perspicaz; 
portanto, trate de ser discreto.
      - Cuide de sua vida, Freddie.
      - Ah, outra coisa! Apresentei-a a Harriet, que tentar ensin-la a no cair nas armadilhas da sociedade, cometendo algum ato imprprio para uma alta dama.
      - J o avisei para cuidar de sua vida, Freddie.
      - Oua bem; caso no esteja interessado em tomar conta daquela criatura linda e dcil com quem se casou, fique certo de que logo vo aparecer dezenas de cavalheiros 
para substitu-lo.
      Ignorando o olhar furioso do conde, Freddie se levantou para conversar com um homem, no outro extremo da sala.
      
      Durante o jantar na casa de Harriet, Karina teve oportunidade de conhecer vrias pessoas interessantes e divertidas, que teciam comentrios espirituosos acerca 
dos mais variados temas. Entre elas se destacava o major Joselyn Courtney, o anfitrio, que fez questo de acomod-la ao seu lado na mesa, passando a maior parte 
do tempo a elogi-la.
      De fato, ela havia ficado bastante atraente no vestido branco, e Robert Wade contribura para sua elegncia lhe oferecendo algumas das jias dos Droxford como 
complemento.
      Embora estivesse impelida a escolher diversos adornos, quando o secretrio tinha lhe mostrado a magnfica coleo de pedras preciosas do conde, Karina se limitara 
a pegar um discreto diadema de brilhantes e um colar do mesmo material, pois se lembrava de um antigo conselho da me, que afirmava ser de mau gosto qualquer tipo 
de excesso.
      E, para aumentar sua alegria, Harriet a recebera com um sorriso de aprovao e um comentrio bastante lisonjeiro:
      - Karina, voc est linda! Parece uma princesa!
      - Sempre admirei o bom gosto de Droxford e agora tenho a confirmao de que, em matria de beleza, ele  insupervel - o major dissera.
      Ao trmino do jantar, as damas se retiraram para retocar a toalete, se preparando para a recepo na casa de lady Lumley, em Grosvenor Square.  
      Assim que chegaram  festa, Karina sentiu-se subitamente pouco  vontade, com a impresso de que os convidados, apesar de pertencerem  aristocracia, no tinham 
sido bem selecionados.
      No salo, iluminado por centenas de candelabros, havia flores espalhadas por todos os cantos e nas salas de jogos, uma multido barulhenta fazia suas apostas, 
quase encobrindo o som da orquestra.
      Em busca de um lugar mais tranqilo, o grupo seguiu para os jardins, onde encontrou a anfitri, uma mulher gorda e cheia de jias, que abraou Harriet com 
entusiasmo, antes de cumprimentar Karina, dizendo-se honrada por conhecer a nova condessa de Droxford, embora desconhecesse o casamento do conde.
      Passada uma hora Karina j se sentia aturdida pelo barulho das conversas e da orquestra, alm das felicitaes que havia recebido de vrias pessoas que Harriet 
no se cansava de lhe apresentar.
      Por isso se aproveitou de uma pequena distrao da amiga para se acomodar em uma poltrona isolada, preferindo permanecer em completo silncio pelo menos durante 
alguns minutos.
      Nesse momento, um nobre, alto e sedutor, de presena marcante e traos perfeitos, se aproximou de Harriet, iniciando uma discusso, acirrada, cheia de gestos 
e negativas.
      Observando com mais ateno, Karina notou que ele possua algo de misterioso na expresso; um toque de perigo e beleza que devia torn-lo irresistvel para 
a maioria das mulheres.
      Intrigada, percebeu que Harriet o conduzia at ela. Quando se aproximaram, a baronesa afirmou:
      - Sei que estou cometendo um erro, Karina, mas sir Guy Merrick insiste em conhec-la. Previno-a de que o considero a ltima pessoa em Londres para ter amizade 
com voc... Mas ele ameaou vir se apresentar, independente da minha interferncia. Assim sendo, querida, este  sir Guy Merrick, um libertino e jogador...
      - Obrigado, Harriet - replicou sir Guy, sorrindo de modo irnico.
      - No acredite em uma palavra dele, querida - avisou Harriet, antes de voltar para junto de seus amigos.
      Sem esperar um convite, Guy sentou-se ao lado de Karina e beijou-lhe a mo.
      - Sinto-me encantado por conhec-la, lady Droxford.
      - Por que fez tanta questo de ser apresentado a mim?
      - A senhora acreditaria se eu lhe falasse que  a mulher mais linda que j vi em toda a minha vida?
      - No, no acreditaria. Mesmo assim, fico feliz em ouvi-lo. Nunca recebi tantos elogios como nesta noite, e, embora eu duvide da sinceridade deles, no deixo 
de apreci-los.
      - Acho inacreditvel que jamais tivesse sido alvo de tanta admirao ... De onde veio?
      - Do campo.
      - Droxford  um homem de sorte. Como pde encontr-la to distante?
      - Conhece meu marido?
      - Desde a infncia somos inimigos convictos.
      - Inimigos?!
      - Exato! Ns nos odiamos h muito tempo. E agora tenho motivos para detest-lo ainda mais.
      - Por qu?
      - Ora, ele a conheceu primeiro que eu.
      - Devo encarar isso como um galanteio?
      - Vamos dizer que sim...
      - Ento precisa me explicar o que devo lhe responder, pois nada entendo de galanteios.
      - No se preocupe! Fale aquilo que lhe vier  cabea, e acharei fascinante.
      - Admiro a sua capacidade de improvisar, sir Guy. Gosto de pessoas capazes de emitir opinio prpria.
      - Ento vamos nos dar bem. Procuro sempre ser o mais espontneo possvel.
      - Eu tambm! O problema  que isso s vezes provoca cada confuso...
      - Espero algum dia me tornar uma de suas confuses.
      Karina riu, divertida com o comentrio. Em seguida, perguntou num tom preocupado:
      - Por que o senhor e meu marido so inimigos?
      -  uma longa histria, lady Droxford, Alton lhe contar a verso dele. Por enquanto, eu a previno de que o conde vai desaprovar o fato de termos nos conhecido 
e far o possvel para que no nos tornemos amigos.
      - Ser que ele o odeia tanto assim?
      - Muito mais. E talvez tenha razo para isso. Apesar disso, desejo intensamente conquistar sua amizade...
      - Est se oferecendo para ser meu amigo?
      - Para comear... Mas no lhe asseguro nada em relao ao futuro.
      De incio, Karina chegou a pensar em se retirar dali, ignorando a proposta de sir Guy. Logo, porm, a lembrana de lady Sibley e de Felicite a fizeram recuar 
de seu propsito de agradar Alton. Se ele no se importava a mnima com sua presena, por que Karina iria se privar de travar novas amizades?
      Sorriu com simpatia para o nobre e afirmou:
      - Ficarei encantada em me tornar sua amiga, senhor, desde que no exista nada por trs disso.
      - Obrigado! Espero que seja gentil o bastante para ouvir tudo o que tenho para lhe dizer.
      -  claro que serei.
      - Considero-a encantadora - murmurou sir Guy, com um tom de voz profundo, ignorando as tentativas dela de soltar a mo. - Que tenho at medo de v-la desaparecer 
como que por encanto.
      Nervosa, Karina ia ordenar a Guy Merrick que lhe largasse a mo, quando um desconhecido se aproximou, dirigindo-se a ele.
      - Vai jogar, Merrick? Guardamos lugar para voc em uma das mesas.
      - Oh, posso assistir a uma partida?
      - Assistir, no. Quero v-la participando.
      - Mas eu no sei.
      - Ento, eu a ensinarei a jogar... entre outras coisas.
      
      CAPITULO V
      
      Logo aps o caf da manh, Droxford se ps a folhear os jornais do dia, assinalando as notcias relacionadas a poltica ou economia, as quais julgava interessantes. 
Encontrava-se completamente absorto na leitura, quando a porta se abriu, revelando o vulto de Karina, muito plida e com evidentes sinais de insnia.
      - Posso conversar com voc, Alton?
      -  claro! Que acha de irmos para a biblioteca? J tomou o seu desjejum?
      Esquivando-se de responder ela deu meia-volta caminhando em direo  biblioteca, com Droxford seguindo logo atrs. Finalmente se detiveram diante de uma imensa 
porta de mogno, esperando que o criado a abrisse, mostrando o cmodo espaoso e bem decorado, com as paredes recobertas de estantes, alm de grandes janelas com 
vista para o pequeno jardim, localizado atrs da manso.
      Assim que entrou no ambiente, Droxford o atravessou at a outra extremidade, ficando diante da lareira.
       sua frente, Karina o fitava com uma expresso apreensiva, sem coragem de comear.
      - Voc est to quieta. No quer sentar?
      Incapaz de articular uma palavra sequer, ela assentiu com a cabea e se acomodou em uma das poltronas de veludo.
      - Ento, sobre o que voc precisa conversar comigo?
      - Tenho medo. . . Voc vai ficar. . . furioso. - Surpreso, Droxford apenas franziu as sobrancelhas, enquanto ela continuava: - Para talar a verdade, eu no 
o condenaria se voc. . . me mandasse de volta para a casa de papai.
      - Voc deve ter feito uma coisa horrvel, para achar que posso mand-la de volta! O que aconteceu de to grave, se voc mal chegou a Londres?
      Karina cruzou as mos, estalou os dedos e depois de um tremendo esforo, explicou:
      - Perdi dinheiro... jogando. 
      - Jogando? E quando foi isso?
      - Ontem  noite. Perdi uma quantia... enorme.
      - Quanto?
      - Duas mil libras - ela falou, num fio de voz. 
      Inesperadamente, ele no demonstrou qualquer sinal de raiva. Ao contrrio, sentou-se  sua frente, com um ar muito tranqilo, e pediu:
      - Conte-me o que aconteceu.
      Depois de um suspiro profundo, ela tentou controlar o tremor que lhe agitava as mos.
      -  Bem, lady Harriet Courtney nos convidou para jantar, mas quando vim para casa a fim de avis-lo, Newman me comunicou que voc no voltaria to cedo... Voc 
pretendia me castigar, queria que eu ficasse sozinha, no ?
      Antes de responder, Alton a fitou de maneira vaga, murmurando, por fim:
      - Talvez...
      - Saiba que o castigo saiu. . . muito caro.
      - No mude de assunto, Karina.
      - Resolvi ir  casa dos Courtney, mesmo sem voc. No me arrependo, pois me diverti bastante e conheci vrias pessoas agradveis. Mas aps a refeio, fomos 
 casa de lady Lumley.
      - Em Grosvenor Square?
      - Exato! Inclusive ela se mostrou aborrecida com a sua ausncia.
      - J me cansei de freqentar as reunies de lady Lumley.
      - Apesar de l estar cheio de gente, s conversei com as pessoas que Harriet me apresentou; uma delas se ofereceu para me ensinar a... jogar.
      - Quem?
      - Sir Guy Merrick. . . - Assustada pela repentina mscara de irritao que dominou as feies do marido, ela se apressou a acrescentar: - Ele me contou que 
vocs eram inimigos. No entanto, se comportou de modo gentil e respeitoso para comigo, tanto que achei injusto no trat-lo de maneira semelhante.
      De repente, ela se calou, esperando que o conde gritasse de tanta raiva. Porm ele se manteve tranqilo e controlado, pedindo com voz calma:
      - Continue. 
      - No comeo foi timo! Nunca tinha visto tanto dinheiro na minha vida! As apostas eram altas, e sir Guy me explicava tudo que eu devia fazer, se oferecendo 
para ser meu banqueiro!
      Enquanto falava, Karina parecia ver  sua frente a mesa repleta de moedas de ouro, as pessoas elegantes acomodadas ao redor e sir Guy, muito solcito, convencendo-a 
a jogar.
      - Mas eu no trouxe dinheiro - ela argumentara, em voz baixa.
      - Ento serei seu banqueiro.
      - Isso significa que poderei lhe pagar mais tarde, se perder?
      - Exatamente. Agora deixe de pessimismo. De acordo com a tradio, uma mulher bonita sempre ganha quando joga pela primeira vez.
      Como que para confirmar a lenda, em poucos minutos Karina comeou a juntar moedas de ouro, seguindo as instrues de Guy que, alm de lhe ensinar as regras, 
indicava o momento certo de descartar cada naipe.
      Infelizmente, no meio da noite sua sorte mudou. As moedas de ouro que estavam  sua frente comearam a ir embora.
      - Acho melhor pararmos agora, sir Guy.
      - De maneira alguma, tentaremos a sorte em outra mesa.
      E assim foram mudando de uma mesa para outra, a ponto de Karina perder a noo do quanto ganhava ou perdia, uma vez que ele se encarregava de pagar ou receber 
tudo.
      Em poucas horas, ela j estava cansada de permanecer naquele salo abafado, e o convidou a se divertir com piquet, um jogo que sir lhe havia ensinado na infncia. 
Apesar de se julgar hbil, Karina reconheceu que no chegava nem aos ps de seu parceiro. Finalmente, desanimada, baixou as cartas e suspirou, afirmando:
      - Sou incapaz de venc-lo!
      - E da? No suporta a idia de perder?
      - No, no  isso...
      - Voc no tem motivos para se preocupar... Afinal a sua beleza  um trunfo imbatvel!
      - S que beleza no paga dvidas, sir Guy. Portanto, diga quanto lhe devo.
      - Quer mesmo saber quanto me deve? Sinto desapont-la, mas essa quantia vai ficar como presente de casamento para a senhora e seu marido,  claro.
      Espantada com o sbito cinismo que se revelava na voz dele e confiando que as moedas oferecidas por Robert durante a manh fossem suficientes para cobrir suas 
despesas, ela insistiu:
      - Absolutamente, sir Guy. Dvida de jogo  sagrada.  uma coisa capaz de colocar em dvida a prpria honra da pessoa.
      - Hum, parece que a senhora est bastante informada a respeito.
      - No brinque, por favor. Sei disso porque papai jogava e nos causou bastante sofrimento devido s suas dvidas.
      -  por isso que no quer ficar em dbito?
      - Acertou! Agora me diga o valor e mandarei o dinheiro amanh, com um bilhete lhe agradecendo a gentileza.
      - Esperarei ansioso pelo bilhete, lady Droxford. Estou curioso para descobrir a sua opinio sobre mim.
      - No seja por isso. Saiba que o achei gentil e. . . amigo. 
      - E como imagina que eu a vejo?
      Constrangida pela maneira insistente com que ele a encarava, Karina abaixou os olhos, enrubescendo.
      - Afinal, posso saber quanto lhe devo?
      Atendendo ao pedido, ele colocou um bloco de papel sobre a mesa, anunciando:
      -  A senhora me deve duas mil libras.
      Por um momento Karina pensou no ter ouvido direito. Depois, certificando-se de que era verdade, levantou-se com a sensao de que o teto havia cado sobre 
sua cabea. No entanto, esforou-se para manter uma pose altiva e declarou:
      - Enviarei o cheque amanh, sir Guy. Com sua licena, vou procurar Harriet...
      Em seguida, Karina se afastou sem ousar encar-lo. Se o tivesse feito notaria uma estranha expresso naquele rosto atraente.  
      - Passei a noite inteira acordada, pensando em como fui capaz de perder. . . tanto dinheiro. Quando nos sentamos para iniciar uma partida de piquet, sir Guy 
me perguntou se faramos as apostas de costume. Eu concordei. .. pois no queria parecer ignorante e desinformada. . . - Karina parou de falar e, depois de uns minutos, 
fez um gesto de desnimo, acrescentando: - Desculpe-me, Alton. Se me perdoar, prometo que no lhe pedirei mais vestidos durante um bom tempo... nem voltarei a jogar.
      Em vez de responder, Droxford se levantou e tocou a campainha, chamando o criado.
      - Traga-me uma mesa e alguns baralhos - ordenou, assim que a porta se abriu.
      Apesar de espantada, Karina no se atreveu a fazer qualquer pergunta.
      No instante seguinte, o criado voltou com uma pequena mesa de mogno e a depositou diante da lareira, retirando-se a seguir com uma reverncia.
      - Sente-se, Karina. Vou lhe ensinar os principais fundamentos dos jogos da moda.
      Em menos de duas horas, ela j dominava as tcnicas e regras dos diversos tipos de jogo, aprendendo a manusear as cartas com segurana e tranqilidade.
      - Como , entendeu tudo direitinho? - ele perguntou, no final.
      - Perfeitamente! Voc  um verdadeiro s, Alton!
      - Nem tanto, embora normalmente eu no perca.
      - No seja modesto. Voc  um mestre e, como sua aluna, espero nunca mais envergonh-lo.
      - Para tanto me prometa algumas coisas; primeiro, no volte a jogar com sir Guy Merrick, depois saia da mesa sempre que comear a perder algumas libras, certo?
      -- Sim,  claro. Nunca mais repetirei esses erros.
      - timo! Vou confiar em voc.
      - E quanto ao dinheiro de... sir Guy?
      - No se preocupe. Ele receber meu cheque dentro de poucas horas.
      - Desculpe-me, Alton. Sinto muito por tudo isso.
      - Esquea o que aconteceu. A propsito, o duque de Richmond nos convidou para um baile hoje  noite. Voc gostaria de me acompanhar?
      -  claro! Seria maravilhoso sair com voc! 
      - Como imaginei que voc aceitaria, convidei algumas pessoas para o jantar e gostaria que usasse um dos diademas da famlia. Wade j lhe mostrou nossas jias?
      - Ele fez isso ontem, e garanto que nunca vi pedras to lindas!
      - Alegro-me que tenha apreciado. Bem, capriche na sua aparncia para hoje  noite, pois a nata da sociedade estar reunida na casa do duque.
      - Farei o melhor possvel.
      
      Assim que desceu  sala de jantar para aguardar os convidados, Karina se deparou com Droxford, que a fitou com verdadeira admirao.
      Procurando atend-lo, ela se havia esmerado ao mximo na escolha do traje, optando por um vestido rosa-claro, elegante e simples, que combinava perfeitamente 
com o colar de safiras, cujo formato lhe realava o pescoo esguio. Sobre os cabelos, presos em um coque, usava um diadema de safiras e diamantes, que brilhavam 
como estrelas.
      - As jias ficaram perfeitas em voc - ele murmurou, depois de alguns instantes.
      - Acha que estou... bem? No quero decepcion-lo com a minha aparncia.
      -  impossvel voc me envergonhar.
      Nesse momento, seus olhos se encontraram. Algo estranho e mgico aconteceu entre eles; uma espcie de fora magntica que lhes dava a sensao de estar muito 
prximos, apesar de sequer se tocarem.
      Fascinada, Karina desejou que aquele clima perdurasse por toda a eternidade. No entanto, a entrada de Newman, anunciando os primeiros convidados, trouxe-os 
de volta ao relacionamento frio e formal.
      
      A manso dos Richmond, toda iluminada, estava tomada pelos convidados. Por isso, alm da dificuldade de encontrar um lugar para estacionar a carruagem, Karina 
e Droxford demoraram bastante tempo at chegar ao hall, onde foram recebidos pelo duque e pela duquesa, que os encaminhou ao salo de bailes, igualmente lotado.
      Assim que se viu a ss com o marido, Karina perguntou:
      - Voc dana?
      - No. Fique  vontade e, caso precise de mim, me procure na sala de jogos.
      Por um momento ela esteve prestes a lhe pedir que no se afastasse, porm, a simples viso de uma mulher alta e morena, caminhando em direo a eles, a fez 
recuar em seus propsitos.
      Aborrecida, Karina se perguntou como reagiria caso o marido resolvesse apresent-la a lady Sibley. Ser que conseguiria disfarar seu desagrado?
      Felizmente, ela no precisou pensar mais a respeito, pois urna voz grave e profunda a convidou para danar. Era um dos nobres que foram jantar em sua casa 
pouco antes, e Karina o achara bastante simptico.
      Ansiosa por se livrar logo do risco de ser apresentada  exuberante morena, ela aceitou sem pestanejar.
      Quase duas horas depois, cansada de danar, resolveu descer as escadarias para ir ao salo de jogos.
      Talvez no fosse recomendvel perturbar Droxford em meio a uma partida, mas era impossvel continuar a recusar os inmeros convites para as valsas ou polcas, 
e seus ps definitivamente no agentavam mais.
      Nem bem chegou ao trreo, procurou pelo marido em cada uma das mesas recobertas de feltro verde, entretanto no havia sinal dele.
      Decidida a ach-lo a qualquer custo, seguiu pelo corredor, espiando as ante-salas, onde casais de namorados, ou grupos de amigos conversavam. De repente, em 
uma delas avistou o conde e lady Sibley, recostados num sof, discretamente localizado.
      Experimentando um misto de indeciso e surpresa, Karina deu meia-volta, saindo rapidamente em direo ao jardim, esperando que o ar fresco da noite a ajudasse 
a clarear as idias.
      As rvores tinham sido enfeitadas com graciosas lanternas, que espalhavam uma suave luminosidade nos canteiros repletos de flores multicoloridas e nos tanques 
de lrios d'gua.
      Nos caramanches, artisticamente recobertos por trepadeiras, havia confortveis cadeiras e bancos, nos quais os namorados podiam trocar juras de amor, contando 
apenas com o testemunho da lua, que brilhava alta no cu sem nuvens.
      Desejando permanecer a ss, Karina procurou um lugar vazio, concentrando-se apenas no som distante da orquestra e na beleza das estrelas.
      - Sabia que nos encontraramos novamente, lady Droxford! - Uma voz de homem disse, minutos depois, s suas costas. Sobressaltada, ela reconheceu o tom desagradvel 
e cnico de lorde Wyman e imediatamente comeou a tremer, vtima de um medo inexplicvel.
      Sem se voltar, ela concluiu que seria melhor aparentar segurana e retrucou, em tom firme:
      - Sinto muito, mas no fui apresentada ao senhor.
      - Se isso a incomoda, vou procurar algum que resolva esse problema. Prefere que seja nosso anfitrio ou sua esposa? No ser difcil convenc-los a atender 
meu pedido.
      A julgar pela maneira decidida como ele falava, seria ridculo insistir naquela simples formalidade, o que contribuiu para aumentar a apreenso de Karina, 
emudecendo-a.
      - A senhora sabe o meu nome e eu tambm a conheo. Garanto-lhe que isso  mais do que suficiente! Vamos danar? Mal posso controlar a vontade de t-la em meus 
braos, ainda que seja durante uma valsa apenas.
      - Preciso... procurar meu marido.
      - Eu no a aconselharia. Ele se encontra muito ocupado, no momento
      Pelo tom irnico da insinuao, Karina deduziu que lorde Wyman tinha visto Droxford e lady Sibley, juntos. Mesmo assim arranjou, outra desculpa, disposta a 
no dar o brao a torcer:
      - Acontece que j me comprometi para a prxima dana.
      - Desista de fugir pois eu a perseguirei at o fim da noite, minha doura. Adoro as mulheres que se fazem de difceis... A propsito, acho-a ainda mais encantadora 
esta noite do que na primeira vez em que a vi na Bond Street.. . Venha, vamos danar!
      - Por favor, j tenho um parceiro.
      Apelando para o bom senso, ela deduziu que deveria sair dali mais rpido possvel. Pelo menos no meio de outras pessoas, aquele impertinente moderaria a linguagem, 
e ela se sentiria em segurana. Sem pensar duas vezes, deu meia-volta e se precipitou escada acima em direo ao salo. Contudo, para sua decepo, ele a seguiu, 
desfiando um verdadeiro rosrio de elogios que, na boca dele, soavam ridculos.
      - A senhora  encantadora! Pena no podermos nos sentar no jardim para conversar, pois preciso lhe falar do quanto a admiro.
      - Quer fazer a gentileza de me deixar em paz?
      Apesar da rudeza com que Karina o tratou, ele insistiu em cortej-la, o que a obrigou a acelerar o passo. Felizmente, a primeira pessoa com quem se deparou 
ao chegar no patamar foi sir Guy Merrick, que parecia entretido em contemplar o jardim.
      Seguindo um impulso, ela se aproximou no nobre atraente e disse, sem vacilar, enquanto lhe lanava um olhar cheio de splica:
      - Desculpe-me pelo atraso. No pretendia faz-lo esperar pela nossa... dana.
      Compreendendo o que estava acontecendo, ele retrucou, sem hesitar:
      - Estava  sua procura.
      - Como v, lorde Wyman, encontrei o meu parceiro.
      - No tem problema. Reserve para mim a prxima dana.
      - Tambm vai ser impossvel. J estou... comprometida.
      - Ento eu espero.
      Diante do tom ameaador do homem, Karina se voltou para Guy e sugeriu:
      - Vamos danar? 
      - Claro!
       Ato contnuo, sir Guy lhe tomou o brao, conduzindo-a para a sala, sob o olhar cobioso de lorde Wyman.
      - Podemos sair escondidos daqui? - perguntou Karina, aps os primeiros volteios da belssima valsa que a orquestra executava.
      - Vamos tentar. Precisamos conversar.
      Rodopiando ao som da melodia, chegaram  escadaria principal, e desceram para o jardim sem serem notados. Quando se viu diante de um caramancho vazio, Karina 
deu um longo suspiro de alvio. 
      - O que fazia na companhia de lorde Wyman, e o que a assustou?
      - Sa sozinha em busca de Alton, quando lorde Wyman se aproximou e comeou a conversar comigo... No identifico o porqu, mas a simples presena dele me apavora! 
Acho-o horrvel e assustador... Talvez seja tolice minha. . . no sei. 
      - Acalme-se! De fato, aquele homem  insuportvel e eu a aconselho a no manter qualquer espcie de contato com ele. 
      - Oh, por favor, no pense que eu gosto dele. Tentei evit-lo desde uma vez em que o vi na Bond Street, mas eu estava sozinha... 
      - O qu? Voc passeou desacompanhada na Bond Street? 
      Arrependida do comentrio, Karina tapou a boca com a mo. 
      - Oh, eu no devia ter lhe contado isso!
      - Mas como aconteceu uma coisa dessas?
      - Bem, foi no meu segundo dia em Londres e tive sorte por encontrar o capito Farrington que, alm de me salvar, me explicou que era incorreto andar por ali 
sozinha. . . Mas isso no importa! O que eu preciso  arranjar um jeito de me livrar de lorde Wyman.
      - Fique sossegada que estar segura aqui, comigo.
      Essa observao a fez lembrar que sir Guy no se havia mostrado leal na noite anterior e, involuntariamente, Karina desviou o olhar. Percebendo-lhe a reao, 
ele perguntou:
      - Conseguiu me perdoar por ontem, lady Droxford?
      - Para ser sincera, no!
      - Entendo! Na verdade, eu estava to convencido de que voc nunca mais me dirigiria a palavra que passei o baile inteiro pensando em como arranjar um momento 
para ficarmos a ss. Queria muito lhe comunicar o meu arrependimento e pedir perdo.
      - Admito que eu no pretendia voltar a conversar com o senhor mas quando o vi, no hesitei em lhe pedir ajuda como a um... amigo
      - Perdoe-me, Karina, por favor.
      - Diga-me uma coisa; o senhor fez aquilo ontem  noite para provocar Alton, no ?
      - Sim,  verdade. Quis insult-lo, e paguei caro por isso. Passei a noite acordado, lembrando a expresso aflita de seus olhos... Desde ento, no consegui 
ter um momento de paz. Por acaso o conde ficou zangado com voc?
      - No, ele se mostrou bastante gentil, prometendo que ia pag-lo Espero que tenha recebido o cheque, sir Guy.
      - Recebi e o rasguei.
      Karina se sobressaltou e fitou Guy nos olhos pela primeira vez.
      - Mas no deveria ter feito isso... Era uma dvida de honra.
      - Engana-se! Agi como um bruto, indigno at mesmo de lhe dirigir a palavra. Alm disso, como voc no percebeu que seria impossvel perder uma quantia alta 
como aquela em to pouco tempo?
      - Quer dizer que o senhor... inventou as minhas perdas?
      - Exato! E, de acordo com os meus planos, Alton tambm deve ter notado que tudo no passava de uma farsa.
      - Por que fez isso?
      - Como voc se comportaria diante de algum que tivesse encontrado um tesouro... e no se preocupasse em proteg-lo?
      - Acredita que ele tenha compreendido a sua inteno?
      - Tenho certeza de que sim. Ns dois fomos criados mais ou menos juntos e vivemos como irmos durante vinte anos. Por isso, sei exatamente como a cabea dele 
funciona, e a recproca  verdadeira.
      - Ento, qual o motivo de se odiarem?
      Houve um breve silncio, antes de sir Guy desviar o assunto, esquivando-se de responder.
      - Ele a proibiu de conversar comigo?
      - No. Apenas me fez prometer que no jogaria com o senhor novamente.
      - Ser que Alton no me acha suficientemente perigoso, ou no se importa com o que possa lhe acontecer? - Como Karina no retrucasse, ele bateu com o punho 
em uma das mos, numa repentina demonstrao de raiva. - Maldio!  errado ns dois usarmos voc como um fantoche para nos agredirmos... Nossa desavena aconteceu 
h muito tempo, quando voc no passava de uma criana! Perdoe-me, Karina! Eu me comportei de maneira abominvel e s lhe peo que tenha piedade de um homem que 
no consegue tir-la da cabea desde o primeiro momento em que a fitou.
      - Tenho a impresso de que  incorreto o senhor me falar essas coisas.
      - Talvez seja, para os hipcritas! No podemos recuar, fingindo que no fiquei fascinado pela sua beleza. Eu me lembrei de voc durante todos os segundos do 
dia, querendo tornar a v-la, ansiando por ouvir a sua voz e me amaldioando por t-la magoado, por ter desprezado a sua amizade feito um idiota. Eu a feri demais, 
no, Karina?
      - Sim. Eu havia confiado no senhor!
      - Esta  a afirmao mais cruel que voc poderia fazer. Mas mereo esse castigo e reconheo que no tenho o direito de lhe pedir nada a meu favor.
      - Eu tambm passei a noite acordada e me sinto exausta. Creio que seria melhor ir embora.
      - Claro! Compreendo que depois do que aconteceu, minha presena  insuportvel.
      - No, no  isso - respondeu Karina, apressada. - S estou meio confusa. . . Acreditei que havia perdido aquela quantia e esperei que Alton ficasse furioso 
comigo, por isso julguei que a sua amizade no passasse de encenao, o que me deixou perdida, triste e amedrontada. . . No entanto, Alton foi compreensivo e demonstrou 
isso me trazendo aqui esta noite, ao mesmo tempo o senhor parece arrependido, falando com sinceridade. . .  Quero continuar sendo sua amiga; porque no conheo quase 
ningum, e pessoas como lorde Wyman me amedrontam. Por outro lado. . .
      - Oh, Karina, Karina! - Antes que pudesse haver qualquer protesto Guy lhe tomou a mo esquerda e, com delicadeza, lhe tirou luva, beijando os dedos dela um 
a um. - Voc  to jovem, to inocente! - ele murmurou, com a voz rouca.
      - Acho que...  conveniente eu me retirar. 
      Mas se a razo lhe dizia que precisava sair dali, a doce sensao provocada pelos lbios dele contra a palma de sua mo e o contato forte e seguro de seus 
dedos contra os dele lhe despertavam um imenso desejo de ficar. No entanto, ele interrompeu a carcia e, numa voz muito suave, disse:
      - Voc parece to exausta! Vou procurar seu marido e se ele no quiser ir embora, eu mesmo a levarei de volta para casa.
      - Talvez Alton... deseje ficar. Ele est se divertindo...
      - Garanto que o encontrarei para voc. Venha, vou lev-la para dentro, pois no quero deix-la sozinha. Seus olhos devem atrair todos os homens do mundo.
      - Ontem o senhor fez o mesmo comentrio.
      - Duvida da sinceridade do meu elogio?
      Com os olhos fixos nela, Guy a impediu de se esquivar, exigindo uma resposta.
      - Eu acredito - murmurou Karina, num fio de voz.
      - Ento esquea a minha deslealdade, por favor! Vamos fazer de conta que acabamos de nos conhecer e eu lhe disse que voc era a pessoa mais bonita do mundo! 
 a pura verdade, Karina. Voc  a mulher que tenho procurado h anos. . . Pena que a encontrei tarde demais.
      - Pare com isso. . .
      - Sei que est tentando se convencer de que tudo  brincadeira mas nunca fui to sincero. S que eu no deveria ter revelado nada, ainda.
      - O que quer dizer?
      - Que me apaixonei por voc, e quando um homem finalmente encontra a mulher ideal, aquela imagem que sempre guardou no corao, a reserva e a dvida caem com 
o simples toque da mo dela! Eu a amo, Karina. Sei que vou sofrer por isso, que seria mais sensato no tornar a v-la
      Mais uma vez ele pressionou os lbios de maneira apaixonada na mo de Karina.
      - Coloque a luva, vou lev-la at seu marido!
      Espantada com a repentina mudana que se operara nele, Karina sentiu um arrepio lhe percorrer o corpo. Seria verdade que tudo aquilo estava acontecendo? Ou 
Guy era apenas um bom ator?
      Pouco depois, ao chegarem ao vestbulo, ele tirou-a de suas divagaes, perguntando de modo gentil:
      - Faz idia de onde eu encontraria Alton?
      - Ele afirmou que ficaria no salo de jogos, mas a ltima vez em que o vi ele estava em uma das ante-salas com. . . uma amiga.
      - Certo! Espere aqui, embora exista o risco de lorde Wyman vir importun-la.
      Mostrando-se insatisfeito com essa possibilidade, ele relanceou o olhar pelo salo e deteve a ateno em um grupo de jovens que conversava prximo  escadaria. 
Sem hesitar, se aproximou de um rapaz moreno e disse:
      - Lovelace, voc faria a gentileza de entreter lady Droxford, enquanto procuro o marido dela?
      - Sim, claro!
      - Lady Droxford, quero lhe apresentar Ian Lovelace, filho de um velho amigo. Esperem-me aqui, pois voltarei o mais depressa possvel.
      - Obrigada, sir Guy.
      Respondendo com uma leve inclinao de cabea, ele se ps a caminho do trreo, com passos decididos.
      Ao verificar que o conde no estava no salo de jogos, continuou pelo corredor at chegar  ante-sala, onde o encontrou ao lado de Georgette, no que parecia 
ser uma discusso acirrada. Lady Sibley tinha a voz levemente alterada e falava sem parar, os olhos faiscando de raiva. Entretanto, ao perceber que sir Guy se aproximava, 
ela se calou e sorriu amavelmente,
      - Seu criado - cumprimentou Guy, inclinando-se para beijar-lhe a mo. - Permita-me dizer que est encantadora.
      - Oh, obrigada! A propsito, faz tanto tempo que o senhor no me honra com a sua visita. Agora que voltei a Londres, espero encontr-lo com maior freqncia.
      - Que negligncia a minha! Porm, asseguro que irei visit-la na primeira oportunidade - retorquiu Guy, com uma nota zombeteira na voz
      Sem disfarar, ela o olhou de um jeito provocante. Durante um longo tempo tentara conquist-lo, mas Guy sempre a evitara, o que a fazia consider-lo um grande 
desafio. Por v-lo to resistente, no perdia uma nica chance de lisonje-lo com gestos e insinuaes ousadas
      Para no variar, porm, ele a colocou em segundo plano, dirigindo-se a Droxford.
      - Vim pedir permisso para levar sua esposa de volta, Alton. Ela se sente cansada e deseja ir embora. 
      Droxford se levantou.
      - Se minha esposa quer se retirar eu mesmo a acompanho - respondeu Droxford, com raiva, enquanto se levantava. - E eu lhe agradeceria, se a deixasse em paz.
      Trocando um sinal de entendimento entre si, ambos se afastaram do sof, e Guy explicou, em voz baixa:
      - O problema  que ela est to solitria, Alton, que at o medocre do Wyman consegue amedront-la.
      - Wyman! Aquele canalha?
      -  Exatamente. Para seu governo, acabo de salv-la das investidas intolerveis de Wyman. Isso significa algo para voc?
      - Quer fazer a gentileza de no interferir na minha vida particular?
      - Pouco me importa a sua vida particular. Em compensao, sua esposa me inspira cuidados.
      - No lhe basta o episdio de ontem? Imagino que tenha recebido o meu cheque.
      - Sim, e me espantei com a sua rapidez. Alis, conforme as suas previses, rasguei o cheque.
      - Esse comportamento  extremamente provocante, mesmo para algum desprezvel como voc! Trate de tomar cuidado, seno vou desafi-lo para um duelo.
      - Voc nunca tomar essa iniciativa, pois posso mat-lo, Alton.!
      H anos que sinto vontade de fazer isso, mas nunca foi to forte como agora.
      - E o que mudou assim de repente?
      - Procure a resposta na sua ltima conquista, a nica pessoa capaz de tornar insignificante tudo que voc possui. Mas trate de se cuidar, tomando conscincia 
de que se voc no se mostrar interessado por sua esposa... outros homens tentaro substitu-lo.
      - Meu Deus, quanta impertinncia! At que ponto imagina que pode insinuar coisas, sem receber uma merecida lio?
      - Ns ramos um preo duro, hein? s vezes me pergunto quem seria o vencedor se chegssemos a lutar.
      - Se abrir a boca mais uma vez, vou lhe dar a oportunidade de verificar isso, no com murros, mas sim com pistolas!
      - Enquanto isso, sua esposa o aguarda impaciente... Afinal de contas, vou acompanh-la, ou ir voc?
      - Eu farei isso, e voc pode ir para o diabo, antes que eu o mande para l de uma vez por todas!
      - Ento permita que eu ocupe o seu lugar ao lado desta dama maravilhosa, que voc est abandonando para cumprir suas obrigaes de marido - anunciou Guy, sentando-se 
no sof ao lado de Georgette. Em seguida, acrescentou, virando-se para o conde: - Voc encontrar lady Droxford no vestbulo.
      Aps se despedir de Georgette, Alton abandonou a sala, atravessando o corredor com passos acelerados, o rosto transtornado pela raiva.
      -  Voc quer voltar para casa, no ? - perguntou, assim que avistou a esposa.
      -  Se no for inconveniente...
      - Mandarei buscar a carruagem - interrompeu-a, virando-se para a porta.
      Depois de agradecer a Ian Lovelace pela companhia, Karina ordenou a um criado que lhe trouxesse o agasalho, no que foi prontamente tendida. Em seguida se juntou 
ao marido, perguntando-se o que sir Guy teria dito para deix-lo to furioso.
       bem verdade que ela no agira corretamente ao permitir que o pior inimigo dele fosse procur-lo, ao mesmo tempo no lhe restava outra sada, na medida em 
que tremia s de imaginar que ficaria frente a frente com lady Sibley.
      Afinal, ver os dois se beijando nos jardins do duque de Severn, quando ainda no se envolvera com Droxford, era uma coisa; mas ser apresentada  amante do 
marido era completamente diferente!
      Momentos mais tarde, j na carruagem, Karina tentou quebrar o desagradvel silncio em que haviam cado desde a sada da festa.
      - Desculpe-me por for-lo a sair da festa mais cedo.
      - Guy me disse que Wyman a importunou.  verdade?
      - . Lorde Wyman insistiu que eu... danasse com ele! Mas isso era s uma desculpa para me tocar, como ele prprio insinuou.
      -  Ai, Karina, francamente! Voc tem o dom de atrair os piores homens da sociedade!
      Indignada pela rispidez de sua voz, ela decidiu que devia lhe dar o troco, uma vez que Alton a ignorara o tempo inteiro, dedicando-se apenas a lady Sibley. 
Sem pensar duas vezes, comentou, em tom provocante:
      - Talvez isso no acontecesse caso voc se desse ao trabalho de me apresentar algumas pessoas respeitveis.
      Aparentemente arrependido, o conde engoliu em seco, antes de anunciar:
      - Tem razo! Vou apresent-la a alguns de meus amigos. Amanh mesmo pedirei a Wade que envie os convites.
      - Seria timo.
      - Pena que eu j tenha a agenda tomada por diversos compromissos ... Bem, mesmo assim faltarei a um ou dois jantares para lev-la  pera.
      - Oh, eu no quero incomod-lo, Alton.
      - No ser incmodo. Afinal, preciso fazer com que minha mulher conhea pessoas dignas e no apenas patifes como Wyman... e Guy Merrick! Como ela no retrucasse, 
Alton perguntou: - O que Guy lhe disse hoje?
      - Ele me contou que rasgou o seu cheque, e que a atitude dele visava apenas a insultar voc.
      - No que ele foi muito bem-sucedido!
      - Se voc percebeu isso logo, por que no me falou? Que espcie de prazer sentiu ao me ver pedindo desculpas por algo que eu no tinha feito?
      - No seja tola! 
      Ignorando a interrupo, ela prosseguiu:
      - Desconheo o motivo da rixa entre vocs, mas nem por isso aceito ser usada como um instrumento para expressar essa inimizade!
      - Voc deve culpar a ele por isso, e no a mim.
      - A responsabilidade cabe aos dois. Quer um exemplo? Por que em vez de me tranqilizar, voc fez questo de que eu me sentisse culpada? - Como no obtivesse 
resposta, Karina concluiu, com uma nota de tristeza na voz: - Fico magoada por ter sido envolvida nessa histria!
      - Novamente lhe dou a razo. Guy e eu no tnhamos o direito de us-la para nos ofender. Suplico que me desculpe e espero que ele tambm lhe pea perdo.
      - Sir Guy j fez isso e eu... perdoei!
      - A julgar pelo seu modo de falar, voc continua disposta a se tornar amiga dele, no ? Saiba que no conta com a minha aprovao...              
      - S me resta lembrar que, se voc mantm as suas amizades, eu tambm tenho o direito de fazer o mesmo. Portanto, ainda que voc no goste de sir Guy, serei 
gentil com ele, pois foi a pessoa mais amvel que encontrei, desde que cheguei a Londres!
      Antes que Droxford pudesse responder a carruagem parou e, no mesmo instante, um criado se aproximou, abrindo a porta.
      Saltando na frente, Droxford estendeu a mo para ajud-la a descer e a acompanhou at a entrada do vestbulo. Enquanto caminhavam, Karina se censurava por 
ter gasto o pouco tempo que havia estado ao lado do marido, discutindo assuntos desagradveis e pouco importantes.
      Fitou-o de maneira disfarada, admirando-lhe a elegncia e a beleza aristocrtica e desejou v-lo sorrir pelo menos uma vez.
      Para sua decepo, porm, ao chegarem  porta do vestbulo, ele se virou para Newman e ordenou:
      - Avise o cocheiro para no guardar a carruagem.
      "Ento ele pretende voltar para os braos de lady Sibley!", deduziu Karina.
      Sentindo-se menosprezada, desviou o olhar daquela figura alta e atraente.
      - At amanh, Alton.
      Sem esperar resposta, entrou na manso e comeou a subir a escada lentamente, sentindo-se cada vez mais triste...
      Assim que abriu a porta do quarto, as lgrimas brotaram de seus olhos, embora ela no admitisse o motivo de estar chorando.
      
      CAPTULO VI
      
      Assim que entrou no White's Club, Droxford relanceou o olhar pelo ambiente, tentando localizar alguma mesa num canto discreto, que o deixasse livre das pessoas 
que fatalmente o procurariam para conversar.
      Desde que haviam comeado as polmicas em torno da Reforma Bill, ele no encontrara um nico minuto de paz. As reunies, que aglutinavam os nobres mais representativos, 
tinham incio pela manh logo cedo e, no raro, se estendiam pela tarde, tomando inclusive grande parte da noite.
      Tambm no era para menos! A emenda que propunha reduzir o poder da coroa, dividindo-o com a burguesia, produzira um grande rebolio nos altos escales ingleses.
      Alm disso a situao social parecia quase calamitosa depois do reinado de George IV, que permitira a proliferao de vrios grupos de diferentes matizes polticos. 
E a nobreza sabia muito bem que, se no fosse introduzido um sistema administrativo mais justo para com os pobres e os trabalhadores, uma rebelio seria fatal.
      - Se no tomarmos cuidado pode estourar uma revoluo! - comentara um dos velhos nobres naquela manh. - Vejam bem; houve tumultos nas principais cidades e 
no campo, montes de feno foram queimados... Os trabalhadores rurais marcharam ameaadoramente contra os patres, e em Londres, a nova fora policial de sir Robert 
Peel encontra dificuldades para manter o povo afastado de Buckingham House e do Parlamento.
      Os policiais de sir Peel, ou os Demnios Azuis, como eram conhecidos, tinham, em apenas dois anos de funcionamento, conquistado uma declarada antipatia por 
parte da populao, que abominava seus mtodos repressivos e brutais.
      Agora, em plena poca de eleies, os comcios se sucediam, e nobres sem compromissos partidrios, como Droxford, eram abordados dia e noite por entusiastas 
representantes das duas correntes principais. De um lado, os defensores da Reforma Bill, liderados pelo primeiro-ministro, lorde Grey, enquanto que a oposio contava 
com a valiosa participao do duque de Wellington.
      -  Em quem pretende votar, Droxford? - um dos nobres havia perguntado,  sada da reunio.
      -  Ainda no resolvi. Admito que a redistribuio das cadeiras parlamentares  urgente, mas, ao mesmo tempo, sinto que as propostas de lorde John Russell para 
uma nova constituio vo longe demais.
      -  Tem razo, meu caro - um terceiro interveio. - Creio que todos ns alimentamos as mesmas dvidas. Sem saber que partido tomar, nos dividimos entre a cruz 
e a espada.
      Para piorar a situao, a presso sobre Droxford era to intensa  que no lhe deixava disponibilidade para qualquer outra atividade, acumulando-o de reunies, 
debates e discusses.
      Diariamente o convidavam para almoos, jantares e ceias, nos mais variados lugares, forando-o a se desdobrar para atender a todos os compromissos, e impedindo-o 
de cuidar de seus assuntos pessoais.
      Perdido nesses pensamentos Droxford mal se deu conta da aproximao do garom, que lhe trazia um suculento fil com molho de cogumelos, um de seus pratos prediletos.
      Quando ia comear a comer, porm, pressentiu que algum o observava.
      Com evidente irritao, levantou os olhos para verificar de quem se tratava, mas sua expresso se suavizou assim que ele reconheceu lorde Barnaby, um homem 
idoso e corpulento que fora amigo ntimo de seu pai.
      -  Bom dia, lorde Barnaby. Que satisfao!
      -  Nem se d ao trabalho de levantar, meu caro. Vim apenas cumpriment-lo por sua nomeao como lorde-tenente, a qual descobri atravs da Gazette da semana 
passada, que publicou um artigo bastante elogioso a seu respeito.
      - Obrigado, senhor. No quer sentar-se?
      - No, no! Almoce sossegado! J estou de sada e no tenho tempo para conversar. Alm disso, imagino sua pressa para assistir  corrida!  bem verdade que 
as apostas esto contra a condessa, pois ela no  conhecida, nem foi vista dirigindo... A propsito, meu filho, quero alert-lo para o perigo de essa competio 
chegar aos ouvidos de Sua Majestade, criando uma situao bastante embaraosa.
      - Desculpe-me, senhor, mas a que corrida est se referindo? Incrdulo, lorde Barnaby arregalou os olhos, perguntando:
      - No sabe sobre o que estou falando? Deus meu, voc no deveria brincar assim comigo, Alton!
      - Engana-se, senhor. Garanto que no pretendo pregar uma pea e, de fato, nem imagino o que houve.
      - Ento sua bela esposa agiu s escondidas... Bem, eu no a culpo. Na certa, se lhe contasse antes, voc a impediria. Muito perspicaz e audaciosa... Hum, transmita 
os meus cumprimentos  condessa, filho.
      Percebendo que o velho pretendia se retirar, Droxford se levantou e pediu com firmeza:
      - Quer fazer a gentileza de me explicar exatamente o que est acontecendo?
      Arrependido por ter aberto a boca, lorde Barnaby parou de rir, declarando tranqilamente:
      - No  da minha conta, nem pretendo me envolver na sua vida particular, mas h um livro de palpites e metade do White's Club apostou, portanto no  segredo.
      - Apostou... em qu?
      - Ora, na corrida entre lady Droxford e a marquesa de Downshire.
      - E onde vai ser a competio?
      - No Regent's Park.
      - Em que horrio?
      - s duas, creio eu! Agora com sua licena, vou me retirar. Desculpe-me pelas notcias desagradveis e siga um conselho de algum experiente: o silncio  
a melhor forma de se lidar com esses assuntos.
      - Antes, por favor, que horas so, lorde Barnaby? O homem retirou um pesado relgio de ouro macio do bolso e, consultando-o com dificuldade, disse:
      - Minha vista j no funciona como antes... Hum me deixe ver! Faltam quatro minutos para a largada.
      Antes que o lorde se desse conta da situao, o conde havia desaparecido na porta do vestbulo, o olhar furioso.
      "Ai, ai, Alton se zangou! Por que eu no aprendo a manter a boca fechada? Mas tambm era impossvel eu adivinhar que ele desconhecia a aventura da esposa. 
Agora, pacincia!", disse lorde Barnaby para si mesmo, encolhendo os ombros com desnimo.
      Chegando ao Regent's Park, Droxford hesitou entre tomar a pista da direita ou a da esquerda, se decidindo por fim pela ltima. Logo verificou que havia acertado 
na escolha, pois se deparou com um ponto de largada improvisado, onde uma multido de homens aguardava  pelos competidores.
      Em seguida, deduziu que a corrida j havia comeado, a julgar pelo  modo como a assistncia olhava para a ltima curva da alameda. Sua suposio foi confirmada 
segundos depois, quando de repente surgiram dois pares de cavalos.
      Fixando a vista ele distinguiu a marquesa de Downshire, num elegante coche negro e amarelo, conduzido por dois geis garanhes.
      Durante a regncia, a marquesa, conhecida como "a dama das corridas", havia ficado famosa pela maneira franca de se expressar, considerada elegante e divertida. 
No entanto, atravs dos anos, as pessoas comearam a consider-la um tanto grosseira e vulgar, excluindo-a das festas e reunies sociais.
      Mas no restavam dvidas de que ela sabia guiar, e quando seu coche passou em disparada, a multido gritou cheia de entusiasmo.
      Logo atrs vinha Karina, num vestido azul, prprio para a ocasio, e um bonezinho preso ao pescoo por fitas do mesmo tom. Estava; linda, e sua delicadeza 
nem podia ser comparada  figura um tanto grosseira da rival. O coche, presenteado por Droxford, parecia bastante gil e seguro, e a jovem condessa manejava as rdeas 
com segurana.
      - A patroa vai vencer! - o cocheiro comentou com Alton. - Ela sabe guiar os cavalos!
      A observao do criado serviu apenas para aumentar o nervosismo do conde, que j no estava gostando nada de ver a esposa, exposta  admirao dos indivduos 
pouco qualificados e dos desocupados, que circulavam pelo parque.
      Por outro lado, tambm o desagradaria que ningum acreditasse na habilidade de Karina, limitando-se a gritar o nome da j consagrada dama.
      Ao final de alguns minutos, experimentando sentimentos conflitantes, ele se dividia entre o desejo de que ela sofresse uma derrota, que a ensinasse a no fazer 
nada escondido, e o impulso de torcer para que ela vencesse, jogando por terra a crena de que a marquesa era imbatvel.
      - Ali vem elas! - algum gritou, no momento em que os cavalos reapareciam, envoltos numa nuvem de poeira.
      Definitivamente, a vitria no seria fcil para a marquesa pois os quatro animais galopavam emparelhados; at que, a cem metros do ponto de chegada, Karina 
tomou a dianteira.
      A marquesa, desesperada, chicoteou os garanhes com violncia, os cabelos revoltos sobre o rosto corado, mas j era tarde; Karina vencera a prova.
      Tranqila e confiante, Karina deu meia-volta, a fim de receber os cumprimentos e, pela primeira vez, se perguntou como o marido reagiria quando descobrisse 
sua ltima aventura. Na certa, ele compreenderia e no censuraria sua atitude ao saber em detalhes como tudo comeara.
      Durante a semana anterior, ela aceitara diversos convites de sir Guy Merrick para cavalgar.
      O amigo parecia adivinhar as horas em que o conde Droxford no se encontrava na manso e tinha a discrio de nunca entrar, assim como de no insistir caso 
ela simplesmente o avisasse de que havia marcado outros compromissos. Para completar, ele sempre tomava o cuidado de no lev-la ao Hyde Park, onde despertariam 
fofocas, limitando-se a passar por ruas secundrias.
      Costumavam visitar o Battersea Park, Chelsea, Bloomsbury Square, e de vez em quando os arredores de Londres, em busca das inmeras feiras de cavalos que ocorriam 
nos subrbios.
      Numa dessas ocasies, atendendo aos apelos insistentes de Karina, ele a acompanhara a Tattersalls, famosa por ser palco das mais comentadas negociaes de 
puros-sangues.
      - Papai comprou um excelente garanho em Tattersalls h algum tempo - ela comentara, entusiasmada.
      - Tambm comprei um par de baios l na semana passada. Alis, estou ansioso para mostr-los a voc.
      - Oh, eu adoraria!
      - Acho-a incrvel, Karina! Tenho certeza de que lhe agradaria mais ganhar um cavalo de raa do que um colar de diamantes!
      - Tem razo! Diga uma coisa, acredita que Alton permitiria que eu montasse o meu prprio estbulo?
      - Por que no tenta?
      Karina se limitara a menear a cabea, sem coragem de admitir que ainda no se sentia  vontade de pedir nada de to especial a Alton. Pouco depois, enquanto 
passeavam pela feira, seu olhar se deteve em uma das baias, e ela gritou entusiasmada:
      - Guy, veja aquele garanho! Ele  perfeito! Por que ningum o compra?
      - Talvez no esteja  venda.
      - Oh, mas  um animal esplndido!
      Ainda estava admirando o cavalo quando uma voz de mulher exclamou, s suas costas:
      - Onde diabos voc se meteu, Guy Merrick? Pensei encontr-lo em Newmarket, mas no vi nem sinal seu.
      Com visvel desagrado, sir Guy se virou para a dama, replicando em tom frio:
      - Prazer em rev-la, marquesa. Deixe-me apresent-las; condessa de Droxford, esta  a marquesa de Downshire.
      - Ento voc  a garota de quem tenho ouvido falar!
      A marquesa, uma mulher de meia-idade, estava acompanhada por trs cavalheiros que aparentemente eram fascinados por cavalos de corridas, pois no falavam de 
outra coisa.
      De repente, ela exclamou:
      - Comprei uma parelha para meu coche, capaz de vencer qualquer corrida!
      -   melhor no contar vantagens perto de, sir Guy - um dos homens advertiu, sorrindo. - Os baios que ele adquiriu na semanal passada so soberbos! Eu apostaria 
neles!
      - No me insulte! Estou convencida de que os meus cavalos podem derrotar os pangars de Guy num piscar de olhos.
      - Ora, ora, minha querida - outro dos cavalheiros interveio. - Isso mais parece um desafio!
      - No parece,  um desafio! O que acha de apostar quinhentos guinus contra os meus cavalos, Trevor?
      - Ah, no! - um senhor replicou. - Eu no entro nessa!
      - E voc Guy?
      - No sei se os meus cavalos agentariam a parada...
      - Meu Deus, que homens medrosos! Tm pavor de competir comigo! Garanto que mesmo que eu jurasse guiar o coche com apenas uma das mos, vocs recuariam.
      - No exagere, marquesa! - protestou Trevor.
      - Quem disse que  exagero? Qual de vocs aceita o meu desafio?
      - Eu aceito! - exclamou Karina, sem refletir. - Mas s apostarei cem libras e vou usar os cavalos de meu marido.
      - Cem libras? Bem, aceito a sua proposta. Compreendo que no queira apostar muito, porque sabe que fatalmente acabar perdendo ...
      Karina no tinha percebido o significado real daquele desafio, mas lady Downshire a irritara. A marquesa podia ser uma grande campe, mas era tambm o tipo 
de pessoa convencida e prepotente, que merecia uma boa lio.
      Assim que havia chegado na manso aquele dia, ela procurara pelo marido a fim de avis-lo da competio do dia seguinte, mas Newman a informara de que o conde 
s voltaria tarde da noite.
      Como ignorasse que Droxford havia sido obrigado a comparecer a uma reunio urgente em Holland House por causa da Reforma Bill, ela deduziu que o marido estivesse 
nos braos da possessiva Georgette Sibley!
      Desapontada, ela se deitou, pensando em comunic-lo da corrida na manh seguinte. Entretanto, antes que ela descesse para tomar o caf, Alton j tornara a 
sair.
      Por isso, sentia-se apreensiva quanto  reao dele, embora alimentasse a esperana de que pudesse manter o caso em segredo.
      Para sua decepo, porm, assim que apeou a fim de receber os cumprimentos, um homem alto, de aparncia distinta se aproximou. Era Droxford!
      Incapaz de esboar qualquer gesto, Karina empalideceu, sentindo as pernas tremerem enquanto ele a observava com ar de desaprovao.
      -Venha comigo, Karina! - ele disse num tom frio. Em seguida se virou para o cocheiro e ordenou: - Leve o coche da condessa para casa, James.
      Ainda hesitante, Karina entregou as rdeas ao criado e, entrando na carruagem, falou:
      - Queria lhe pedir desculpas...
      - Conversaremos em casa.
      Pressentindo que seria melhor se manter calada, Karina se encolheu no assento confortvel, sem pronunciar uma nica palavra durante todo o trajeto.
      A bem da verdade, nunca vira o marido to nervoso e comeava a se arrepender por mais aquela atitude impetuosa e irrefletida.
      Assim que Newman lhes abriu a porta, Alton anunciou num tom glacial:
      - Espero-a na biblioteca, Karina.
      Nervosa, ela retirou o bonezinho e as luvas, entregando-as ao criado, antes de ajeitar os cabelos e seguir o marido. Encontrou-o de p, prximo  lareira, 
uma expresso implacvel no olhar.
      Com passos indecisos, entrou no ambiente, sem saber como comear a falar. E, para lhe aumentar o nervosismo, Droxford andava de um lado para outro, impaciente.
      Depois de alguns segundos de um silncio constrangedor ela disse vacilante:
      - Sinto muito se o deixei... nervoso.
      - Nervoso! E como voc esperava que eu me sentisse? O que tem na cabea para se exibir daquele jeito? Por acaso, pensou que eu no fosse me importar de ver 
minha esposa sendo o centro de atenes de todos os desocupados da cidade? Saiba que amanh voc ser comentada em anedotas por toda Londres. De onde tirou a idia 
de que uma dama de classe competiria com uma mulher vulgar como marquesa? E quem lhe deu autorizao para usar meus cavalos?
      - Imaginei que voc no fosse se incomodar.
      - Pois se enganou! No lhe dou o direito de dispor dos cavalo sem a minha permisso!
      - Mas eles venceram a corrida.
      - Uma corrida que nem deveria ter acontecido, diga-se de passagem.
      - Por qu? No h nada de mal nisso.
      - Deus, acho que preciso lhe explicar como se comportar bem! Jamais imaginei que algum pudesse me decepcionar tanto.
      - No fiz nada de grave.
      - No fez? Ento  agradvel para eu saber atravs de estranhos que minha esposa vai participar de uma competio sem sequer me comunicar? Pensa que  brincadeira 
se arriscar a ser chamado pelo rei e ouvir uma censura devido  sua atitude?
      - Oh, no  possvel!
      - Pois saiba que  a pura verdade. Se essas coisas eram comuns no tempo do ltimo rei, agora so consideradas censurveis. - Como ela no retrucasse, Alton 
a encarou com evidente desprezo antes de concluir: - Quando casou comigo, voc prometeu se comportar direitinho, mas hoje tive vergonha de ser seu marido. Vergonha! 
Nunca imaginei que a nova condessa de Droxford pudesse agir com tamanha inconseqncia.
      Apesar de sentir-se ferida e humilhada, Karina o desafiava com o olhar, resistindo s lgrimas que teimavam em lhe subir aos olhos, enquanto ele continuava 
a ofend-la.
      -  Voc me decepcionou, Karina!
      Estavam muito prximos, e Droxford levantou o brao para passear os dedos pelos cabelos, num gesto de desnimo, Assustada, Karina imaginou que ele ia lhe dar 
um tapa e ocultou o rosto entre as mos.
      Imediatamente, ele abaixou os braos, um misto de horror e incredulidade no rosto.
      - Meu Deus! Voc achou que eu seria capaz de lhe bater? 
      Como no obtivesse resposta, caminhou at a janela e se ps a contemplar a fonte do jardim, o arrependimento substituindo a raiva aos poucos. Afinal, Karina 
era muito jovem e, na certa, no resistira  tentao de mostrar sua habilidade e estilo durante uma corrida.
      Imerso nesses pensamentos, sobressaltou-se ao escutar uma voz trmula e chorosa, que o acusava:
      - Preferia que voc tivesse me batido... em vez de ter falado daquele jeito.
      Emocionado, ele demorou alguns segundos, como se escolhesse as palavras, antes de se virar lentamente.
      - Eu no queria, Karina.. 
       Interrompeu-se porque ningum o escutava! Karina se fora, deixando-o sozinho.
      
      Duas horas mais tarde, ao ouvir as batidas  porta do quarto, Karina levantou a cabea do travesseiro, perguntando, com a voz fraca .de tanto chorar: 
      - Quem ?
      - Desculpe-me, lady Droxford, mas sir Guy Merrick deseja saber se o acompanhar num passeio.
      - Diga-lhe que descerei daqui a pouco.
      Dez minutos depois, com um elegante vestido branco e um pequeno chapu envolto por vus, Karina correu apressada ao encontro do amigo, que a recebeu, todo 
sorridente. Em seguida Guy lhe estendeu a mo, ajudando-a a subir na charrete, que se dirigiu a uma parte afastada da cidade.
      Aps um breve silncio, ele observou:
      - Voc andou chorando...
      - Por que no me impediu de aceitar aquele desafio?
      - Que houve? Alton ficou bravo? Eu temi que isso fosse acontecer...
      - Ento, devia ter me prevenido.
      - Como? E para qu?  impossvel voltar atrs, depois de aceitar um desafio. Confesso que tive esperana de que ele no descobrisse nada.
      - Eu tambm. . . Mas algum contou para ele.. . Por que fui to estpida? S agora percebo o quanto agi errado, ao querer calar a boca daquela mulher convencida.
      Guy no respondeu, simplesmente guiou os cavalos at as margens do Serpentine, onde estacionou debaixo das rvores. Depois fitou-a nos olhos e perguntou, com 
seriedade:
      - Voc iria embora comigo, Karina?
      Sem conter o espanto, ela demorou alguns minutos at conseguir reagir. Por fim perguntou, incrdula:
      - O que est querendo dizer?
      - Voc ouviu muito bem! Eu a deixaria cavalgar o quanto quisesse e no a impediria de fazer nada do que lhe passasse pela cabea. Entende? Desde que eu possa 
ficar ao seu lado, o resto perde a importncia.
      - Como ousa me sugerir isso?
      - Por que tanta surpresa? Eu j disse que a amo! Tenho tratado voc com gentileza, pois temo assust-la, mas no posso suportar que voc viva infeliz... Deixe-me 
lev-la comigo, para lhe ensinar as delcias do amor. Eu a quero muito. S Deus sabe o quanto.
      - Mas isso no seria correto.
      - Por que essa preocupao, querida?
      - Eu nunca faria algo que mame desaprovasse.
      - No acredito que sua me gostasse de v-la infeliz. Eu a amo! Amo voc com loucura e passaria toda a minha vida tentando alegr-la e satisfaz-la.
      - No tente me convencer... Sabe muito bem que sou casada e, mesmo que fugssemos, Alton no me concederia a liberdade.
      - Isso no vem ao caso, querida. Ficaremos na Inglaterra. Ou ento podemos ir para o exterior, ou viver onde voc quiser; mas fique comigo! Alton no a merece.
      - Jamais seramos felizes juntos, Guy. Alm disso, fiz um trato com Alton. Ele tem cumprido a parte dele... e eu preciso corresponder com a minha! Por isso, 
eu no deveria ter participado da corrida no Regent's Park, onde todo mundo pde me ver!
      - Mas quem se importa com isso?
      - Alton, por exemplo.
      - Ele no merece uma mulher como voc. Se tivesse um marido que a amasse de verdade, voc no cometeria determinados erros.
      - Estou contente por voc ter pedido para que eu fugisse com voc, Guy... No entanto, preciso ficar a manter a minha parte no acordo.
      - Como posso convenc-la a mudar de idia? Eu a quero mais que tudo na vida, Karina. Voc no sente nada por mim?
      Depois de alguns instantes de hesitao, ela comeou:
      -  Talvez seja errado no entanto quero a sua amizade e gostei quando, num dos nossos passeios da semana passada, voc me falou de amor. Creio que o meu comportamento 
 imprprio, mas imagino que Alton nem se importaria se descobrisse as coisas que voc me diz.
      - Engana-se! Ele se ofenderia, porque a julga uma propriedade dele! Seu marido se sente como se fosse seu dono! Voc deixou de ser uma pessoa para se transformar 
em patrimnio dos Droxford!
      Ao perceber-lhe a amargura da voz e as feies endurecidas pelo dio, Karina perguntou:
      - Qual o motivo da inimizade de vocs?
      - Quer mesmo saber a verdade?
      - Claro!
      - Ento, venha. Vamos caminhar um pouco ao longo do rio. - Ajudou-a a descer e, depois de se afastarem alguns metros da charrete, comeou a contar num tom 
distante: - Alton e eu crescemos juntos. Nossas mes eram amigas ntimas e, como meu pai no dispunha de muitas rendas, eu passava a maior parte das frias em Droxford 
Park. Alm disso, fomos para o Colgio Eton na mesma poca e dividamos o mesmo quarto em Oxford. Ns nos tornamos inseparveis e compartilhvamos as alegrias e 
tristezas prprias dos adolescentes.
      Com o olhar perdido no horizonte, Guy permaneceu um longo tempo em silncio antes de retornar  narrativa, demonstrando um profundo abatimento:
      - Ns cavalgvamos juntos, cavamos... Na verdade, nos consideravam os melhores em todos os esportes... Pois bem, durante meu ltimo ano em Oxford conheci 
a prima de Alton, Cleone Ward, uma jovem de dezessete anos, de aparncia delicada e graciosa, to adorvel quanto voc. Para ser sincero, vocs duas se parecem, 
exceto nos olhos, os dela eram azuis...
      Percebendo a perturbao dele, Karina o interrompeu, num tom gentil:
      - No diga mais nada, se for doloroso.
      - No. Agora fao questo de lhe contar tudo.
      - Voc  quem sabe, Guy.
      Com um longo suspiro, ele prosseguiu:
      - Apesar do gnio explosivo de Cleone, fiquei completamente apaixonado...
      - Ela tambm o amava?
      - Acredito que sim. Eu jamais teria ido to longe se ela mesma no afirmasse que me queria.
      - Bom, e da? O que aconteceu?
      - Antes que a estada dela em Droxford Park completasse uma semana, eu seria capaz de dar minha vida por ela.
      Atenta, Karina prendeu a respirao. Inexplicavelmente sentia cime daquela mulher, que ainda conseguia despertar tanta emoo na voz do amigo.
      Depois de lhe afagar a mo, Guy acrescentou:
      -  bvio que seria intil me aproximar de lorde Ward, o pai dela, um nobre convencido que sequer ouviria algum que ocupasse uma posio inferior  dele. 
Alm disso, ele alimentava planos grandiosos para o futuro da famlia e, mais ou menos trs semanas depois de termos assumido a nossa paixo, Cleone me contou que 
o duque de Wye tinha recebido permisso para anunciar seu noivado com ela.
      - Isso significa que os pais dela simplesmente a avisaram de que ia se casar com o tal duque?
      - Exato! Nem se deram ao trabalho de lhe perguntar se aceitaria o duque... Enfim, Cleone ficou desesperada, pois detestava o futuro noivo, vinte anos mais 
velho, vivo e libertino...
      -O que vocs fizeram?
      - Combinamos fugir juntos para Gretna Green, onde nos casaramos. Se fssemos bem-sucedidos, nossas famlias no poderiam tornar a nos separar.
      - Que romntico!
      - Nem tanto... A nica dificuldade era que eu no possua dinheiro suficiente nem para a viagem, nem para a licena de casamento!
      - Meu Deus, que situao desesperadora!
      - Mesmo assim, no desistimos. Combinamos todos os detalhes e, no ltimo momento, pedimos dinheiro emprestado a Alton.
      - E ele? 
      - Ele nos ajudou, claro! Alton nunca me negou qualquer coisa e no fez perguntas. Mas como sempre fomos muito unidos, e eu o amava como a um irmo, contei 
o motivo do emprstimo. Depois de um breve silncio, Guy anunciou, com raiva:
      - Lorde Ward, informado pelo pai de Alton, nos capturou em Baldok! Cleone  foi  arrancada  dos  meus braos gritando, e eu espancado.
      - Oh, no! - gritou Karina, levando a mo  boca.
      - Passei uma semana at conseguir me mexer de novo. Quando cheguei em casa, mais morto do que vivo, descobri que o noivado dela havia sido anunciado na Gazette.
      - Que horror! Ento ela se casou com o duque? Mal contendo as lgrimas, ele explicou em voz baixa:
      - Ela morreu devido a uma queda de cavalo, um dia antes do casamento. Cleone havia sido sempre to alegre e cheia de vida, que parecia impossvel que algo 
de mal lhe acontecesse...
      - Foi um acidente?
      - Sem dvida, a famlia fez questo de afirmar isso, mas meus pais descobriram que ela estava grvida.
      - Sinto muito, Guy - ela murmurou, tocando-lhe o brao num gesto de amizade.
      - Eu no imaginava... Se eu pelo menos desconfiasse, iria ao encontro dela, nem que um batalho de soldados me barrasse o caminho. . . No entanto, as cartas 
que eu lhe enviava voltavam ainda lacradas. Alm disso, lorde Ward havia avisado que me espancaria caso eu insistisse em v-la.
      - O que voc fez depois da morte dela?
      - Quase enlouqueci e perdi toda a vontade de viver. Vim para Londres, onde joguei, bebi, convivi com todos os vcios e acabei contraindo muitas dvidas. O 
resultado foi minha me vender as jias e meu pai as terras, para arcarem com as minhas despesas. Na verdade eles sentiam vergonha de mim e quando meu pai morreu, 
alguns anos depois, a doena dele foi atribuda ao meu comportamento deplorvel!
      - E voc? Como se recuperou?
      - Eu estava a ponto de ser mandado para a priso de Fleet, quando o destino mudou tudo com um desses acasos que ningum espera.
      Um tio meu da Jamaica, de quem no recebamos notcias h anos morreu e deixou um milho de libras para mim!
      - Tarde demais!
      -  verdade! Se esse dinheiro tivesse chegado nas minhas mo tempos atrs, lorde Ward permitiria que eu me casasse com Cleone.
      - Perdoe-me se o fiz lembrar coisas to tristes.
      - No se preocupe... Agora entende por que Alton e eu nos odiamos? Talvez ele tenha agido certo, colocando sua fidelidade  famlia acima de nossa amizade, 
mas eu nunca o perdoarei, pois fui trado!
      - H algo que possa resolver isso?
      - No, no h. E, por ironia do destino, a nica mulher com quem desejei me unir depois de Cleone  esposa de Alton...
      - Isso  verdade? Entretanto, voc deve ter se apaixonado por outras mulheres...
      - Muitas me amaram, mas, como eu lhe disse, todo homem possui um ideal de mulher; voc  o meu. Percebi isso desde o primeiro momento em que a vi.
      - Voc no pensaria assim, se Cleone ainda vivesse.
      - Ser? Atualmente me pergunto se ela e eu realmente seramos felizes juntos. Cleone era teimosa, explosiva e, apesar de jovem, to dominadora quanto Alton.
      - Para ser sincera, acho voc e Alton muito semelhantes em vrios aspectos...
      - A diferena  que Alton est sempre certo, enquanto eu sou o errado, o degenerado. Ele ocupa um pedestal, e eu me arrasto num mar de lama!
      - Isso  mentira, Guy! Por que tenta aparentar uma maldade que no existe em voc?
      - Sinto desiludi-la, porm no me envergonho por ser considerado o vilo. Jamais desejei ser heri e, caso eu nutrisse qualquer sentimento nobre, no tentaria 
tir-la de seu marido!
      Desconcertada por essas palavras, Karina o encarou, examinando-lhe a expresso entre cnica e zombeteira.
      Definitivamente o amigo era uma pessoa estranha, capaz de oscilar de um extremo ao outro sem qualquer dificuldade. No entanto, ela sabia que, por trs da crueldade 
aparente, havia um homem sofrido, capaz de grandes aes.
      Quase instintivamente, sorriu com ternura e voltou a lhe tocar o brao com, amizade.
      Esse gesto, porm, pareceu acender uma chama desesperana nos olhos de Guy.
      - Ento, Karina, voc vem comigo?
      - No. Por favor, no crie uma situao embaraosa, Guy. . . Agora preciso voltar para casa.
      Nada convencido da recusa, ele levou sua mo aos lbios, beijando-a lentamente, ao mesmo tempo que, com os olhos, parecia querer decifrar seus verdadeiros 
sentimentos.
      Por fim, murmurou:
      - Est bem, vou lev-la para casa; mas vou ficar esperando Karina. Nunca se esquea disso, meu amor.
      
      CAPTULO VII
      
      Como fazia todos os anos, Droxford foi para Ascot assistir s corridas e se hospedou na casa de lorde Staverley. Estava atrasado e comeava a se vestir para 
o jantar quando se lembrou, irritado, de que no havia verificado a disposio de Karina para acompanh-lo. "Na certa ela vir sozinha", pensou, com uma pontinha 
de cime. Definitivamente, seu relacionamento com Karina se tornava a cada dia mais difcil, desde a violenta discusso sobre a corrida com a marquesa de Downshire. 
A partir de ento, ela passara a evit-lo ao mximo, sem lhe dar chances de se desculpar.
      Na verdade, ficavam juntos apenas quando Robert convidava alguns casais amigos para o jantar. Nessas ocasies, a esposa se mostrava encantadora, usando as 
jias da famlia com classe e elegncia e cativando a todos.
      Droxford tinha certeza de que os cumprimentos que recebia eram sinceros, embora seus amigos disfarassem mal a inveja que sentiam por ele ter tido a sorte 
de se casar com uma jovem to bonita.
      Entretanto nenhum deles seria capaz de imaginar o quanto Karina se esquivava de encontr-lo a ss, chegando mesmo a descer para o salo de recepes somente 
aps a entrada do primeiro convidado.
      "Ser que no a estou empurrando para alguma encrenca?", perguntou-se Droxford, sentindo-se culpado por sua omisso em relao  esposa.
      Mais tarde, ao descer para o salo, Droxford relanceou um olhar em torno, verificando que a maior parte dos presentes eram conhecidos, que habitualmente se 
hospedavam ali naquela poca do ano.
      Sem cerimnias ele se ps a andar pelo cmodo em busca do anfitrio, a quem no cumprimentara ainda. Nesse instante, porm, a conversa de dois homens, que 
bebericavam a um canto, lhe despertou a ateno:
      - Por falar em cavalos, os baios que Guy Merrick comprou so os melhores animais que j vi na vida - dizia um deles.
      - Concordo - respondeu o outro, assentindo com um gesto de cabea. - Eu me encontrei com Guy no centro de Londres e examinei os cavalos com cuidado. So simplesmente 
maravilhosos,
      O desconhecido fez uma pausa para ver se algum comentava alguma coisa e depois concluiu:
      - Se bem que, maravilhosa mesmo era a jovem que o acompanhava naquela manh.
      - Quem era?
      -  No descobri o nome dela, mas  uma criatura linda, com os olhos verdes mais sedutores do mundo! S mesmo Guy para conquistar uma mulher to graciosa como 
aquela!
      Durante o sbito silncio que caiu sobre a sala, alguns homens olharam significativamente na direo de Droxford, curiosos para descobrir sua reao diante 
da comentada amizade entre Karina e seu maior inimigo.
      Notando, a inteno deles, o conde apelou para todo seu autocontrole e manteve as feies impassveis, atravessando a sala com passos firmes. Em seguida se 
acomodou num confortvel sof, puxando assunto com um senhor de aspecto simptico:
      - Parece que o rei no pretendia prestigiar as corridas.
      - Pelo que sei, meu jovem, Sua Majestade abomina as competies e comentou com alguns membros do Jockey Club que vir apenas para no desagradar  rainha, 
uma amante da equitao!
      - De fato, ele no faz nada que possa desagrad-la.. .
      Os dois continuaram a conversar amenidades pelo resto da noite, e Droxford, apesar de irritado com as insinuaes que ouvira, mostrava-se bem-humorado e descontrado.
      Na tarde seguinte, antes do incio das provas, Droxford procurava achar Guy em meio  multido que passeava de um lado para outro no hipdromo de Ascot.
      De repente ficou furioso ante a possibilidade de que, no o encontrando ali, ele estivesse com Karina.
      Ao ouvir alguns gritos de alegria, porm, lembrou que o duque de Richmond, diretor do Jockey Club, lhe pedira para que recepcionasse o rei e a rainha. Adiantando-se 
alguns metros, avistou o grande cortejo real que chegava ao hipdromo.
      De acordo com o protocolo, o duque de Richmond ocuparia, com o rei, uma das carruagens, enquanto lorde Grey, o primeiro-ministro, iria em um dos coches.
      Quando a comitiva chegou ao camarote, Droxford teve a impresso de que a acolhida dada  famlia real fora inegavelmente mais fria do que as recepes calorosas 
que eram dispensadas ao antigo rei George IV.
      No entanto, o rei no dava mostras de perceber essa situao, pois parecia de excelente humor. Com o rosto corado, chapu cinza, casaca azul e cala branca, 
William IV distribua sorrisos para todos ao lado da rainha, como sempre elegante e cheia de jias.
      Acomodados no camarote real, o casal de monarcas, junto com alguns nobres, se divertia em observar a multido que desfilava pelo gramado, exibindo os trajes 
menos apropriados.
      A maioria das mulheres usava chapus de cetim ou gaze, indicados apenas para a noite, numa ridcula combinao com vestidos de mangas bufantes e corpete justo 
e apertado na cintura.
      Prximo a um dos estandes, Droxford chegou a ouvir uma mulher dizer ao marido, entre dentes:
      - Pegue a minha lista de corridas, querido. Se eu me abaixar, corro o risco de que o corpete estoure.
      Depois de uma breve conversa com a rainha, o conde se acomodou ao lado de William IV, a quem achava bem mais agradvel.
      O monarca, embora no apreciasse corridas, parecia satisfeito com todo o resto e se mostrou bastante otimista em relao ao futuro do pas, elogiando Alton 
por seus pronunciamentos inteligentes e sensatos. Aps alguns minutos, Sua Majestade lhe falou sobre o desejo de conhecer Droxford Park, famosa pelos tesouros artsticos, 
e terminou aceitando um convite de Alton para ir visit-lo.
      Entretido na conversa,o rei no tinha prestado ateno ao primeiro preo, e, no final, perguntou:
      - Quem ganhou?
      -O duque de Devonshire, Vossa Majestade, com March Hare - informou Droxford, solcito.
      - Fico contente. Considero-o uma excelente pessoa, alm de gentil e dedicado. - Em seguida, o monarca pegou a lista de corridas, comentando: - Alguns dos meus 
cavalos iro participar das provas!
      - Alis, um deles vai correr no prximo preo - o conde anunciou, enquanto examinava a relao a fim de confirmar a informao.
      - Vejo que sua mulher colocou ,um cavalo para competir com o seu, Droxford - o rei afirmou, os olhos fixos nas listagens. - Que coisa mais extravagante! Se 
um de vocs ganhar vai dividir o prmio com o outro?
      Incapaz de articular uma palavra, Droxford tornou a consultar o rol de participantes, sem acreditar no que lia:
      "Merlin, propriedade da condessa de Droxford, treinado por Nat Tyler e cavalgado por Tim Tyler."
      - Deve haver um engano...
      Felizmente um nobre se aproximou, salvando-o de precisar responder  pergunta do rei.
      - Vossa Majestade, gostaria de visitar o paddock?
      - Sim, sim,  claro! Venha, Droxford, quero verificar o estado de meu cavalo.
      Minutos depois, William IV descia ao gramado, sendo acompanhado por uma discreta comitiva e alguns policiais, encarregados de afastar os curiosos.
      Ao chegarem ao paddock reservado aos cavalos da largada seguinte, Droxford avistou Karina encostada em uma das grades.
      Por um momento, ele se recusou a acreditar nos prprios olhos, mas no havia como confundir aquele rosto delicado, realado por um chapu cor-de-rosa que fazia 
conjunto com o elegante vestido da mesma cor.
      Sentindo-se observada, ela levantou a cabea, admirando-se ao ver o marido. Porm, percebendo que o rei o acompanhava, ela no demonstrou seu espanto e caminhou 
na direo da comitiva com passos decididos.
      Assim que a viu, William IV perguntou:
      -  sua esposa, Droxford?
      - Sim. Permita-me que a apresente, majestade.
      - Claro que sim!
      Pouco depois, sem uma apresentao formal, ele tomou a mo de Karina entre as suas e a levou aos lbios, exclamando:
      - Encantado em conhec-la, lady Droxford! Fiquei bastante feliz com a notcia do casamento de Alton, mas no imaginei que sua esposa fosse to graciosa.
      -  muita gentileza sua, majestade - agradeceu Karina, curvando-se numa respeitosa reverncia.
      - No.  a verdade pura e simples... Bem, que acha de me mostrar o seu cavalo? Achei curiosa a atitude de desafiar seu marido num esporte em que ele  um mestre.
      Assustada, Karina observou as feies impassveis de Alton antes de responder:
      - Foi um lamentvel acidente, majestade. Quando fiz a inscrio, eu nem imaginava que um dos cavalos de Alton estivesse nesse preo.
      -Em todo caso, espero que meu cavalo vena tanto o da senhora quanto o de Droxford! Acha que isso ser possvel?
      Apesar de hesitar por um instante, Karina resolveu ser sincera.
      - No, no creio nisso, majestade.
      - Ah... E por qu?
      - Tenho a impresso de que o seu animal no est em boas condies.
      - No?! E o que a faz pensar assim?
      Percebendo que cometera uma gafe, Karina tentou se esquivar de uma resposta direta.
      - Foi s um pressentimento sem importncia... Por favor, no me leve a srio.
      - Mesmo assim, desejo dar uma olhada nele.
      Logo eles estavam em um compartimento franqueado apenas aos Proprietrios dos cavalos e jqueis, no qual os animais se mexiam quietos nas baias. Aps verificar 
a lista, Droxford saiu em busca compartimento reservado ao animal de Karina.
      Assim que o viu, porm, no pde conter o riso, contemplando com piedade o cavalo ossudo e de pescoo largo, cuja aparncia nem de longe sugeria um vencedor.
      O pattico da cena o fez desistir de qualquer discusso com a esposa, embora ficasse surpreso por ela ter adquirido um animal que, alm de feio, no parecia 
ser de raa.
      Discretamente, enquanto respondia ao rei, Karina lanava olhares preocupados em direo ao marido, tentando adivinhar, pela expresso de Alton, se ele se zangara 
com sua atitude.
      Percebendo-lhe a apreenso, o conde sorriu consigo mesmo, decidido a lhe preparar uma surpresa; no ficaria bravo, e ainda a ajudaria a montar um estbulo 
para cavalos de corrida, ordenando ao treinador que lhe desse alguns cavalos decentes, no iguais quele que parecia incapaz de cavalgar cem metros. Na certa, Karina 
o comprara com suas economias...
      Mais uma vez ele sentiu-se culpado por no t-la convidado a vir junto para Ascot. Talvez at a tivesse convencido a no se inscrever nas corridas, poupando-a 
de uma derrota.
      De repente, a voz de William IV, parado ao seu lado, trouxe-o de volta  realidade:
      - Onde est o meu cavalo?
      - No compartimento real, majestade.
      Toda a comitiva seguiu para l, e Droxford examinou criticamente o animal. De fato, sua aparncia no estava nada boa. Ser que Karina acertara em suas previses? 
Bem, ainda que isso acontecesse, era imperdovel a petulncia dela por dizer isso ao rei.
      Nesse instante, o som de um sino anunciou aos jqueis que era hora de montarem.
      Pedindo licena ao rei, o conde se afastou em busca do treinador de Droxford Park. Pouco adiante, Karina conversava animada com o rapaz que guiaria Merlin.
      Dessa vez, o conde quase teve um ataque do corao. Onde Karina estava com a cabea ao contratar aquele garoto mal sado das fralda e, aparentemente, pouco 
experiente?
      - No espervamos que a condessa colocasse um cavalo para competir com o nosso - o treinador comentou, se aproximando de Alton.
      
      - Ora,  evidente que no precisamos tem-lo.
      - Assim espero... De vez em quando, esses cavalos irlandeses surpreendem a todos.
      - Irlands?
      - Sim. E Nat Tyler, o treinador da condessa...
      O homem se interrompeu ao ver William IV se aproximando na companhia de Karina.
      - A corrida j vai comear, e eu gostaria de voltar ao camarote.
      -  claro, majestade.
      - Vem conosco, lady Droxford?
      - Obrigada, majestade. Ficarei honrada em acompanh-lo.
      - Ento, no pode me recusar um favor; me indique o animal em que devo apostar. Detesto perder dinheiro... Todos andam dizendo que o meu cavalo vai ganhar 
a corrida. O que acha?
      - Apesar de ele ser o favorito, majestade, creio que isso se deve apenas ao desejo geral de lhe agradar, de lhe proporcionar boas recordaes deste dia.
      - Entendo... No entanto, como todos esto apostando no meu cavalo, farei o mesmo.
      - Por que no arrisca alguma coisa em Merlin?
      - Qual  a cotao das apostas?
      - Dez para um em relao a Merlin, majestade.
      - Dez para um? Caso ele ganhe a prova, receberemos bastante dinheiro...
      Observando a conversa, Droxford engoliu em seco, tentando arranjar uma frmula para impedir a esposa de agir com tamanha inconseqncia. Pedir ao rei, que 
no entendia nada de cavalos, para apostar naquele pangar era demais!
      Como conhecia o monarca h longa data, o conde sabia o quanto ele ficaria furioso se Merlin no ganhasse. Entretanto, quando o conde fez meno de intervir, 
impedindo William IV de cometer aquela loucura, Sua Majestade j havia chamado lorde Howe, o tesoureiro, e lhe ordenara que apostasse no cavalo de Karina.
      Desanimado, o conde se limitou a acompanhar a esposa e o monarca de volta ao camarote real.
      L chegando, Karina foi apresentada  rainha, que simpatizou de imediato com a jovem condessa e convidou, num tom gentil:
      - Hoje  noite, oferecerei um jantar  minha irm, duquesa de Saxe-Weimar, que est passando uma temporada no Castelo de Windsor, e espero contar com a sua 
presena e a do conde de Droxford.
      - Ficaramos muito honrados, majestade.
      Enquanto falava, Karina olhou de maneira suplicante para o marido, que imediatamente entendeu o problema; ela no trouxera trajes apropriados!
      Resolvendo mandar um criado a Droxford House a fim de buscar um vestido de noite e jias, ele lhe sorriu de modo tranqilizador.
      A troca de olhares e risos no passou despercebida  soberana, provocando-lhe um comentrio entusiasmado!
      - Vejo que vocs so felizes! Meus parabns, lady Droxford. Espero que continuem sempre assim.
      - Muito obrigada, majestade.
      De repente, um grito ecoou no ar, interrompendo as conversas e forando a platia a se concentrar na pista.
      - Foi dada a largada!
      Um tiro quebrou o silncio, marcando o incio da competio.
      Sem se dar conta do que fazia, Karina correu para a frente do camarote real, os dedos crispados de tenso e os olhos com uma expresso ansiosa.
      Preocupado, Droxford a observava, recordando a frustrao que tinha sentido quando seu primeiro cavalo participara de uma corrida e perdera.
      Numa sbita resoluo, postou-se ao lado dela, disposto a consol-la e amenizar sua tristeza.
      - Espero que tenha sorte, Karina. - falou, com convico.
      - Obrigada - ela murmurou, sem tirar os olhos da pista. 
      - Procure no se entristecer se Merlin perder. Da prxima vez eu a ajudarei a arrumar um bom animal. Muita gente me considera um exmio conhecedor de cavalos...
      - Sim, eu sei, Alton. Acredito que o seu cavalo v ficar entra os trs primeiros colocados.
      - Obrigado. Apesar de todos terem apostado no cavalo do rei, o meu Dragonfly agora  o favorito.
      - Mas ele no chegar em primeiro...
      Mais uma vez ele lhe dirigiu um sorriso complacente, imaginando que talvez fosse melhor prepar-la para a derrota. Assim, pelo menos, o choque seria menor.
      - Voc realmente acha que Merlin vai vencer a prova?
      - Claro!
      Droxford meneou a cabea e ajustou o binculo.
      Os cavalos acabavam de fazer a curva e a disputa estava acirrada, de modo que nem os dois primeiros tinham uma boa distncia assegurada. De sbito, um deles 
comeou a mancar, diminuiu o galope e abandonou o preo.
      - Meu Deus,  o cavalo do rei! Deve estar com algum problema! - exclamou Droxford, consternado.
      - Eu avisei que ele no se encontrava em boas condies.
      - Ento por que diabos deixaram que ele concorresse?
      - Como? - perguntou William IV, do outro extremo. - Meu cavalo saiu da corrida? No posso acreditar! O que houve?
      -  verdade, senhor - confirmou o duque de Richmond. - Estamos muito tristes, pois tnhamos certeza de que o seu cavalo seria o campeo.
      Absorta em medir os progressos de Merlin, Karina no ouvia nada.
      Galopando com garra e estilo, o puro-sangue irlands ultrapassou o cavalo de lorde Derby e, ganhando a dianteira, o do duque de Richmond, ficando emparelhado 
com Dragonfly.
      Em seguida avanou uma cabea  frente.
      No havia mais dvidas; Merlin, guiado pelo desconhecido Jim Tyler, estava na frente de todos, quase na reta final.
      Entusiasmada, a multido comeou a gritar. Merlin vinha na frente, enquanto Dragonfly tentava alcan-lo a qualquer custo. Finalmente, Merlin chegou sozinho 
 reta final; era o vencedor!
      - Meu Deus! - exclamou Droxford, sem acreditar no que via.
      - Eu disse que ele ia ganhar! Venha, vamos at l!
      De maneira impetuosa, Karina abandonou o camarote real sem sequer pedir licena. Droxford, desculpando-se, seguiu-a apressado por entre a multido que se aglomerava 
para aplaudir o campeo da corrida.
      No momento em que Merlin cruzava a cancela da baia, guiado pelo treinador, Nat Tyler, ela correu em sua direo, gritando:
      - Conseguimos Nat!
      - Sim, condessa, ns conseguimos!
      Em poucos minutos uma verdadeira confuso se havia estabelecido, pois todos queriam cumprimentar o jquei Jim Tyler, filho de Nat, e examinar de perto o cavalo.
      - Onde voc o comprou? - perguntou-lhe Droxford, curioso. Sobressaltando-se com a repentina apario do marido, ela explicou:
      - Na Feira de Barnet Horse. Assim que o vi, percebi o quanto ele era incrvel, no foi, Nat?
      -  verdade, condessa.
      - Meus parabns - disse Droxford, apertando a mo do treinador.
      - Obrigado, espero que no fique bravo por termos vencido Dragonfly.
      - De maneira alguma! Ele acabou se classificando em segundo lugar e eu j esperava por isso.
      - Alis, acertei quando disse que Dragonfly ficaria entre os trs primeiros colocados, no  mesmo? - perguntou Karina, sorrindo,
      - Certo! No me esquecerei disso. E, na prxima competio, pedirei sua avaliao com antecedncia.
      Os dois riram, divertidos, sem sequer desconfiar de que estavam sendo atentamente observados.
      Um pouco afastado, uma expresso maldosa no rosto, lorde Wyman no passou despercebido a uma elegante mulher que tambm se ocupava em contemplar, no s a 
condessa de Droxford, mas principalmente seu marido.
      Depois de um momento, lorde Wyman sentiu que algum o fitava e se virou lentamente, encontrando os olhos da bela mulher.
      - Acho que j nos conhecemos...  Claro, mas  a sra. Felicite Corwin, no  mesmo? Eu a vi em companhia do conde Droxford.
      - E o senhor, salvo engano,  o terrvel lorde Wyman, correto? Em resposta, ele se curvou e beijou a mo enluvada de Felicite, que retribuiu com um sorriso 
malicioso.
      - Tenho uma idia que preciso discutir com a senhora. Que acha de termos uma conversa?
      -  sua disposio.
      Sem pensar duas vezes, ele lhe deu o brao, conduzindo-a para longe da multido.
      Assim que Jim Tyler foi levado para receber o prmio, Droxford sugeriu  esposa:
      - Vamos voltar ao camarote real? Voc saiu de l sem pedir licena a ningum!
      -  mesmo. Eu devia ter pedido licena antes de me retirar, no?
      - Pelo menos, seria mais educado.
      - Ento, pedirei desculpas a todos, agora.
      - A propsito, voc veio sozinha para Ascot, Karina?
      - No. Harriet Courtney e o marido me trouxeram. Ela ficou em um dos camarotes, pois a sogra no deseja v-la andando de um lado para o outro e o major Courtney, 
depois de me acompanhar ao paddock, foi dar uma volta na tentativa de se acalmar. Ele estava muito tenso, porque tem um cavalo inscrito no prximo preo.
      - Sinto-me mais tranqilo ao saber que voc teve juzo e no veio desacompanhada.
      - No me provoque! Sabe muito bem que eu teria vindo nem que fosse a p. No perderia esta corrida por nada do mundo. - Em seguida, ela se virou para o treinador, 
acrescentando: - At logo, Nat, e muito obrigada. Veja se consegue me mostrar os cavalos de que me falou. Creio que vou compr-los.
      - Farei isso, condessa. Mas duvido que algum seja melhor do que Merlin!
      - Sei disso! Nenhum outro poderia ser to bom!
      Aps um ltimo carinho no pescoo do animal, ela e Droxford seguiram em direo ao camarote real.
      - E ento? Muito feliz, Karina?
      - Oh, demais! Tenho vontade de comprar uma poro de cavalos para treinar. Mal consigo acreditar que Merlin tenha ganhado a prova!
      - E quanto voc vai lucrar com isso? Espero que tenha escolhido um bom banqueiro. . .
      - Fique tranqilo! Perguntei antes a Robert com quem voc fazia as apostas.
      - Ah, timo! Voc apostou em que proporo?
      - Dez para um. Avaliei que seria melhor arriscar somente em Merlin, j que ele no era um dos favoritos.
      - Dez para um! E quanto voc apostou?
      Karina ia comear a falar, mas de repente o encarou com uma expresso ansiosa no olhar.
      - Eu juro que me esqueci! Juro, Alton! Agi mal, mas voc precisa acreditar que foi por puro esquecimento!
      - Do que voc est falando, afinal?
      - Da promessa que lhe diz de nunca arriscar muito dinheiro em jogos e apostas! Sabe, assim que vi Merlin galopando h dois dias, pressenti que poderia apostar 
qualquer quantia nele. . . alm disso, eu estava com vontade de conseguir dinheiro para comprar os cavalos que Nat me indicou. Por isso, sem querer, quebrei a promessa; 
voc acredita?
      O tom da sua voz e a expresso apreensiva do rosto delicado no deixavam dvidas quanto  sinceridade daquelas palavras, e Alton sorriu, antes de responder:
      - Lgico que acredito. Mas afinal quanto voc apostou? 
      Encabulada, Karina desviou os olhos, murmurando:
      - Mil libras!
      - Tudo isso? Quer dizer que voc vai receber dez mil libras das apostas?
      - ... exato!
      O conde fez meno de dizer alguma coisa, mas se conteve pois j estavam diante do camarote real e William IV se levantava para receb-los, afirmando:
      - Sou grato, lady Droxford, por ter me ajudado a ganhar uma pequena fortuna! Dez por um, sem dvida,  um bom prmio. Decididamente vou esperar pelos seus 
palpites para as prximas corridas.  evidente que, perto de seus conhecimentos sobre equitao, o duque de Richmond ou mesmo seu marido deixam bastante a desejar.
      - Sinto-me lisonjeada, majestade - agradeceu Karina, com uma profunda reverncia. - Porm, no gosto de abusar da sorte.
      - De maneira alguma aceitarei a sua recusa. Fao questo de que me acompanhe ao paddock e me d sua opinio a respeito do vencedor do primeiro prmio para 
o prximo preo.
      Assim, Karina passou o resto da tarde no camarote real, conversando sobre diferentes assuntos e encantando a todos com sua esprituosidade. Ao final da prova, 
William IV reforou o convite para o jantar.
      - Ento a encontrarei esta noite no palcio, lady Droxford.
      - Ficarei muito honrada, majestade. 
      Pouco depois, a ss com Droxford, ela o encarou temerosa de que o marido retomasse a conversa que fora interrompida. Confirmando suas suspeitas, ele perguntou:
      - Onde voc conseguiu as mil libras?
      - Sir Guy se ofereceu para emprest-lo...
      - E como o pagaria, se Merlin perdesse?
      - Ele me garantiu que esperaria o tempo que fosse necessrio. Mas eu tinha certeza de que venceria a prova!
      - Ningum pode ter certeza.. .
      Para sorte de Karina, o capito Farrington se aproximou, cumprimentando Alton com um tapinha nas costas.
      - Parabns para vocs dois, fiquei bastante feliz ao ver seu cavalo ganhar aquele preo, Karina! - Ele se curvou, beijando-lhe a mo, antes de continuar: - 
Merlin  um grande animal! Que galope elegante! Onde voc o achou?
      - Na Feira de Barnet Horse. Eu estava passando por ali quando o vi num canto da cocheira, junto com Nat Tyler. O treinador, coitado, parecia prestes a chorar.
      - Como sabe disso? - perguntou Droxford, espantado.
      - Ora, intuio. Ele acariciava o cavalo, e a expresso desolada de seu rosto denunciava o quanto ele amava Merlin. No momento em que comeamos a conversar, 
percebi como o entristecia a perspectiva de se separar do cavalo.
      - Tyler? No  nome de um treinador famoso? - interrompeu o capito.
      - Voc est se referindo ao pai de Nat, que foi treinador dos cavalos do rei George, antes de ele ser coroado.
      - E o que aconteceu com ele?
      - Quando ele ficou velho, abandonou a profisso de treinador e comeou a apostar em corridas at perder tudo o que tinha. Ento Nat, que havia trabalhado com 
o pai, tentou seguir a mesma profisso, mas, no foi bem-sucedido. - Karina suspirou profundamente, antes de continuar: - Um dos homens para quem Nat trabalhava 
morreu, o outro acabou falindo e finalmente ele se viu sozinho e sem nada alm do filho e de Merlin. Sua situao econmica era to ruim que ele nem podia comprar 
feno para o cavalo. Por isso, estava desesperado e sem perspectivas de vender o animal.
      - Para falar a verdade, fiquei surpreso por voc t-lo comprado - comentou Droxford, sorrindo.
      - Eu j conhecia os cavalos irlandeses e no me espantei com a aparncia feia dele. S depois de v-lo galopar  que a gente percebe o quanto ele  bom!
      - Eu jamais notaria isso somente com um olhar.
      - Mas eu, sim! E assim que o vi perguntei a Nat qual era o preo. Ele me disse que queria cento e cinqenta guinus, embora concordasse em vend-lo por noventa.
      - E o que voc fez? - indagou Droxford, curioso.
      - Propus duzentos guinus, s que com uma condio.
      - Qual? - quis saber Farrington.
      - Que ele e o seu filho, Jim, continuassem cuidando do cavalo.
      No mesmo instante, os dois homens se entreolharam e comearam a rir, divertidos.
      - O que h de to engraado? - protestou Karina, fitando-os alternadamente.
      - Toda essa situao, Karina! - o capito explicou, com um amplo gesto de mos. - Aqui esto reunidos os melhores cavalos e cavaleiros de toda a Inglaterra. 
De repente, chega voc com um cavalo feio mais dois treinadores desconhecidos e ganha a corrida! Isso  incrvel!
      -  Freddie tem razo, Karina. S algum como voc para conseguir isso!
      -  Ora, por qu?
      -  Digamos que voc parea uma fada de histrias infantis. Na certa, sua varinha de condo foi a responsvel por um cavalo to bom! - Em seguida, o conde mudou 
de assunto, sugerindo: - Acho melhor procurarmos lady Harriet e avis-la de que voc voltar comigo para Londres.
      - Eu os acompanharei, pois ainda no cumprimentei minha irm. A propsito, Alton, voc se hospedou na casa de Staverley?
      - Como de costume. Todos os anos eu fao isso.
      - timo! Ento jantaremos juntos...
      - Impossvel. Eu e Karina vamos jantar com o rei.
      - Alis, onde poderei me trocar?
      - Na casa de lorde Staverley mesmo. Precisamos sair de l s por volta das seis e quinze.
      - Mal posso acreditar que tudo isso seja verdade! Primeiro ganho a corrida, depois vou ao Castelo de Windsor a convite do rei!
      - Sinto desanim-la, mas creio que o jantar vai ser cansativo e desagradvel - comentou Farrington, piscando maliciosamente para o conde.
      - No tente me aborrecer, Freddie!
      Apesar do apelo, o capito continuou a provoc-la durante todo o trajeto at a manso de lorde Staverley.
      Um pouco mais tarde, Droxford aguardava ansioso que a esposa terminasse a toalete, na esperana de prosseguir a conversa que fora interrompida com a chegada 
de Frederick Farrington, quando lorde Lindhurst, outro hspede de lorde Staverley, se aproximou dizendo que tambm havia sido convidado para o jantar real e pedindo 
para acompanh-los na mesma carruagem. Ainda que a contragosto, o conde concordou e seguiram os trs juntos para o Castelo de Windsor. Assim que estacionaram diante 
do palcio real, Karina exclamou, com um sorriso de felicidade:
      - Estou me sentindo radiante!
      - Com toda a razo, lady Droxford. Jamais vi algum to radiante - comentou lorde Lindhurst, com delicadeza.
      Na cabea, uma tiara de diamantes fazia conjunto com o par de brincos e o colar, dando-lhe um aspecto quase celestial.
      Embora a maioria dos convidados tivesse chegado por volta das sete horas, o jantar s foi servido s oito no luxuoso salo, onde os criados circulavam carregando 
pesadas travessas de ouro, repletas de iguarias. Havia mais de quarenta pessoas sentadas  mesa elegante, mas nem todas pareciam satisfeitas com a refeio. Entre 
elas, Karina, que no pde evitar a idia de que seu cozinheiro em Londres era bem melhor do que o do palcio.
      Alm disso, o ambiente estava abafado, e as pessoas se comportavam de maneira muito formal, se limitando a tecer elogios ao casal de monarcas. Felizmente ela 
fora acomodada ao lado do primeiro-ministro, com quem discutiu alguns aspectos da Reforma Bill, visto que ele era seu principal defensor.
      Ao final da refeio, todos se dirigiram  sala de visitas para tomar caf ou licores e se deleitarem com a melodia suave executada por uma pequena orquestra.
      De sbito William IV se mostrou cansado de permanecer sentado e, levantando-se, avisou:
      - Vou apresentar alguns aposentos do castelo para as damas!
      Sem esperar resposta, ele ofereceu o brao direito  marquesa de Tavistock e o esquerdo a Karina, conduzindo-as para fora da sala.
      Como por encanto, surgiram dezenas de criadas elegantemente uniformizadas e portando candelabros de prata, que os seguiram, iluminando as preciosidades do 
palcio.
      
      No caminho de volta a Londres, Droxford finalmente decidiu retomar o assunto do final da corrida, mas ao notar a apreenso de Karina decidiu ser sutil, esperando 
que ela lhe desse as explicaes de livre e espontnea vontade.
      - Apreciou o jantar, Karina?
      - Nem consigo dizer o quanto. Achei impressionante os tesouros do palcio.
      - Do que voc mais gostou?
      - Ah,,.de tudo. . tudo to suntuoso...
      - O rei simpatizou com voc. Alis, ele sempre teve uma queda por mulheres, bonitas!
      - Voc tambm me considera bonita? - Como Droxford no respondesse imediatamente, ela o encarou, tentando desvendar a expresso dos seus olhos, sob a luz da 
lanterna que iluminava o interior da carruagem. Mas s conseguiu lhe observar as feies srias e preocupadas. Ento, sem hesitar, ela declarou, em voz baixa: -- 
Obrigada por no se zangar comigo por causa de Merlin. Tive medo de que voc ficasse furioso!
      - Por que voc no me contou nada?
      - Achei que me proibiria de participar das corridas e eu no queria desapontar Nat.
      - Ora, quer dizer que os sentimentos do seu treinador so mais importantes do que os do seu marido?
      - No foi isso que eu falei. 
      Ignorando o comentrio, o conde continuou:
      - Quanto a Merlin, eu nunca imaginaria que fosse um bom animal at v-lo correr, pelo menos. Portanto, preciso cumpriment-la por sua capacidade de julgamento.
      - No brinque comigo. Dei sorte apenas... Bem, j que estamos conversando a respeito, voc se importaria se eu comprasse mais alguns cavalos?
      - Se isso lhe der prazer, pode montar um estbulo, Karina; mas quero que me prometa uma coisa.
      - O qu?
      - Peo que nunca mais veja Guy.
      - Por qu? O que aconteceu?
      - Tenho sido tolerante com essa amizade, mas j esto falando de voc e eu no quero que isso acontea. Assim, voc precisa me dar a sua palavra de honra de 
que no tornar a encontrar aquele homem.
      - Acho que tenho o direito de...
      - No recomece com essa ladainha, Karina. Peo que me prometa no voltar a ver Guy.
      - E se eu no prometer...
      - Nesse caso, serei forado a obrig-la a me obedecer.
      - De que maneira?
      - Ainda no pensei nisso, mas seria fcil faz-la me obedecer. Entre outras coisas, posso arrumar uma dama de companhia que cuide de voc quando eu no estiver 
por perto, por exemplo.
      - Dama de companhia! Voc quer dizer uma espi, isso sim! Uma pessoa que lhe contaria cada passo meu! Como pode me ameaar assim?
      - Outra soluo seria eu mand-la para Droxford Park. Duvido que achasse aquele lugar solitrio, se estivesse esperando. . . um beb!
      - Que absurdo! Como ousa.. .
      - Guy fez amor com voc?
      - O que pretende insinuar com isso?
      - No se faa de inocente. Eu conheo os mtodos dele! Ele a beijou?
      - No! Claro que no!
      Permaneceram em silncio durante alguns momentos at que Droxford tornou a falar, agora com um tom diferente de voz:
      - No quero brigar com voc, Karina. Faa o que lhe pedi e prometo que serei gentil e generoso. Essa sua amizade com Guy me desagrada muito! Prometa que no 
tornar a v-lo e passarei a ser mais atencioso com voc.
      Envolvida pela nota de carinho que o conde deu s palavras, Karina sentiu-se incapaz de recusar.
      - Est bem, eu prometo. Antes, porm, quero encontr-lo para lhe dar uma explicao. Afinal, sir Guy tem sido bom para mim e no quero que ele interprete mal 
o meu afastamento.
      - Tudo bem! Encontre-se com ele para lhe dar as explicaes, mas no em um lugar pblico. No suporto que insinuem coisas a seu respeito.
      - Obrigada...
      Comovido, Droxford colocou a mo direita sobre a dela.
      - Vamos pr um ponto final nesses mal-entendidos estpidos. No quero agir igual a um tirano, Karina, e muito menos amedront-la. Prometo ser gentil daqui 
para a frente.
      - Est certo.
      - Agora me conte uma coisa; como aprendeu a guiar to bem um coche? Fiquei impressionado com a sua habilidade em Regent's Park, durante a competio com a 
marquesa.
      Meio relutante, Karina desviou o olhar e comeou:
      - Talvez voc fique chocado, mas quando papai me deixou sem dinheiro, fui trabalhar num estbulo. . .
      - Num estbulo?!
      - No pense que fiz algum trabalho indigno, longe disso! Eu apenas cuidava dos animais e os treinava. Alguns deles eram completamente selvagens!
      - Selvagens? Ser que voc  perita em me surpreender? Esconde-se em rvores, vence uma corrida e me conta que trabalhou num estbulo, treinando cavalos selvagens!
      Droxford comeou a rir, divertido, descontraindo o ambiente, e logo Karina o acompanhou nesse gesto.
      
      CAPTULO VIII
      
      Encantadora naquele vestido de musseline estampada, enfeitado com fitas que combinavam com o babado leve em volta do decote, Karina entrou no escritrio com 
uma carta na mo. Robert Wade se levantou da escrivaninha, assim que a viu.
      - Bom dia, Karina.
      - Bom dia, Robert.
      - Quero lhe dar os parabns pela vitria em Ascot. Deve ter sido emocionante!
      - Ah, me deixou felicssima! E, para completar, Alton prometeu montar um estbulo para mim. Terei trs cavalos em treinamento no ms que vem e espero estar 
com meia dzia antes do fim do ano!
      - Oxal no se decepcione ao descobrir o quanto a criao de cavalos  um passatempo caro.
      - Sair de graa, desde que eu continue vencendo!
      - Se otimismo contar pontos, pode se considerar a campe! Francamente nunca vi algum to confiante. Eu lamentei no ter ido ao hipdromo, por isso no vejo 
a hora de receber o The Times!
      - Por qu? No entendi.
      - Eles publicaro uma reportagem sobre as provas, dando todos os detalhes do seu triunfo.
      - Ah, ? Que maravilha! Alton nem me contou a respeito. Mas tambm pudera! Quando acordei ele j tinha sado.
      - Parece que ele se levantou antes das oito, segundo um recado que encontrei aqui em minha mesa. Alis,  incrvel como a Reforma Bill tem contribudo para 
mudar os hbitos dos homens pblicos deste pas. Atualmente, toda a nobreza tem madrugado e, mal tomam o caf da manh, j esto comeando as discusses.
      - Oh, Robert, eu precisava tanto ter me encontrado com ele!
      - O conde estar de volta no final da tarde. E, pelo que me consta, no tem qualquer outro compromisso marcado em sua agenda para depois desse horrio.
      - Era justamente sobre isso que eu queria falar com ele. Acabo de receber uma carta de lady Courtney, nos convidando para uma festinha hoje  noite,  qual 
no tenho a menor vontade de comparecer, pois planejava jantar a ss com Alton aqui em casa. Harriet levantou a possibilidade de ele estar ocupado e, nesse caso, 
mandar seu irmo vir me buscar. Foi muita gentileza dela pensar nisso, mas eu realmente prefiro no ir.
      -  Tenho a impresso de que Alton tambm no estar interessado nessa reunio, uma vez que vem cansado dos debates. Assim, sugiro que voc escreva para a sra. 
Courtney recusando o convite, e eu me encarrego de enviar a mensagem.
      -  o que vou fazer, inclusive voc nem precisa se incomodar, porque o mensageiro que trouxe a carta est esperando a resposta. Posso usar sua escrivaninha?
      - Claro.
      Prestativo, Robert puxou a cadeira para que ela pudesse sentar-se, estendendo-lhe a seguir um bloco de papel de carta, tinteiro e a pena branca que normalmente 
usava.
      Karina escreveu algumas linhas, deixou a tinta secar e selou o bilhete com um lacre. Enquanto o endereava, o secretrio do marido tocou a campainha chamando 
um criado, que se encarregou de levar a carta para o mensageiro.
      - Sabe, Robert, esta noite quero usar um vestido novo e gostaria que voc me ajudasse a escolher as jias que combinem melhor. Pretendo deixar Alton impressionado.
      - Por falar nisso, preciso dar os parabns a Yvette pelo lindo vestido que voc est usando agora.
      - E eu devo agradecer por voc t-la indicado a mim. Ela  sensacional! Estou muito satisfeita.
      - Imagino que ela deva estar muito mais. Fiquei sabendo que na filas na loja dela; muitas mulheres procuram encomendar modelos iguais aos seus.
      - Ah, agora entendo por que de vez em quando me perguntam onde fao compras. Em compensao, no me agrada nem um pouco a idia de ver meus vestidos copiados 
a torto e a direito. No que eu queira ser diferente, mas no  nada confortvel parecer que todo  mundo est fardado.
      - Quanto a isso, Karina, pode ficar sossegada, pois por mais idntica que seja a roupa, nenhuma dama de nossa sociedade seria capa de imit-la em pose e elegncia. 
Voc sempre ir se destacar como mais bela de todas.
      - Meu Deus, eu nunca suspeitei de que voc fosse to galanteador! Fico admirada que continue solteiro. Por que ser?
      - At hoje s tive paixes passageiras. Nunca encontrei algum por quem eu me sentisse tentado a conviver pelo resto da vida.
      Interessada pelo rumo que a conversa tomava Karina sentou-se no brao de uma das poltronas de couro.
      - Tenho quase certeza de que voc daria um excelente marido!  gentil, inteligente e compreensivo; trs qualidades difceis de ser encontradas juntas e que 
tornam um homem muito agradvel.
      - Mas essas caractersticas no afloram seno quando a gente sente algo em comum com outra pessoa. Caso contrrio, no fazemos a menor questo de parecer exatamente 
o inverso.
      - Hum, curiosa a sua opinio! Qual  o seu tipo preferido de mulher?
      - A esposa dos meus sonhos teria que ser tranqila, ficaria feliz em passar a noite sentada ao meu lado, na frente da lareira, lendo um livro. E que ela tambm 
no quisesse comparecer a todos os bailes e festas para os quais fssemos convidados. Em outras palavras, meu ideal  uma mulher tmida! Infelizmente, parece que 
hoje em dia no existem mais mulheres assim...
      - Desconfio de que conheo a pessoa que formaria um par perfeito com voc. Essa minha amiga, alm de muito bonita, possui uma inteligncia privilegiada, um 
senso de humor maravilhoso e  recatada ao extremo, Ela adora ler e, embora goste de festas, prefere mil vezes ficar em casa, desfrutando de uma boa conversa.
      - Ser que voc no est exagerando?
      - Nem um pouco! Vou convidar Elizabeth para passar uns dias comigo e quando conhec-la, voc se convencer de que ela  a pessoa por quem tem procurado durante 
toda a sua vida.                          |
      - De uma coisa voc j me convenceu: toda mulher casada adora bancar o cupido.
      - Lembra as palavras da rainha, Robert? Pois eu penso do mesmo jeito; quando se est feliz, queremos que todas as outras pessoas tambm estejam!
      - E voc  feliz, Karina?
      Ela hesitou por alguns instantes e depois disse, abaixando os olhos:
      - Tenho tudo que sempre desejei. Sou muito mais feliz do que j fui em toda a minha vida.
      - Fico contente por voc.
      Depois de um breve silncio, Karina resolveu mudar de assunto:
      - Acho que estou fazendo voc perder tempo. Ajude-me a escolher as jias para hoje  noite e deixarei que continue trabalhando em paz. O vestido que pretendo 
usar, um dos mais bonitos que Yvette j desenhou,  de gaze verde sobre forro prateado e tem bordados de pedras semipreciosas que brilham conforme eu ando.
      - Creio que as jias mais apropriadas para combinar so as esmeraldas.
      Dando a volta na mesa, Robert pegou um molho de chaves da gaveta e abriu o grande cofre. Sobre as prateleiras de ao se viam dezenas de caixas revestidas por 
veludo ou couro colorido, que guardavam as famosas jias da famlia Droxford.
      Ele tirou algumas caixas, colocando-as abertas sobre a escrivaninha. Entre outros objetos valiosos, havia um diadema e dois colares com esmeraldas enormes, 
braceletes, brincos e um broche todo cravejado de diamantes, reluzindo sobre o fundo de veludo branco do porta-jias.
      - De onde vieram essas preciosidades, Robert?
      - O quinto conde de Droxford as trouxe do Oriente. Depois de fazer amizade com um sulto, comprou-as por um preo bastante baixo, mas recusou uma fortuna por 
elas ao chegar na Inglaterra.
      - So lindas!
      -Quando se casou, o conde as deu de presente para a noiva. E como estava perdidamente apaixonado, fez uma coisa que horroriza os experts.
      - O que ele fez?
      - Mandou gravar as iniciais dele e as da esposa na esmeralda grande, no centro do broche. Isso,  claro, diminuiu o valor da pedra, mas ao mesmo tempo me pareceu 
um lindo gesto de amor.
      Enquanto falava, Robert lhe mostrou o detalhe da gravao; um corao, dentro do qual se entrelaavam as iniciais dos dois apaixonados.
      - Oh, eles devem ter sido muito romnticos. Ser que eu poderia usar o broche esta noite?
      - Mas  claro! No quer pr tambm o resto do conjunto?
      - Este colar mais simples e o anel bastam. Afinal de contas, vamos jantar em casa... Se bem que desejo estar com a melhor aparncia possvel - acrescentou, 
distrada, como se estivesse pensando em voz alta.
      Depois de encar-la com curiosidade, ele deixou sobre a escrivaninha as caixas com as jias que ela havia pedido, guardando as demais no cofre.
      - O que  isso a, nessa segunda prateleira?
      Retirando do cofre o porta-jias de ouro e prata trabalhados que ela estava apontando, Robert explicou:
      - Esta maravilha foi trazida da Rssia tambm pelo quinto conde de Droxford. Ele era um viajante incansvel e, depois que se casou, costumava levar a esposa 
em suas constantes voltas pelo mundo. s vezes me pergunto o que os dois devem ter sofrido, navegando por mares revoltos, atravessando desertos ou cruzando neves 
sem fim, em vez de desfrutar da calma e da paz da Inglaterra.
      - Pois eu acredito que eles deviam adorar essas aventuras, principalmente se adquiriam objetos to incrveis em cada viagem.
      -Esse porta-jias foi presente do czar. Abra, para ver o que tem dentro.
      Ao levantar a tampa do estojo, Karina se surpreendeu por encontrar no um colar ou um bracelete como esperava, mas sim uma pequena pistola, confeccionada em 
ouro e prata, cravejada de ametistas, de um tom profundo de roxo.
      - Oh, essa arma  bonita demais para ser usada!
      - Mas foi usada, sim. A primeira vez, quando o conde matou um lobo que perseguia o seu tren. Depois Alton atirou com ela em Droxford Park. Ele disse que  
a pistola mais precisa que j usou!
      - Ento tenho que experiment-la! - Karina pegou a pistola carregou-a com uma das pequenas balas de prata. - Veja como fcil empunh-la! - E apontou a arma 
para a cornija da lareira.
      - Voc sabe atirar?
      - Lgico! Sou uma atiradora de primeira! Desde pequena eu costumava acompanhar meu pai nas caadas. No comeo apenas o ajudava no transporte do material, mas 
depois pedi tanto que ele acabou me deixando experimentar o revlver. Quando viu que eu tinha jeito me deu um de presente e, aps algum tempo, me ensinou a usar 
suas pistolas de duelo! Fiquei mestra nisso e quando papai estava fora de casa eu tinha o hbito de dormir com uma arma ao lado da cama, para o caso de algum tentar 
nos assaltar. Nosso mordomo era to surdo que no ouviria sequer um batalho de soldados invadindo a casa, quanto mais um nico ladro!
      - Pelo que vejo voc  perfeitamente capaz de experimentar essa arma. Quando quiser,  s pedir.
      Estendeu o porta-jias para que ela guardasse a pistola, mas em vez disso, Karina sugeriu:
      - Vou ficar com ela de uma vez. Assim, quando Alton chegar, farei uma demonstrao para ele. Tenho certeza de que irei surpreend-lo com a minha percia.
      - Depois do desafio a lady Downshire e de voc ter vencido em Ascot, meu primo deve estar preparado para receber outro choque!
      - S que esse no ter nada de desagradvel. Resolvi me comportar bem e no aborrecer Alton novamente.
      Com uma piscadela compreensiva, Robert lhe entregou as esmeraldas e o porta-jias, que Karina levou em seguida para o andar superior, onde os deixou com a 
criada, recomendando-lhe que os guardasse num lugar seguro.
      Passou pelo dormitrio para pegar um chapu que combinasse com o vestido que estava usando e, com uma expresso sria no rosto, desceu para o hall de entrada. 
Deu um suspiro de alvio quando notou que a carruagem pedida para as onze e meia se encontrava  sua espera com a capota abaixada. Acomodou-se no assento confortvel 
e saiu para aproveitar o sol gostoso da manh.
      Se tivesse aceitado a sugesto que Droxford havia feito ao se despedir dela, na noite anterior, agora estaria assistindo s corridas em Ascot. Entretanto, 
recusara o convite do marido, pois tinha certeza de que no se sentiria  vontade ao lado dele enquanto no contasse a Guy sobre o compromisso que assumira de nunca 
mais v-lo.
      - Acho melhor eu descansar amanh, mas adoraria acompanh-lo nos outros trs dias. Estou ansiosa por assistir  Copa de Ouro na quinta-feira e por nada no 
mundo quero deixar de ver o desempenho  dos seus cavalos na sexta e no sbado - dissera Karina.
      - Desconfio de que voc se recusa a ir porque o seu novo admirador, o rei, no vai estar l amanh - respondera Droxford, brincando.
      - Em compensao, na quinta os preos sero muito difceis e ainda no sei o que fazer para dar os palpites certos a Sua Majestade. A responsabilidade de no 
deix-lo perder dinheiro me apavora.
      - Foi voc mesma quem puxou essa responsabilidade. Mas, se sorrir para ele como sorriu durante o jantar no castelo, seguramente ele a perdoar por qualquer 
engano.
      - Espero no ter dado a impresso de que estava flertando com o rei.
      - No, claro que no. Todo mundo sabe que William IV no perde uma oportunidade de cortejar as mulheres bonitas, embora nunca v alm de palavras elogiosas. 
No seu caso  natural que ele tenha ficado encantado. Afinal, voc era a mais linda de todas as que estavam  mesa.
      Emocionada pela nota de sincera admirao que havia na voz dele, Karina sentira um aperto no corao e fora dormir pensando que deveria haver algum motivo 
oculto capaz de explicar o sbito estremecimento a lhe invadir o peito cada vez que Droxford a elogiava.
      Ao acordar na manh seguinte, a primeira coisa que fez, antes mesmo de decidir conversar sobre as jias com Robert, foi enviar um mensageiro  casa de Guy, 
na Curzon Street, esperando que ele no ficasse surpreso por receber um recado seu pois havia dito antes que estaria a semana inteira em Ascot, assistindo s corridas. 
Meia hora mais tarde, quando acabava de se vestir, o criado voltava trazendo a resposta concisa do amigo:
      "Encontro confirmado. Estarei l na hora combinada. Guy."
      Depois de destruir o bilhete e atir-lo fora, Karina seguiu em direo  biblioteca, desejando que Robert no estivesse muito ocupado e pudesse ajud-la a 
escolher as jias para usar naquela noite.
      
      Quando Guy entrou no British Museum, um pouco antes do meio-dia, havia poucos visitantes, e a maioria deles eram estrangeiros.
      Erguido no lugar da velha Manso Montagu, o prdio abrigava a biblioteca de George III, presenteada  nao pelo rei atual. Embora a construo ainda no estivesse 
concluda, os pilares trabalhados e o hall, finamente decorado, causavam bastante, admirao.
      - Onde fica o Salo Egpcio? - perguntou Guy.
      Mantendo a tradio da velha casa, no museu os compartimentos ainda eram chamados de sales.
      Depois que o funcionrio lhe indicou o caminho, Guy subiu por uma escadaria de mrmore, at se deparar com a coleo de sarcfagos, esttuas quebradas e blocos 
de pedra gravados com hierglifos.
      Assim que avistou Karina no centro do salo, teve a sbita e estranha sensao de que ela era uma personagem etrea, que de alguma forma pertencia a um passado 
distante e inalcanvel. Procurando afastar da mente essa impresso, ele se aproximou a passos rpidos e a beijou ternamente nas mos.
      - Bom dia, querida. No esperava receber o seu bilhete. Pensei que voc estivesse em Ascot.
      - S fiquei em Londres porque precisava me encontrar com voc.
      - Aconteceu alguma coisa? O que h de errado?
      Karina no estranhou a pergunta; eles haviam desenvolvido um conhecimento mtuo to grande que era impossvel ocultar um do outro qualquer problema.
      Porm, temerosa da reao de Guy quando ouvisse a verdade, crispou a mo que ele segurava.
      - Vamos nos sentar, Karina, para que me conte o que a preocupa tanto. - Aps conduzi-la at um banco de madeira, onde se acomodaram lado a lado, ele insistiu 
com voz calma e pausada: -  por causa de Alton que voc est desse jeito?
      - De certa forma, sim.
      - O que foi que ele fez?
      - Bem, Alton no quer que eu volte a v-lo, Guy.
      Karina sentiu uma pontada de dor ao perceber o quanto essas palavras o feriam. . . Se dependesse dela, jamais seria capaz de magoar, um mnimo que fosse, algum 
que lhe dedicava tanta ternura.
      Depois de um longo suspiro, Guy declarou:
      - Eu j esperava pr isso. S me surpreende ele ter demorado tanto para tomar essa atitude.
      - O problema  que as pessoas tm espalhado fofocas a nosso respeito.
      - Ora, Karina, no diga que isso lhe causa algum espanto. Voc  bonita demais para no ser notada, aonde quer que v. Por outro lado, minha reputao no 
 das melhores. . . Logo, no h por que esperar que agissem diferente. .
      - Eu... lamento que a nossa amizade tenha que acabar assim.
      - Parece que voc no  capaz de entender como me sinto! Acredita por acaso que posso simplesmente deixar de v-la, como se fosse a coisa mais natural do mundo?
      - Mas o que podemos fazer? Voc sabe como Alton  inflexvel. Apesar disso, ele foi muito gentil comigo quanto ao fato de eu ter comprado um cavalo sem nada 
lhe contar.
      - Ah, eu soube que Merlin venceu.
      Por um breve momento, o rosto de Karina se iluminou enquanto relembrava o episdio.
      - Ainda no consigo acreditar! O momento mais emocionante de minha vida foi quando o vi cruzar a linha de chegada. Eu sabia que ele podia vencer, mas tinha 
medo de que no ltimo momento alguma coisa ou algum o impedisse de correr.
      - E Alton no ficou bravo?
      - Nem um pouco. At me ofereceu ajuda para iniciar uma criao de cavalos prpria!
      - Compreendo... Em retribuio a tanta generosidade exigiu que voc se descartasse de mim como de um brinquedo que no quer usar mais!
      - No  bem assim! A insistncia de Alton para que no nos encontremos mais  algo que mais cedo ou mais tarde iria acontecer. Vamos ser honestos, temos que 
reconhecer que no era certo voc ficar me fazendo declaraes. Agimos muito mal saindo tantas vezes desacompanhados e sem a permisso dele. - Guy virou o rosto 
na direo do sarcfago semi-aberto, na tentativa de ocultar dela a expresso de dor que havia em seus olhos. Penalizada, Karina prosseguiu:- Juro que no desejo 
mago-lo, Guy, mas no posso deixar de fazer o que Alton me pediu! No s porque seria punida como tambm porque reconheo que ele est certo.
      Guy voltou a encar-la.
      - Alton lhe fez alguma ameaa?
      - Fez. Mas eu no tiro a razo dele. Afinal, eu fui a primeira a desafi-lo, embora ele tenha sido extremamente generoso comigo desde que nos casamos. Como 
j lhe disse vrias vezes, sou eu que no venho cumprindo o acordo que fizemos quando resolvemos nos casar.
      - Isso  um absurdo! No entende que no posso desistir assim de voc? Eu a quero mais do que tudo na vida! Voc se tornou parte de mim! Alton pode ser seu 
marido, mas no a ama como eu! Pelo amor de Deus, fuja comigo!
      Levantando-se de um salto, ele a obrigou a fazer o mesmo e a fitou de modo intenso e apaixonado. Porm, ao ver a expresso de Karina, as faces plidas de medo, 
Guy duvidou de que ela conseguisse lhe dedicar seu amor. Ento ficou quase desesperado.
      - Voc  to jovem, to inocente! O que devo fazer para que entenda como me sinto?
      Constrangida, ela permaneceu em silncio, consciente de que nada do que pudesse dizer seria capaz de amenizar o sofrimento daquele homem.
      Ao mesmo tempo, um estremecimento lhe percorreu o corpo quando viu surgir nos olhos dele o mesmo brilho que dias antes j a deixara amedrontada.
      -  Preciso ir embora...
      - E se eu no deixar? No acha que fomos longe demais para voc simplesmente dizer adeus e nunca mais me encontrar?
      - No estou entendendo.
      - Que lhe parece se eu procurar Alton e disser a ele que voc  minha esposa em tudo, faltando apenas usar o meu nome?
      Empalidecendo, Karina recuou dois passos, os olhos arregalados de espanto.
      - No acredito que tenha coragem de fazer uma coisa dessas! Oh, Guy, temos sido muito amigos e peo que por favor no destrua agora a grande afeio que sinto 
por voc!
      -  Afeio? No se faa de desentendida! Sabe muito bem que no  s isso que desejo de voc.
      Antes que ela pudesse se dar conta das intenes dele, Guy avanou em sua direo, tomando-a nos braos e beijando-lhe os lbios.
      Karina se debatia s cegas, procurando se libertar, mas todos os seus esforos resultaram inteis frente queles braos fortes que a envolviam e queles lbios 
sedentos que lhe aprisionavam a boca.
      Depois de um longo tempo, ele levantou a cabea e declarou com voz rouca:
      - Eu a amo, Karina! Meu Deus, como eu a amo! Voc  minha! Minha!
      Sem ao menos lhe dar tempo para respirar, Guy voltou a beij-la quase com brutalidade, nos olhos, nas mas do rosto e outra vez na boca.
      A cada segundo mais perplexa, Karina perdera a capacidade de continuar lutando e sentia-se como um nufrago sendo fustigado pelo vaivm incessante das violentas 
ondas do mar...
      De repente, percebendo que no era correspondido, Guy ergueu o rosto novamente, mas no se deixou impressionar pela expresso amedrontada que encontrou nos 
olhos dela.
      - Juro que conseguirei fazer voc me amar e me querer tanto quanto eu a quero!
      Sua voz, embora ainda apaixonada, tinha perdido muito do mpeto inicial.
      Karina nada disse, mas a expresso de seus olhos valia mais que mil palavras; em vez de medo agora eles refletiam apenas uma profunda compaixo por aquele 
homem.
      Assim que ele afrouxou o abrao, afastou-o para um lado, tomando a direo da sada.
      S quando tomou a coragem de voltar foi que Karina percebeu estar prestes a desmaiar. No sabia como encontrara foras para se livrar de Guy e a nica certeza 
que tinha em mente era a de no querer mago-lo, embora jamais pudesse sentir a intensidade de amor que ele tanto desejava.
      Trazia uma estranha e incmoda sensao nos lbios, nos olhos, nas faces, como se em vez de acariciada tivesse sido machucada com aqueles beijos!
      Nunca fora beijada antes e, por um momento, chegou a pensar que no gostaria de repetir a experincia. Entretanto se lembrou das vezes em que, escondida na 
rvore, observava o conde de Droxford abraar lady Sibley e beij-la de modo lento e apaixonado.
      Como era diferente da forma rude como Guy a abraara! Evidentemente, Alton conhecia o comportamento do ex-amigo e devia ser por isso que a proibira de v-lo!
      Mas, embora consciente de que jamais chegaria a amar Guy, Karina no se iludia com a idia de que no iria sentir sua ausncia. Afinal, no podia negar que 
foram agradveis os passeios que fizeram juntos, as longas conversas que mantiveram e, sobretudo, as inmeras provas de amor que ele sempre fizera questo de dar.
      "No posso mais pensar nele. Preciso me ocupar com outras coisas!", disse a si mesma.
      Assim, passou a tarde se entretendo com a leitura de um romance e deu graas a Deus quando finalmente percebeu que se aproximava a hora do jantar.
      Foi para o quarto, tomou banho e colocou o vestido novo, que combinou perfeitamente com o colar de esmeraldas e o broche que pegara com Robert, pela manh. 
Depois de pronta, resolveu esperar o marido na sala de baixo.
      Quando Droxford desceu, ela se levantou para receb-lo, deixando sobre a mesinha um exemplar do jornal da Cmara dos Lordes que estivera lendo.
      - Acabei de ler o seu pronunciamento, Alton. Se voc tivesse me avisado de que ia discursar na segunda-feira, eu teria aparecido na Cmara para ouvi-lo.
      -Puxa, esqueci que voc gosta de poltica. Mas na prxima semana prometo lev-la para um outro debate sobre a Reforma Bill.
      - Li h poucos dias o texto da reforma. Tenho uma poro de dvidas sobre o assunto e gostaria de discutir isso com voc. Mas primeiro quero saber o que aconteceu 
hoje em Ascot.
      - Foi um dia montono. Os favoritos ganharam todos os preos.
      - Ento fico feliz por no ter ido. A que horas voc pretende sair amanh?
      - s onze seria um bom horrio para chegarmos antes do incio da primeira prova. - Droxford consultou o relgio e perguntou: - A que horas Freddie vem busc-la?
      - Para qu? No marquei nenhum compromisso para esta noite.
      - Pois ele me disse que viria apanh-la para uma festinha na casa de Harriet.
      - Bem, recebi o convite dela, mas recusei, pensando em jantar aqui com voc.
      - Sinto muito, Karina, mas como pensei que voc iria para essa reunio, marquei um encontro com alguns amigos.
      - Quer dizer que no vai ficar comigo?
      - Infelizmente no ser possvel.
      - Voc no poderia desmarcar esse compromisso?
      Droxford a encarou fixamente e por um momento pareceu que os dois se diziam coisas que iam muito alm daquela simples conversa sobre o jantar.
      Depois de olhar novamente o relgio ele disse, relutante:
      - No posso faltar a esse encontro, mas desde j deixamos combinado que amanh jantaremos a ss, est bem?
      - Amanh teremos que ir ao baile na casa de lorde Althrop!
      - Dane-se o baile! Amanh jantaremos s ns dois, Karina. H uma poro de coisas que quero conversar com voc.
      - Que timo! Ficarei aguardando com ansiedade.
      - E o que vai fazer esta noite?
      - Bem, com certeza Freddie no vir me buscar. Assim, subirei para o quarto e ficarei lendo um pouco. Seria horrvel comer sozinha naquela mesa  enorme, sem 
ter com quem conversar.
      Karina falava com tanta tranqilidade que terminava mascarando seu desapontamento.
      - Desculpe-me, querida - ele disse, beijando:lhe a mo.
      - Boa noite.
      - Boa noite, Alton.
      Quando Droxford se retirou ela sentou-se no sof, completamente desanimada.
      No sabia direito o motivo, mas sentia que aquela noite seria muito importante. Talvez porque tivesse rompido com Guy, ou quem sabe porque, na noite anterior, 
Droxford dissera que dali por diante: as coisas mudariam entre os dois.
      De uma coisa, porm, no duvidava: queria ficar com ele.
      Mas sentia-se triste por Droxford no ter feito nenhum comentaria sobre o vestido novo que estava usando e de repente se surpreendeu ansiando por saber se 
ele havia ido ao encontro de lady Sibley ou da sra. Felicite Corwin.
      Claro! S poderia ser isso! Se Droxford houvesse marcado uma visita a algum poltico, ou mesmo a um amigo, no teria hesitado em lhe contar com quem era o 
compromisso.
      Veio-lhe  mente a imagem do marido beijando lady Sibley ou abraando Felicite. .. tocando-as com delicadeza e sensualidade... fazendo amor com elas...
      Ento um soluo de desespero lhe escapou da garganta. Precisava reconhecer que no significava nada para Droxford... Como odiava aquelas duas mulheres, que 
podiam agarr-lo  hora em que bem entendessem!
      De repente a porta da sala se abriu e Newman anunciou:
      - Lady Mayhew, condessa.
      Quase no mesmo instante uma mulher de aproximadamente quarenta anos, usando um casaco de tafet com mangas extravagantes, postou-se diante dela com uma expresso 
risonha no olhar. 
      - Minha querida lady Droxford, por favor me desculpe por aparecer assim, de uma hora para outra!  que acabei de me encontrar com seu marido, que se mostrou 
preocupado por a senhora ficar sozinha esta noite. Ento sugeriu que a convidasse a me acompanhar a um jantar com uma amiga, que ficar encantada em conhec-la!
      Surpresa diante daquela desconhecida, Karina perguntou, desconfiada:
      - Onde a senhora encontrou o conde?
      - Nossas carruagens se cruzaram quando ele estava de sada. Conversamos um pouco e, na hora da despedida, eu fiz um convite a vocs para aparecerem em minha 
casa. Foi ento que ele props que eu a chamasse hoje mesmo, uma vez que no queria deix-la sozinha a noite inteira.
      - Mas eu no iria atrapalhar?
      - Oh, no! A sra. Connaught est acostumada a receber muita gente. No se preocupe.
      Embora seu tom fosse gentil, por algum motivo que lhe escapava  compreenso imediata, Karina no se sentiu segura diante daquela mulher de aspecto um tanto 
estranho, cuja vestimenta se apresentava em mau estado de conservao.
      No entanto, como no tinha nada para fazer e seria um gesto de descortesia recusar quela amiga de Droxford um convite to amvel, resolveu aceitar.
      - A que hora sairamos?
      - Agora mesmo! Minha carruagem est a fora e se no formos logo chegaremos atrasadas, pois minha amiga mora em Hampstead.
      - Ento espere um pouco enquanto vou. pegar um xale.
      - Seria melhor levar um casaco. As noites j esto ficando frias.: Karina concordou e, ao sair da sala, pediu a Newman que servisse um licor a lady Mayhew, 
enquanto subia para pegar o agasalho.
      A camareira, que fazia a arrumao no quarto, ficou surpresa com seu aparecimento.
      - Pegue um casaco para mim, Martha. Vou jantar fora.
      - Vai passar calor se usar o casaco, condessa. Talvez o xale branco seja mais adequado para esta noite.
      -  Lady Mayhew disse que o tempo j comea a esfriar. Alm disso, vamos a Hampstead, que fica bastante longe.
      -  Hampstead! Oh, no, condessa, no pode ir para aqueles lados com essas esmeraldas! Aquela regio est cheia de ladres!
      - Talvez o lugar no seja to perigoso assim! E imagino que lady Mayhew esteja com pelo menos dois criados na carruagem.
      - Fico com medo porque essas jias chamam muito a ateno... 
      - No tenho tempo para tir-las agora. Alm do mais, este vestido no fica bem sem algum adorno.
      Assim que falou, Karina lembrou-se de outra coisa que tinha trazido do cofre naquela manh.
      - Martha, pegue o porta-jias que lhe pedi para guardar hoje cedo.
      Quando a camareira trouxe o estojo, Karina pegou com cuidada a pequena pistola russa guardando-a dentro da bolsa. Embora achasse que a criada exagerara, preferia 
estar prevenida, pois seria imperdovel correr o risco de perder aquelas jias que pertenciam  famlia Droxford h tanto tempo.
      - J estou indo, Martha. Boa noite.
      - Boa noite, condessa. Divirta-se.
      O casaco de veludo verde que pusera sobre os ombros era muita bonito, mas talvez quente demais para uma noite de vero, imaginava Karina ao entrar na carruagem 
confortvel, puxada por dois cavalos. No demorou muito e cruzaram o Regent's Park, em direo a Hampstead.
      Lady Mayhew tagarelou durante todo o trajeto e, por mais que se esforasse, Karina no conseguia livrar-se da impresso de que aquela mulher estava agitada, 
pois percebia uma nota de tenso por trs de cada palavra que ela pronunciava.
      Quando a carruagem parou em frente a uma casa grande e de aspecto pouco acolhedor, um mordomo as conduziu at um salo decorado com mau gosto, onde havia cerca 
de doze pessoas.
      A sra. Connaught, tal e qual lady Mayhew, tinha bem mais de trinta anos e se trajava mal, com um vestido muito justo na cintura e uma poro de jias que, 
pelo aspecto, pareciam ser falsas. Seus cabelos loiros tambm no pareciam naturais.
      -  um prazer imenso receb-la, condessa. Estava ansiosa por conhec-la, desde que soube que se casou com aquele homem lindo que sempre dilacerou coraes.
      Karina teve vontade de rir e desejou que Droxford estivesse ali, para ouvir o que a anfitri acabara de dizer.
      A sra. Connaught apresentou-a ento s outras mulheres, que, embora fossem jovens e bonitas, certamente no pertenciam  alta sociedade. Por que ser que Droxford 
fizera questo de que ela fosse quela casa?
      Os homens tambm eram todos desconhecidos e a maioria deles pertencia a um batalho que estava de passagem por Londres.
      Aps a primeira rodada de vinho no jantar, os convidados se puseram a falar e a rir com espalhafato, e os homens, que at aquele momento tinham sido formais 
e respeitosos com Karina, passaram a lhe fazer elogios maliciosos, que a deixavam completamente sem graa.
      Quando a sobremesa foi servida, era quase impossvel permanecer  mesa, devido s gargalhadas estridentes e ao vozerio ensurdecedor.
      Foi com alvio que Karina viu a sra. Connaught levantar-se. Mas nem todos os convidados puderam fazer o mesmo. Dois deles estavam to bbados que no conseguiram 
se mexer das cadeiras que ocupavam.
      Quando retornaram ao salo, lady Mayhew cochichou no ouvido de Karina:
      - Talvez a senhora prefira ir embora agora. Esta reunio no est nada agradvel!
      - Para ser sincera estou morrendo de vontade de voltar para casa.
      - Ento falarei com a sra. Connaught.
      Lady Mayhew se encaminhou na direo da anfitri, seguida por Karina.
      - Ivy, sinto muito, mas lady Droxford e eu vamos sair agora.
      - Por mim tudo bem, querida - replicou a sra. Connaught, num tom de pouco caso.
      Lady Mayhew lanou-lhe um olhar severo, que obrigou a amiga a se dar conta de que fora descorts. Porm, Karina mal prestou ateno ao pedido de desculpas 
da anfitri, despedindo-se rapidamente e s respirando aliviada quando entrou na carruagem de volta para casa.
      - Queira me desculpar por t-la trazido a esta festa - disse lady Mayhew. - Ivy Connaught  muito gentil, mas no sabe escolher as pessoas que freqentam sua 
casa. Estou cansada de alert-la para que selecione seus convidados, mas ela no me ouve!
      - Espero que ela no me considere mal-educada por sair logo aps a refeio.
      - Oh, no! Ivy no liga muito para a etiqueta.
      Depois de um instante de silncio, lady Mayhew perguntou:
      - A senhora se importaria que eu fosse deixar um pacote em Park Street, antes de lev-la para casa? Como sabe, essa rua fica perto da manso Droxford e no 
iramos demorar muito.
      - Por mim, sinta-se  vontade.
      -  um presente para uma amiga que sofre de artrite. Ela no tem parentes e vive muito solitria.
      - Oh, que coisa triste! E por que ela no arranja uma dama de companhia?
      - Ela costuma ter, mas atualmente est sem ningum. Vive em uma casa imensa com alguns criados e isso deve ser muito desagradvel.
      - De fato. O que est levando para ela?
      - Oh, alguns bibels. Vivo quebrando a cabea para descobrir alguma coisa que ela ainda no tenha! Esse  o maior problema dos ricos; eles tm tudo!
      - Com certeza, o que sua amiga mais quer  a sua amizade!
      -  verdade. E por isso no quero deixar o meu presente na porta; vou entrar para mostrar meu vestido novo. Ela adora coisas bonitas e sempre me diz: "Margaret, 
fico contente por v-la sempre enfeitada como um bolo de casamento". - Karina riu e lady Mayhew continuou: -  claro que ela gosta de brincar, mas como estou usando 
um dos meus melhores vestidos, sei que ela gostar de v-lo.
      - Imagino que sim!
      - E a senhora precisa mostrar o seu! Est usando um dos modelos mais lindos que j vi e suas jias so fantsticas! Devem valer uma fortuna!
      Karina notou um tom de inveja nas palavras de lady Mayhew.
      - Tenho certeza de que sua amiga no vai querer receber uma desconhecida a esta hora da noite.
      - Oh, claro que vai! Isso lhe dar assunto para falar durante semanas!
      Karina pensou em insistir na recusa mas acabou achando que seria indelicado de sua parte. E, afinal, j estava perto de casa. Disse a si mesma que no dia seguinte 
perguntaria a Droxford por que ele tivera a idia de faz-la conhecer pessoas to estranhas. Por mais boa vontade que tivesse, no conseguia acreditar que aquela 
mulher ao seu lado fosse amiga dele, pois, apesar de ser uma lady, ela possua todas as caractersticas de uma pessoa vulgar!
      Poucos momentos depois, pararam diante de uma imponente casa em Park Street.
      - Chegamos! Vamos entrar, condessa. Tenho certeza, de que minha amiga ficar feliz com a sua gentileza!
      Resignada, Karina saiu da carruagem e acompanhou lady Mayhew pelo grande vestbulo, admirando-se da extrema elegncia da criadagem e da moblia luxuosa.
      -  Por aqui, senhoras - o mordomo convidou, levando-as no para o andar superior, mas para um corredor que dava nos fundos da casa.
      Karina se perguntava por que o quarto da dona da casa ficava to distante dos cmodos principais. Afinal, ela sofria de artrite!
      De repente, o mordomo abriu uma porta de mogno no fim do corredor.
      Karina no soube ao certo como tudo aconteceu, mas em vez de entrar na frente, lady Mayhew se desviou para o lado, fazendo-a entrar sozinha em uma imensa sala 
de jantar, cuja mesa estava preparada para a ceia.
      Um candelabro de prata espalhava uma luminosidade difusa por todo o ambiente, impedindo-a de identificar de imediato a figura  sua frente. Assim que seus 
olhos se acostumaram  penumbra porm, Karina olhou em redor, e para surpresa sua a sala parecia estar vazia.
      Logo depois ouviu uma porta se fechar atrs dela e virando-se encontrou o olhar malicioso de lord Wyman.
      
      CAPTULO IX
      
      Paralisada pelo susto, Karina permaneceu um longo tempo encarando o homem, incapaz de articular um nico som. Por fim, com um esforo sobre-humano, ela perguntou, 
tentando se controlar:
      - O que significa isso? Onde estou?
      - Em minha casa, belezinha.
      Antes que ela pudesse se mexer ou mesmo gritar, lorde Wyman a abraou e, puxando-a para junto de si, tentou beij-la.
      Impedida de lutar pelo casaco que lhe tolhia os movimentos, Karina se debatia, virando o rosto de um lado para o outro em desespero. Todavia, sua resistncia 
parecia intil diante da fora e do desejo animal que emanavam daquele homem.
      Finalmente, com um violento empurro, ela conseguiu se libertar e correu para longe, deixando o casaco nas mos dele.
      Sem flego, o corao batendo descompassado e os cabelos em desalinho, Karina alcanou o outro extremo da mesa, onde se postou, obsevando-o com olhos assustados.
      Rindo sem parar, Wyman depositou o casaco sobre uma cadeira prxima  parede e falou, com sarcasmo:
      - No vai escapar de mim facilmente, belezinha, portanto, aceite o meu conselho e aproveite bem este momento. Afinal, estamos completamente sozinhos!
      - Meu marido ficou  minha espera.
      No instante seguinte, ela percebeu que no fora feliz em seu argumento, pois o lorde fitou-a de cima a baixo, como se pretendesse despi-la com o olhar, e informou, 
cinicamente:
      - Seu marido, minha pombinha fugitiva, se encontra nos braos carinhosos de Felicite Corwin! E ela prometeu que seguraria Droxford no quarto dela pelo menos 
at o dia amanhecer.
      Apesar de trmula e apavorada, Karina no pde evitar que o cime lhe dominasse o corao. Ento, Droxford preferira ir ao encontro da amante, em vez de ficar 
em casa para jantar com ela...
      - O senhor s me trouxe aqui por causa desse truque sujo! Se lhe restar um mnimo de decncia, lorde Wyman, me deixe ir embora agora mesmo!
      - Ora, vamos! Voc h de convir comigo que foi um plano inteligente e bem elaborado... Alm disso, Margaret Mayhew  uma excelente atriz!
      - Atriz? Ento tudo o que aconteceu esta noite no passa de uma encenao?
      -  claro! Desde a primeira vez em que a vi, resolvi que seria minha. E satisfazer meu grande desejo foi apenas uma questo de tempo e inteligncia.
      - Que absurdo! Por acaso, acredita que meu marido no o obrigar a pagar por essa atitude horrvel? Trazendo-me aqui, o senhor o humilha!
      De repente, ela precisou buscar apoio em uma cadeira, pois o cho parecia-lhe fugir dos ps. Mas, apesar do pavor que a invadia, seus olhos transbordavam de 
dio enquanto observava Wyman. Ele, por sua vez, demonstrava muita calma e, percebendo o mal-estar de Karina, sugeriu:
      - Que acha de nos sentarmos?
      - No! E no se atreva a tocar em mim, seno gritarei por socorro.
      - Ningum a escutar, nem mesmo os criados. - Como ela no retrucasse, ele explicou: - Meu av construiu esta sala  prova de, som, pois detestava msicas, 
e, quando minha av queria praticar violino, vinha para c. Portanto, ningum a ouvir, querida. E posso garantir que quanto mais resistir aos meus carinhos, mais 
excitado ficarei!
      Depois de um certo silncio, ele continuou:
      - Quanto ao fato de seu marido se sentir insultado,  bastante improvvel que isso ocorra, porque ele nunca descobrir nem o que aconteceu, nem o que ainda 
vai acontecer aqui esta noite.
      - Na certa, o senhor enlouqueceu se acredita que no o porei a par desta situao ridcula.
      - Mas  lgico que voc no abrir a boca. Afinal, os maridos detestam a idia de que suas esposas lhe foram infiis, ainda que contra a vontade delas. Alm 
disso, um duelo despertaria a ateno da sociedade, que logo deduzir que voc o traiu comigo. Duvido que Droxford se preocupasse em salvar a honra da esposa depois 
de tudo consumado.
      - No acredito em uma nica palavra sua. E mais, se acredita que vai me possuir, saiba que eu o detesto. Nunca uma pessoa me inspirou tanto nojo. Portanto, 
se tiver um pouco de vergonha na cara, abra aquela porta e me deixe ir embora de uma vez por todas!
      - Infelizmente, gostando ou no de mim, continuo a desej-la e voc ser minha.
      - Nojento!
      Impassvel, ele prosseguiu, num tom suave:
      - Voc  diferente das outras mulheres; possui um certo qu de pureza e inocncia! Talvez seja impresso minha, na medida em que Droxford no seria louco de 
casar com voc e mant-la virgem.. .
      Essas palavras, ditas com calma estudada, a fizeram enrubescer e abaixar os olhos, sem coragem para encar-lo.
      Seu embarao no passou despercebido a Wyman que, sorrindo satisfeito, exclamou:
      -  Ento,  verdade! Voc permanece virgem! 
      - No! - gritou Karina, quase chorando.
      - No tente me enganar. Bem que desconfiava disso. Nem imagina minha alegria por ser o primeiro homem a desfrutar do seu corpo encantador!
      - Saiba que prefiro morrer a permitir que o senhor me possua!
      - No seja dramtica! Poucas mulheres morrem por causa disso, minha pombinha. Pelo contrrio, muitas delas passam a viver apenas Para o amor.
      Enquanto falava, Wyman se ps a contornar a mesa, lentamente.
      - Fique longe de mim, seno eu. . .
      Tomando conscincia de que no havia chances de escapar daquela situao, Karina se calou, rezando para que acontecesse um milagre.
      - O que voc vai fazer? Gritar e espernear um pouco?
      - No ouse se aproximar. . .
      - No adianta resistir, minha pombinha. Sou muito mais forte do que voc!
      Em silncio, Karina repetia a si mesma que no podia entrar era pnico. Precisava manter a calma e o mximo de sangue-frio para tentar convenc-lo a parar 
de importun-la, deixando-a livre. Hesitante, comeou a dizer em voz trmula:
      - Eu imploro, lorde Wyman... O senhor no pode querer. ..
      - Violent-la? - ele completou, sorrindo cinicamente. - Mas  exatamente o que farei.
      - Ser que o senhor no possui um pingo de honra?
      - No, minha querida. Perdi toda a decncia quando resolvi possu-la a qualquer custo. Acho-a muito tentadora, e no sou o tipo de homem que resista a uma 
mulher linda como voc!
      - Deixe-me ir embora... por favor.
      - No! E j me cansei desse falatrio. Agora, quero lhe ensinar as delcias do amor. Posso lhe garantir que tenho bastante experincia no assunto!
      -  O que o senhor est me oferecendo no  amor, lorde Wyman. A nica coisa que deseja  me desonrar.
      Ignorando-lhe os protestos, ele perguntou, irnico:
      - Algum j disse que os seus olhos ficam lindos quando voc est nervosa?
      Desconcertada, ela o viu avanar em sua direo de maneira firme e decidida. A cada passo, Karina se retraa, tentando imaginar uma forma de sair dali, porm 
as idias lhe fugiam da mente, dando lugar apenas para o pavor que lhe entorpecia os membros.
      Disposta a continuar contornando a mesa, ela se ps a observ-lo, mal suportando a terrvel guerra de nervos.
      De repente, ele acelerou o passo, obrigando-a a correr, at que sua  bolsa bateu em uma das cadeiras, produzindo um rudo metlico. O som lhe reavivou a esperana 
e um plano imediatamente se esboou em sua mente. Sem pensar duas vezes, ela falou, com calma fingida:
      - Essa situao  ridcula, lorde Wyman! Ser que no podemos conversar um pouco? Eu gostaria de beber alguma coisa.
      O sorriso cnico e confiante, que se desenhou nos lbios dele, deu a Karina a confirmao de sua suspeita; ele cara na armadilha, pensando que havia vencido 
a batalha.
      - Terei um imenso prazer em lhe oferecer uma bebida. . . A sala est bastante abafada, e o medo, doura, deixa as vtimas com a garganta seca. . . Que tal 
uma taa de champanhe?
      - Eu adoraria. Mas antes prometa que, caso eu me sente no sof, o senhor no tocar em mim at terminarmos de beber.
      - Dou-lhe minha palavra de que tentarei fazer isso, embora eu no possa garantir que resistirei muito tempo.
      - Sinto-me um pouco cansada, entende?
      - Ento vou reanim-la com uma boa dose de champanhe. Karina respondeu com um sorriso pouco convincente e se acomodou no sof, enquanto ele se dirigia ao aparador.
      Certificando-se de que seu inimigo estava entretido com a bebida, ela comeou a abrir a bolsa. Seus dedos tremiam.
       Sem qualquer rudo, destravou o fecho e procurou a pequena pistola recoberta de ametistas. Logo, sentiu as pedras frias e sorriu satisfeita, retirando a arma 
da bolsa, vagarosamente, e procurando no perder de vista os movimentos do homem que, de costas para ela, enchia a segunda taa.
      "Tenho apenas uma bala e pouqussimo tempo... Se desperdi-la, estarei perdida!"
      Esforou-se ao mximo para conter o tremor das mos, com medo de errar a pontaria. Pagaria caro se no o matasse e, alm disso, Wyman perdera o direito de 
viver ao humilhar uma mulher indefesa com aquele plano srdido.
      Alheio a tudo, ele se virou com uma taa em cada mo e um sorriso nos lbios.
      - E agora, minha pombinha, beberemos em...
      Atnito, lorde Wyman teve tempo apenas para arregalar os olhos enquanto Karina, de p  sua frente, a pistola nas mos, atirou sem hesitar.
      O estampido seco ecoou na sala, e um corpo foi caindo lentamente no cho.
      Durante alguns instantes, Karina permaneceu imvel, a arma ainda apontada na direo dele. Por fim, quando uma mancha de sangue tingiu a camisa branca na altura 
do peito, ela murmurou: - Consegui! Ele est morto.
      Sentindo-se estranhamente calma, ela tornou a guardar a pistola e foi at a cadeira apanhar o casaco, colocando-o sobre os ombros. Nesse momento, lembrou-se 
de que a porta estava trancada. Alm disso, havia risco de algum criado surpreend-la no corredor. .. E, para piorar, precisaria antes pegar a chave da porta no 
bolso do palet de Wyman.  Aterrorizada, chegou  concluso de que no suportaria tocar no cadver dele, sob hiptese alguma!
      Mais uma vez, relanceou o olhar pelo corpo inerte e reparou que ai mancha de sangue crescera a ponto de lhe empapar a roupa... E a careta que ele fizera antes 
de morrer parecia zombar dela, dizendo que  fora intil tudo aquilo... Aproximando-se, ela notou que Wyman conservava as hastes das taas quebradas entre os dedos 
e que o champanhe se espalhara sobre o tapete.
      Perturbada, desviou o rosto, sussurrando: 
      - No posso tocar nele! No posso!
      No minuto seguinte, porm um fio de esperana lhe invadiu o corao, fazendo-a correr em direo s janelas, recobertas por pesadas cortinas de damasco. Por 
sorte, o trinco era fcil de abrir e no haveria dificuldades para atingir o pequeno jardim que circundava a casa.
      Mais tarde, j na trilha que conduzia aos estbulos Karina suspirou aliviada.
      Com redobrado cuidado, ela seguiu em direo ao rudo de patas de cavalos e de vozes masculinas, vindo das cocheiras iluminadas.
      Ao espiar por uma das janelas, observou trs criados que conversavam e riam enquanto tratavam dos animais.
      Avaliou que a iluminao era parca e que o porto de sada das carruagens ficava a poucos metros de distncia.. . Com alguma sorte escaparia sem despertar 
a ateno dos criados.
      Um suspiro de alvio lhe escapou do peito quando, aps retirar a tranca do porto com cuidado e abri-lo, Karina se viu envolvida pela escurido de Green Street.
      Sem perder tempo, ela se ps a correr para Park Lane, s parando para recuperar o flego quando j estava na frente de casa.
      "Ningum vai descobrir", assegurou a si mesma. "Est tudo acabado, acabado! Os criados o encontraro, mas jamais desconfiaro de que fui a responsvel pela 
morte dele... E mesmo que suspeitem, no movero uma palha, pois desconhecem a minha identidade."-
      Assim pensando, ela se tranqilizou, a respirao pouco a pouco retomando seu ritmo. Lembrando-se de que seus cabelos estavam despenteados, ela os arrumou 
apressadamente e ponderou que caso mantivesse a calma, ningum notaria nada de estranho em sua aparncia.
      Arrumou a gola do casaco e passou a mo na gaze verde que rodeava o decote do vestido, ficando paralisada.
      Fora de si tornou a passar os dedos pela frente do vestido. No era possvel! Tinha que estar ali! Mas, no!
      Desesperada, constatou que o broche de esmeraldas da coleo de Droxford, facilmente reconhecvel, cara no cho da casa de lorde Wyman!
      Considerando a hiptese de voltar para recuper-lo, concluiu que seria loucura.
      Na certa, havia o perigo de a surpreenderem.
      Sem pestanejar, subiu a escada da manso e bateu  porta.
      Logo, um criado correu para atender e se mostrou bastante surpreso ao reconhec-la.
      -  Senhora condessa! - exclamou, procurando avistar alguma carruagem nas proximidades.
      -  Onde est Newman?
      No precisou repetir a pergunta, pois no mesmo instante, o mordomo surgiu apressado, dizendo:
      -  Desculpe-nos, condessa. No escutamos o barulho da carruagem chegando.
      Ignorando o embarao dele, Karina entrou no vestbulo e seguiu em direo  biblioteca.
      -  Quero falar com voc, Newman.
      Intrigado, com sua fisionomia tensa e nervosa, ele a seguiu, fechando a porta assim que entrou no ambiente.
      - Algum problema, lady Droxford?
      - V buscar o conde. V busc-lo imediatamente. Voc sabe onde se encontra, e o assunto  muito urgente! No discuta: v atrs dele e traga-o aqui o mais rpido 
possvel, Newman!
      - Mas, senhora condessa... - ele comeou, um tanto constrangido.
      - Preciso conversar com meu marido! No perca tempo e v busc-lo! Pegue uma carruagem e, se for preciso, implore para que ele o acompanhe de volta.
      - A senhora no se sente bem? Quer que eu lhe traga um copo de vinho?
      - No, no! No quero nada! - gritou Karina, exasperada. - Faa o que eu mandei. V buscar o conde imediatamente!
      Impressionado, Newman concordou e deixou a biblioteca com uma expresso preocupada no rosto.
      Assim que se viu sozinha, Karina tirou o casaco e pousou as mos trmulas sobre o vestido, no lugar onde havia colocado o broche. . . vazio! No auge do desespero 
comeou a chorar, imaginando o que Droxford lhe diria...
      
      Enquanto a carruagem atravessava Park Lane, Droxford ia pensando no quanto Karina ficara frustrada ao saber que no jantariam juntos... Bem que ele teria preferido 
faltar quele compromisso, mas precisava se encontrar com Felicite naquela noite, para acabar com tudo que ainda existia entre os dois.
      Calmo e decidido, ele nem imaginava que tanto Felicite Corwin quanto Georgette culpavam Karina pelo fato de ele no lhes dar ateno, ignorando suas explicaes 
de que a responsabilidade cabia  Reforma Bill, que o mantinha ocupado o dia inteiro.
      Embora de incio houvesse acreditado que aquele casamento facilitaria seus encontros, lady Sibley se viu possuda por um cime terrvel, ao notar que o conde 
j no a procurava com a freqncia de antes.
      O mesmo se podia dizer de Felicite Corwin, que se sentia igualmente abandonada.
      Se desconfiasse disso, na certa, Alton daria boas risadas, pois, apesar de consider-la agradvel e atraente, nunca lhe dera esperanas de um envolvimento 
mais profundo.
      Felicite era igual a tantas outras mulheres que haviam permanecido sob sua proteo, por diferentes perodos de tempo; dias, semanas, meses. . .
      Como fora inteligente a ponto de descobrir que um nobre no gosta apenas de carinhos, mas de conforto tambm, ela se mantinha como sua amante h mais de um 
ano.
      Utilizando-se de astcia, convencera Droxford a tir-la da casa pauprrima onde vivia e aloj-la em uma residncia decente, num bairro melhor situado.
      Apesar de ele no lhe ter cedido uma de suas luxuosas casas de aluguel, localizadas nos bairros nobres de Londres, Felicite se dera por satisfeita com o pequeno 
sobrado em Eaton Terrace.
      Decidida a criar um ambiente aconchegante e convidativo, ela havia contratado uma cozinheira capaz de preparar os pratos favoritos de Droxford e uma criada 
que cuidava da casa e servia as refeies com etiqueta.
       bem verdade que, devido a no alimentar qualquer iluso de conquist-lo, ela no se mostrara nem um pouco enciumada ao descobrir o romance de Alton com Georgette 
Sibley. Em contrapartida, ficara terrivelmente frustrada e nervosa ao ser informada do casamento pelo prprio conde.
      Para deix-la um pouco mais alegre e conformada, ele a levara a Bond Street, onde lhe comprara uma valiosa jia de brilhantes.
      Entretanto, nem os diamantes conseguiram consolar Felicite quando Droxford deixou de visit-la com freqncia.
      Desde ento, procurou se manter informada de tudo que acontecia na alta sociedade, se roendo de raiva ao descobrir a grande quantidade de vestidos que Karina 
havia comprado, assim como sua vitria em Ascot, que havia inspirado o conde a presente-la com um estbulo.
      Por todos esses motivos, Felicite, furiosa, escrevera uma carta em que frisava querer conversar com Alton urgentemente.
      Talvez, se lorde Wyman no a tivesse encorajado, ela desistisse da idia, lembrando que o conde detestava receber cartas de qualquer espcie, quanto mais do 
tipo que lhe censurava alguma atitude, ou lhe exigia um comportamento diferente.
      De fato, ao ler aquela carta, Droxford,. percebendo que Felicite comeava a aborrec-lo, conclura que havia chegado a hora de acabar com o pouco que j existia 
entre eles.
      Afinal andava cansado daquela mulher pois, apesar de bonita, sua conversa era bastante limitada. Alm do mais, a beleza do seu corpo e a maneira profissional 
com que ela fazia o amor j no constituam razes fortes o suficiente para mant-la ao lado.
      Em geral, os homens rompiam com as amantes atravs de uma simples carta ou mandando um secretrio que os substitusse no ltimo encontro. Droxford, porm, 
nunca mandaria um terceiro resolver seus problemas particulares e jamais enviaria uma simples carta rompendo uma ligao que, afinal de contas, tinha mais de um 
ano.
      Dessa maneira, decidiu que jantaria com ela no sobrado e gentilmente colocaria um fim naquele relacionamento.
      Seria bastante generoso e lhe daria dinheiro suficiente para cobrir todas as suas despesas mais imediatas, embora desconfiasse de que  logo ela encontraria 
outro amante que o substitusse, sustentando-a. Sem contar que ele j pagara um preo muito alto pelas horas de paixo que ela lhe havia proporcionado: uma carruagem 
com cavalos excelentes, jias carssimas, inmeros vestidos e altas somas, das quais ela nunca lhe prestara contas. Em outras, palavras, Felicite no podia fazer 
queixas!
      Felizmente Karina era diferente daquelas duas megeras: ele constatou ao lembrar a expresso triste dos olhos dela, quando lhe dissera que no jantaria em casa 
naquela noite.
      "Amanh jantaremos juntos", ele se prometeu, surpreso ao constatar o quanto estava ansioso para ficar a ss com a esposa.
      Pelo menos com ela poderia conversar a respeito de seus pronunciamentos na Cmara dos Lordes, ou sobre os novos cavalos que ela queria comprar. . .
      Imerso nessas idias, sobressaltou-se quando a carruagem estacionou em frente ao discreto sobrado.
      Com movimentos decididos, saltou e bateu  porta, dizendo ao cocheiro, assim que a criada atendeu:
       - Volte s onze e meia para me buscar.
      - s onze e meia? - o cocheiro perguntou, intrigado.
      -Exatamente! - confirmou Droxford, entrando.
      O cocheiro cocou a cabea e trocou um olhar cheio de entrelinhas com a criada, antes que a porta tornasse a se fechar.
      Afinal, depois de tanto tempo servindo Droxford e Felicite, eles j estavam habituados ao fato de que, quando o patro aparecia durante a noite no sobrado, 
s saa na manh seguinte. . .
      Assim que chegou ao pequeno vestbulo, o conde parou  espera de que a criada o conduzisse  saleta ntima, localizada no andar superior.
      A pequena sala, muito bem decorada e aconchegante, encontrava-se aquecida pela lareira.
      Felicite, deitada sobre o sof numa posio sedutora, soltou um pequeno grito de prazer quando a porta se abriu, e correu para Droxford, abraando-o entusiasmada.
      Estranhamente, ele sentiu um repentino mal-estar, como se aqueles gestos, antes to agradveis, de repente se tornassem vulgares e grosseiros.
      Essa sensao serviu para reforar ainda mais sua convico de que seu romance com Felicite chegara ao fim, e ela no significava mais nada em sua vida.
      -  Alton! H quanto tempo, meu querido! Como pde ser to cruel comigo? - ela perguntou, num tom que pretendia ser sensual.
      - Tenho estado muito ocupado, Felicite - replicou Droxford, laconicamente.
      Em seguida, ele se libertou dos braos que o seguravam e se acomodou em uma cadeira de assento individual, o que a impediria de se sentar ao seu lado.
      - Tenho ouvido muitas coisas sobre sua mulher, e percebi que voc j no dispe de tempo para os seus velhos amores!
      - Apesar de eu saber que voc no vai acreditar, garanto que a Reforma Bill tem me mantido ocupado durante todos os minutos.
      -  Bem, o importante  que voc veio me ver. Oh, Alton, nem imagina como esperei por esta noite!
      Droxford suspirou aliviado ao ouvir a criada abrir a porta para avisar que o jantar estava servido, livrando-o daquela conversa um tanto embaraosa.
      Os pratos que compunham a refeio eram os preferidos de Droxford, mas lhe pareciam insossos e sem graa. Da mesma forma era o vinho, que fora levado  mesa 
na temperatura ideal e tambm parecia, no entanto, no ter qualquer paladar.
      Aborrecido, Alton se perguntava o que estava acontecendo com ele. Por que as coisas comeavam a desagrad-lo tanto?
      Imaginando que o vinho o ajudasse a melhorar o humor, permitiu que a criada lhe enchesse a taa vrias vezes, percebendo que Felicite o acompanhava com prazer.
      Antes do final da refeio, porm, ele quase no suportava a dor de cabea que o atormentava, fazendo-o se irritar com Felicite, que simplesmente no parava 
de falar, fazendo o possvel para se mostrar alegre e gentil.
      Tentando agrad-lo, a mulher falava e ria sem parar, usando trejeitos que na certa considerava charmosos, mas que Droxford j no conseguia suportar. Ser 
que naquela noite Felicite estava falando alm do normal?
      No, ela agia como sempre, Alton  que tinha mudado e no conseguia mais suportar a sala de jantar, nem a forma como a criada servia a mesa e tampouco o perfume 
pesado das gardnias.
      O jantar, elaborado e montono, felizmente chegou ao fim. Enquanto bebia a ltima taa de vinho, Droxford analisava se aquele no seria o momento ideal para 
dizer a Felicite que aquela era a ltima vez em que jantavam juntos.
      Conteve-se, temendo que a criada pudesse escutar alguma coisa da cozinha e decidiu esperar at voltarem para a saleta ntima, onde estariam completamente sozinhos.
      O nico problema era que Felicite continuava a falar, desfiando um verdadeiro rosrio de fofocas e comentrios picantes acerca de inmeras pessoas do White's 
Club, empenhada em faz-lo rir e se divertir um pouco.
      O mximo que ela conseguiu foi lhe despertar um pouco de pena, o que reforou sua inteno de ser bastante generoso ao preencher o cheque que lhe daria como 
ltimo presente.
      Logo depois do caf, os dois voltaram  saleta ntima. Assim que entraram, ela falou com voz emocionada:
      - Finalmente estamos a ss.
      - Preciso lhe dizer uma coisa da maior gravidade.
      Antes que ele pudesse continuar Felicite o interrompeu, retrucando de maneira rude:
      -  Quando veio aqui no dia seguinte ao seu casamento, me garantiu que isso no iria mudar nosso relacionamento. . . Pois bem, pensa que no percebo que voc 
anda diferente comigo? - Ela fez uma pausa teatral e depois continuou: - Sei que vira e mexe voc se interessa por outras mulheres. Tambm no desconheo seus romances 
com lady St. Helier, com a condessa de Melchester e atualmente com lady Georgette Sibley.
      Droxford quis protestar, mas ela insistiu:
      -  No, no! No me interrompa! Quero lhe dizer tudo o que tenho pensado nesses ltimos dias!
      Na certa, Felicite reprimira seus sentimentos por tanto tempo que naquele instante colocava tudo para fora, sem perceber que estava indo longe demais. Talvez 
o vinho que tomara no jantar tivesse contribudo para faz-la desabafar, esquecendo que no era conveniente falar nas outras mulheres da nobreza com as quais seu 
amante havia se envolvido. Completamente fora de si, ela foi derramando suas queixas, at chegar em Karina.
      - A voc se casou. Casou sem me comunicar! Ah, sim!  verdade que voc veio me contar no dia seguinte, impedindo que eu descobrisse atravs dos jornais. . 
. Por acaso, voc se perguntou o quanto sofri? Como fiquei chocada com a notcia?
      - Agora escute, Felicite. . .
      Droxford comeou a falar, mas foi novamente interrompido.
      - Desde ento, voc nunca mais veio me ver! Tenho ficado  sua espera em vo, dia e noite. Nem ao menos me mandou um bilhete! Voc se esqueceu de mim?
      - J lhe disse que estive muito ocupado!
      - Ocupado com o qu? Com uma jovenzinha odiosa que de uma hora para outra se tornou um dos sucessos da alta roda? - Depois de respirar fundo, ela continuou 
a gritar, ignorando a expresso de raiva que surgia no rosto do conde: - Voc nem imagina o que ela faz s suas costas, no  mesmo? No percebe que sua querida 
esposa o desonra?
      - Cale a boca! Voc  muito audaciosa, Felicite! - Ele se levantou e acrescentou com voz fria:.- Como se atreve a falar sobre minha mulher dessa maneira? Agradeo 
as noites de prazer que voc me proporcionou, mas  bom saber que o nosso romance termina aqui!
      -  Voc quer me abandonar?! - gritou Felicite, comeando a chorar. - Oh, no, Alton! No pode ser verdade! Voc no pode fazer isso comigo!
      - Deixe de dramas e me escute. Voc sabe to bem quanto eu que casos como o nosso terminam cedo ou tarde.
      - Mas eu o amo! No vou deix-lo ir embora! Temos passado bons momentos juntos e voc sempre disse que gostava de vir aqui, que eu o atraa mais do que qualquer 
outra mulher! Voc no pode me deixar! No vou permitir, no vou!
      Seu tom de voz era to teatral que Droxford no conseguia acreditar na sinceridade dos sentimentos dela. Por outro lado, detestava tais cenas e queria encerrar 
aquela discusso o mais rpido possvel.
      Olhou para o relgio de parede e, ao observar que eram apenas onze horas da noite, se arrependeu por ter mandado o cocheiro vir apenas s onze e meia.
      Estava considerando a hiptese de pedir  criada que fosse procurar uma carruagem de aluguel, quando Felicite se jogou em seus braos, gritando:
      - No me deixe! Voc no pode ir embora! No esta noite, no agora!
      Nesse instante, o barulho de fortes pancadas  porta de entrada foi ouvido nitidamente, e ele a afastou de si, anunciando com evidente alvio:
      - Esto batendo  porta, l em baixo.
      - E o que tem isso, Alton querido? No se preocupe.
      Em seguida, o rudo de vozes alteradas chegou at seus ouvidos, fazendo-os se entreolharem espantados.
      - Desculpe-me, madame - a criada disse, entrando no ambiente sem ao menos se anunciar. - Sei que no devia incomod-los, mas tem um homem l em baixo querendo 
conversar com o conde. Ele me falou que era seu mordomo, senhor.
      - Newman! Descerei imediatamente.
      - No, no, Alton querido! No deve ser nada de importante!
      Antes que ela conclusse a frase, Alton j atravessava a sala e descia a escada apressado para encontrar Newman no vestbulo, uma expresso preocupada no rosto.
      - O que aconteceu?
      Com medo de que a criada pudesse escutar a conversa, ele conduziu o mordomo  sala de jantar, onde os candelabros permaneciam acesos.
      Assim que se viu a ss com o patro, o mordomo informou, num tom nervoso:
      -  a condessa, senhor. Ela voltou para casa em pssimo estado!
      - Voltou para casa, como assim? A condessa no pretendia sair esta noite!
      - Mas saiu, senhor conde. Foi jantar com uma tal de lady Mayhew, em Hampstead. Porm, voltou a p, aflita, e me pediu que viesse procur-lo com a mxima urgncia!
      - Explique melhor o que aconteceu.
      - Juro que nem fao idia, senhor. No entanto, se permite um palpite, acho que o senhor deve voltar imediatamente. A condessa me pareceu bastante atormentada!
      - Vou j para casa!
      No querendo parecer indelicado, ele tornou a subir  saleta para se despedir de Felicite.
      - Houve algo de grave na minha casa. Desculpe, mas preciso me retirar imediatamente.
      -  Mas voc no pode ir,  impossvel! So apenas onze horas, Alton querido! Voc precisa ficar um pouco mais comigo.
      -  Sinto muito...
      -  Mas eu insisto! - Ela o interrompeu, puxando-o pelo brao, o que o deixou profundamente irritado. - Tenho as minhas razes para no deix-lo partir to 
cedo.
      -  Controle-se - recomendou Droxford, com firmeza. - Preciso me retirar.
      -  Voc no pode ir embora, Alton, no pode me deixar agora!
      Sem lhe dar ateno, Alton a empurrou para um canto e saiu do quarto, ainda ouvindo seus gritos enquanto descia as escadas. No se dando sequer ao trabalho 
de lanar um ltimo olhar ao sobrado, ele caminhou apressado at a carruagem, onde Newman o esperava ao lado do cocheiro.
      Imediatamente o veculo se ps em movimento, provocando-lhe uma sbita sensao de alvio por ter se livrado da discusso com Felicite, que ao que tudo indicava 
ia se transformar num melodrama completo, o que seria extremamente desagradvel.
      Na manh seguinte, logo cedo, lhe enviaria um cheque polpudo para ajud-la a se curar mais depressa da tristeza.
      Ainda lhe parecia incompreensvel o comportamento da ex-amante. Por que Felicite fizera tanta cena, se sabia que aquele relacionamento no seria eterno? Com 
aquela demonstrao vulgar de cime ela s conseguira aumentar a distncia que j havia entre eles, fazendo-o desejar nunca mais v-la pela frente.
      Dando de ombros, ele decidiu afastar essas preocupaes da cabea, concentrando-se apenas na lembrana da figura frgil da esposa. O que teria acontecido com 
Karina? Quem era lady Mayhew, de quem nunca ouvira falar?
      Assim que a carruagem estacionou diante da manso, ele saltou e entrou apressado no vestbulo, onde Newman, que o seguira, informou:
      - A condessa est na biblioteca, senhor.
      Droxford atravessou as pesadas portas de mogno trabalhado, ansioso por encontrar a esposa e decifrar logo aquele mistrio.
      Parada no meio da biblioteca, plida e trmula, Karina nem se moveu quando o marido perguntou, aflito:
      -  O que houve? - Como ela continuasse imvel, os olhos arregalados, uma expresso de terror, ele insistiu: - Karina, responda. Por que voc est assustada 
desse jeito?
      - Provoquei um. . . escndalo terrvel! Eu no queria isso. Na verdade... nem sei como tudo aconteceu! Enquanto esperava por voc, percebi que errei ao mat-lo 
daquela forma... Eu podia ter apontado para as pernas. . . Claro, devia ter feito isso! Mas no, eu o matei! Alton, todos ficaro sabendo. Perdi meu broche de esmeraldas 
da coleo da famlia Droxford, com as iniciais gravadas. Caiu do meu vestido quando ele tentou me beijar!
      Comovido pela aflio da esposa, Droxford a abraou gentilmente e a conduziu at o sof, dizendo com calma:
      - Sente-se e conte direitinho o que aconteceu, Karina. No entendi uma palavra do que voc falou.
      - Foi lorde Wyman. Ele preparou uma armadilha, e acabei indo parar na casa dele. Ele queria me violentar e achou que eu no lhe contaria nada porque se voc 
o desafiasse para um duelo iria ser o maior escndalo, alm de no adiantar nada!
      - Isso  verdade?
      - Lgico que sim. Ento. . . eu atirei nele! Precisei mat-lo! Acertei no corao e. .. ele morreu! S agora percebo que agi como uma louca... Eles vo me 
prender?
      Droxford segurou as mos de Karina entre as suas com delicadeza, tentando lhe transmitir tranqilidade e segurana.
      -  Ningum vai prend-la. Mas preciso saber dessa histria desde o incio. Algum a viu sair da casa dele? Por que foi at ele e quem sabia de sua presena 
l?
      - S lady Mayhew. Mas ela no  lady coisa nenhuma,  uma atriz, que ele contratou para me levar at l!
      - Conte-me tudo desde o instante em que eu a deixei. 
      Vagarosamente, Karina relatou o aparecimento da mulher, o jantar em Hampstead, assim como sua chegada  casa de lorde Wyman.
      Explicou tambm como fugira da casa dele e o quanto estava segura de que nunca descobririam que ela fora a assassina, at perceber que perdera o broche de 
esmeraldas dentro da sala do crime.
      - Todo mundo vai descobrir. . . Sinto-me to arrependida por ter causado esse escndalo!
      -  No haver nenhum escndalo! - Em seguida ele se levantou e acrescentou com firmeza: - Quero que voc torne a me explicar por onde fugiu da casa de Wyman.
      - O que voc pretende fazer?
      - Vou buscar o seu broche.
      Depois de ouvi-la relatar a fuga pela segunda vez, ele lhe beijou as mos carinhosamente, e saiu apressado da biblioteca.
      - A carruagem ainda est l fora, Newman?
      - Sim, senhor. Imaginei que seria necessrio chamar um mdico.
      - No vai ser preciso, mas leve uma taa de vinho para a condessa e insista para que ela beba um pouco. Acenda a lareira e no lhe faa perguntas!
      - Pode deixar, senhor!
      Assim que se viu em Park Street, Alton pediu ao cocheiro que parasse e o esperasse ali. Em seguida desceu e se dirigiu  casa de Wyman, contornou-a vagarosamente 
e entrou pelo porto dos fundos, que permanecia entreaberto. Com extremo cuidado, passou pelos estbulos at encontrar a trilha da qual Karina lhe falara.
      Em poucos minutos chegou  sala e, espiando pela janela, que continuava escancarada, observou o corpo de Wyman estendido no cho, aparentemente morto.
      Com extrema agilidade, saltou para o interior do cmodo e olhou na direo em que Karina acreditava ter perdido o broche.
      De fato, a jia permanecia ali, encostada  porta! Satisfeito ele a apanhou, guardando-a no bolso.
      Em seguida se ajoelhou ao lado do corpo e lhe tomou o pulso. Para seu espanto, uma pulsao fraca indicava que Wyman no havia morrido.
      Numa frao de segundos, ele sacou a pistola, que sempre carregava consigo quando saa  noite, deu um tiro no fogo da lareira e, removendo o pedao da taa 
da mo direita de Wyman, colocou a arma em seu lugar.
      Com cuidado retirou a chave do bolso de Wyman e destrancou a porta da sala, antes de fazer o trajeto de volta para a carruagem. Aps subir no veculo, ordenou 
ao cocheiro que o levasse  entrada principal da casa de Wyman.
      Apesar do adiantado da hora, o mordomo no tardou a vir atend-lo, com visvel m vontade, informando:
      - Lorde Wyman no se encontra em casa.
      -  impossvel! Na certa ele est  minha espera, pois combinamos de cear juntos.
      - Sinto muito... mas meu patro no est em casa.
      - Sou o conde de Droxford. Quer fazer o favor de anunciar minha chegada a lorde Wyman?
      Por um momento o mordomo hesitou, sem saber que atitude tomar. Porm, como Droxford j havia entrado no vestbulo, resolveu parar de mentir.
      - Desculpe-me, mas lorde Wyman no me avisou de que o senhor viria para a ceia.
      - Ele deve ter esquecido. Em todo caso garanto que no ficar surpreso ao me ver.
      Pouco convencido, o homem deu de ombros, dirigindo-se para um corredor e indicando a Droxford que o acompanhasse.
      Atravessaram toda a manso at chegar diante de uma porta entalhada, diante da qual o mordomo se deteve, indeciso. Sem dvida, Wyman avisara de que no queria 
ser importunado de maneira alguma.
      Apesar de relutante, o homem bateu timidamente  porta. Como no obtivesse resposta, ele apurou os ouvidos e tornou a chamar. Nada!
      - Talvez lorde Wyman tenha adormecido - sugeriu Droxford, com ar despreocupado.
      Desconfiado, o criado destravou a maaneta, soltando um grito de horror ao se deparar com o homem estendido no cho.
      - Meu Deus! - exclamou Droxford, fingindo surpresa. - Deve ter acontecido um acidente!
      Olhando alternadamente para a pistola na mo de Wyman e para a mancha de sangue em seu peito, o mordomo informou:
      - O patro levou um tiro. O que podemos fazer?
      - Mande algum procurar um mdico. No o movimente e cubra-o com um cobertor, colocando uma almofada sob a cabea.
      - Ele no... morreu?
      - No - replicou Droxford, segurando-lhe o pulso. - A pulsao est fraca mas no parou. Creio que a bala no perfurou o corao. Foi um acidente. - Droxford 
fez uma pausa e depois repetiu, com convico: - Um acidente, entendeu?
      -  claro,  claro!
      Com um gesto, Alton lhe indicou que se retirasse a fim de providenciar socorros. Depois deu mais uma olhada, verificando se Karina no esquecera mais alguma 
coisa, e saiu calmamente.
      
      J na manso, Droxford atravessou o vestbulo e foi para a biblioteca, onde Karina estava sentada de frente para a lareira. Logo que o viu chegar ela se levantou, 
parecendo ainda bastante nervosa.
      Tentando tranqiliz-la, ele sorriu, e, tomando-lhe a mo, depositou-o broche de esmeraldas entre seus dedos trmulos.
      - O broche! Voc conseguiu! Oh, voc  incrvel, Alton!
      - Encontrei-o exatamente no lugar que voc disse. A propsito, Wyman no morreu.
      - No?!
      - Voc quase o matou, mas o bandido conseguiu escapar desta vez! 
      Exausta pelo esforo das ltimas horas, Karina sentiu que lhe faltavam foras para continuar de p e desmaiou.
      Antes que ela casse no cho, Droxford a amparou, carregando-a nos braos atravs dos corredores at o quarto dela.
      Ainda se encontravam na escada quando Karina, semiconsciente, se deu conta de que braos firmes e seguros a carregavam. Sorriu, sentindo-se livre de todos 
os perigos do mundo e, com um leve murmrio, recostou a cabea no ombro de Droxford.
      Newman, que subira os degraus na frente dos patres, abriu a porta do quarto dela para que Droxford entrasse e se retirou em seguida, indo em busca da criada 
particular da condessa.
      Enquanto isso, Alton a depositou com cuidado sobre a cama e se ps a contempl-la com ternura.
      Apreensiva, ela abriu os olhos, uma leve expresso de dvida no rosto.
      -  verdade - reforou Droxford, com um sorriso. - Wyman no morreu! E, mesmo que o tivesse matado, as suspeitas no recairiam sobre voc.
      Dizendo isso, ele a encarou por um longo momento. Depois, curvando-se um pouco, beijou-a docemente nos lbios.
      Mas antes que Karina conseguisse foras para abra-lo, Droxford saiu do quarto, apressado...
      
      CAPITULO X
      
      - Boa noite, condessa. Durma bem - disse Martha, antes de sair do quarto, fechando a porta atrs de si.
      A criada tinha ajudado Karina a se trocar, lhe dera um copo de leite morno adoado com mel e, depois de lhe ajeitar as cobertas, apagara os candelabros, deixando 
que o quarto mergulhasse em completa escurido.
      Revirando-se na cama, sem conseguir conciliar o sono, Karina pensava na sensao de bem-estar e segurana que a invadira, quando Droxford a carregara at o 
quarto e a beijara. Agora, sozinha com seus pensamentos, j no podia esconder de si mesma a certeza de que o amava!
      Na verdade se apaixonara por ele desde a primeira vez em que o vira, embora fosse impossvel reconhecer isso no dia em que descera da rvore e o pedira em 
casamento, ou mesmo quando ele fora  sua casa, resolvido a afast-la da vida sofrida ao lado do pai.
      E, para ser sincera, mandara-o embora do quarto na noite de npcias por temer a fora do sentimento que j lhe dominava o corao.
      Sem dvida, se o tivesse deixado toc-la, simplesmente se abandonaria s suas carcias sem se preocupar se ele a amava ou no!
      Instintivamente, tocou os lbios com as pontas dos dedos, certificando-se de que s agora descobria o significado real do beijo, um contato doce e ntimo, 
capaz de fazer o sangue lhe fugir das veias, e nada semelhante  brutalidade que havia em Guy ou William.
      - Amo Alton! Eu o amo! - murmurou, afundando o rosto no travesseiro.
      Mas nunca poderia falar do seu amor para Droxford, pois ele no sentia nada por ela!
      No mnimo, Alton a achava irritante, a julgar pelo modo como se zangara ao saber da corrida com a marquesa de Downshire, ou como a proibira de tornar a se 
encontrar com sir Guy.
      Naquela noite mesmo ele se recusara a jantar em casa, preferindo a companhia da amante. Na certa os braos de Felicite Corwin eram bastante agradveis.
      Que iluso! Jamais um homem, cercado por tantas mulheres experientes, prestaria ateno nela, uma simples jovem de provncia, sem qualquer sofisticao.
      Uma esposa submissa e tolerante! Essas palavras comearam a ecoar em sua cabea, deixando-a desesperada com a perspectiva de que Droxford nunca a amasse. Assim, 
s lhe sobrava uma soluo: ir embora de Londres definitivamente.
      Como ficar naquela casa, vendo o homem que amava se encontrar com outras mulheres quase todos os dias? Se permanecesse ao lado dele, seria impossvel continuar 
escondendo o amor desesperado que sentia.
      E, caso o marido tentasse beij-la novamente, no lhe restavam dvidas de que seria impossvel resistir. Permitiria que Alton no s a beijasse, como que a 
possusse... Depois iria sentir-se humilhada por ter feito amor com algum que no lhe dava importncia.
      "Preciso ir embora... Preciso ir embora!", pensou, sentindo as lgrimas escorrerem pelo rosto.
      
      Ainda acordada quando a luz da manh comeou a iluminar as copas das rvores do Hyde Park, Karina se levantou e abriu as cortinas, deixando a suave claridade 
do dia invadir o quarto.
      Em seguida se acomodou  escrivaninha, na tentativa de escrever uma carta para Droxford. Depois de alguns minutos, uma pilha de papis amassados denunciava 
que Karina tivera bastante dificuldade antes de conseguir transformar em palavras tudo o que queria dizer.
      No momento em que concluiu, tocou a campainha, chamando Martha, que entrou no quarto, toda sorridente.
      - Acordou cedo, condessa! Sente-se melhor?
      - No. Mas o que sinto nada tem a ver com a minha sade. Escute, desejo lhe pedir um favor e espero que isso seja mantido em segredo, entendeu?
      - Claro, farei tudo o que mandar.
      - timo. Sabia que poderia confiar em voc. Quero que v a uma loja que aluga carruagens, em Piccadilly, chamada Estalagem Urso Branco. Pea para mandarem 
uma carruagem de dois cavalos para mim, s onze e quinze.
      - Por que no usa sua prpria carruagem, senhora?
      - Pretendo deixar Londres e prefiro que ningum descubra para onde vou. Posso ficar tranqila de que voc no contar nada aos outros criados?
      - Prometo que no direi nada, senhora.
      -  timo! Agora v, Martha, e depois volte para arrumar algumas coisas para mim, pois quero levar alguns dos meus vestidos mais simples.
      - Est bem, senhora. Mas tem certeza de que est condies de viajar?
      - Claro que sim. Obrigada, Martha.
      - Pedirei a outra criada que lhe traga o caf da manh. Assim posso sair j para Piccadilly e estar de volta logo. Est bem, senhora?
      - Sim. Muito obrigada mais uma vez, Martha.
      Assim que a porta foi fechada, Karina se deitou novamente, embora soubesse que no conseguiria dormir.
      Minutos mais tarde, outra criada lhe trouxe o caf da manh e um jornal, que Karina abriu casualmente a fim de verificar se havia sido publicada alguma nota 
sobre Merlin.
      Virava as pginas distraidamente e se assustou ao ler a manchete: "Acidente fatal com lorde Sibley".
      O texto dizia que uma charrete transportando lorde Sibley colidira com a carruagem do Correio Real e tinha capotado diversas vezes antes de cair num buraco. 
O velho nobre morrera antes de receber qualquer auxlio mdico.
      De repente, uma idia atravessou a mente de Karina. Lady Georgette Sibley estava livre! Livre para se casar com o homem que amava e por quem era amada! Livre 
para se tornar a verdadeira condessa de Droxford!
      Deprimida, Karina se levantou e foi at a escrivaninha, abrindo a carta e acrescentando mais algumas linhas.
      Esforando-se para manter o autocontrole, ela atravessou o quarto e tocou a campainha, chamando uma criada que trabalhava para a famlia Droxford h mais de 
vinte anos.
      - Pois no, condessa. . .
      - O sr. Wade j deve estar no escritrio. Pea-lhe que me envie cem libras, pois preciso pagar algumas contas esta manh.
      - Sim, condessa.
      Essa quantia seria suficiente para cobrir suas primeiras necessidades. Futuramente escreveria a Alton pedindo-lhe um talo de cheques, para poder movimentar 
a conta que ele lhe abrira com o dinheiro da vitria de Merlin.
      Ainda pensava a respeito quando a criada voltou, lhe entregando um envelope com a quantia pedida.
      - Obrigada, Anne. Agora pode se retirar.
      - Com licena...
      Novamente a ss, Karina se acomodou em uma cadeira, afundando o rosto entre as mos.
      "Oh, meu Deus, eu preferia estar morta a agentar este sofrimento a vida toda!", pensou, as lgrimas lhe escorrendo pelas faces.
      A caminho de Ascot em sua carruagem de luxo, Droxford sentia-se inquieto, sem conseguir identificar o motivo exato de sua apreenso.
      Tentou memorizar tudo o que fizera antes de sair de casa, s onze da manh, mas nem assim identificou a causa de tamanha irritao.
      Quase no havia dormido durante a noite, perseguido pela lembrana da expresso assustada e desprotegida do rosto de Karina e do momento em que ela aconchegara 
a cabea contra seu ombro.
      Porm, a lembrana dos doces lbios de Karina era a recordao mais perturbadora de todas. Seguindo o impulso de proteg-la, ele cedera  tentao de beij-la, 
descobrindo por fim o quanto ela o atraa.
      Era difcil admitir que desejara tom-la nos braos e beij-la muitas vezes mais. . . Inquieto, ele tentou mudar o rumo de seus pensamentos, se concentrando 
em Felicite.
      Quando Karina lhe contara que Felicite e Wyman tinham preparado juntos o srdido plano da noite anterior, ele ficara to furioso com a ex-amante que seu primeiro 
impulso tinha sido o de no lhe enviar dinheiro.
      Para piorar, ele ainda no conseguira perdo-la pelas insinuaes maldosas que tecera sobre Karina, logo aps o jantar, embora as atribusse apenas ao excesso 
de vinho.
      A maioria das pessoas normalmente tinham dificuldades para controlar a lngua quando bebiam um pouco alm da conta, falando besteiras e exagerando seus sentimentos. 
Sabendo disso, Droxford resolveu ignorar os comentrios venenosos de Felicite, mas nunca a perdoaria pela cumplicidade com Wyman naquele horrvel plano de desonrar 
Karina.
      Depois de ter passado a noite imerso nesses pensamentos, Droxford se sentara  escrivaninha e preenchera um cheque cuja soma correspondia  metade do que inicialmente 
pretendia dar a Felicite. Deixou-o sobre a escrivaninha de Robert, recomendando-lhe que o enviasse junto com as demais correspondncias.
      Aliviado por ter resolvido seus ltimos compromissos com a ex-amante, Droxford abriu o jornal e imediatamente se deparou com a notcia do acidente com lorde 
Sibley.
      Sua primeira reao foi de alvio. Com Georgette de luto, no seria obrigado a acompanh-la aos bailes, reunies e acontecimentos sociais... J estava cansado 
daquele romance e tinha perdido todo o entusiasmo que ela lhe despertara logo no primeiro encontro, num dos bailes da famlia Richmond.
      Naquela ocasio, a conversa discreta ao lado de outros convidados, alm da troca de olhares significativa e promissora, tinham sido indcios seguros do fascnio 
que comeara a existir entre eles, fortalecido a cada encontro, pois Georgette era uma das poucas mulheres da nobreza capaz de manter uma relao de amizade com 
outro homem, cheia de olhares sensuais e palavras maliciosas.
      Georgette, pela primeira vez numa longa seqncia de pequenos casos extraconjugais, encontrara um homem capaz de lhe despertar o desejo e s ficou tranqila 
quando conseguiu transform-lo em seu amante.
      Droxford, por sua vez, deixou-se levar por ela, embora nunca se tivesse apaixonado. Desfrutava de seu corpo e de sua companhia com prazer at que, depois de 
casado, as cenas de cime que ela fazia ao se encontrarem comearam a aborrec-lo.
      Pelo menos agora que o marido havia morrido, ela ficaria algum tempo afastada da sociedade e, quando reaparecesse, Droxford j no estaria por perto, muito 
menos disposto a ganhar um beijo ou um abrao ousado num canto discreto de algum palcio.
      Por fim, estava livre! Nunca mais se envolveria com mulheres como Georgette ou Felicite! Nada daquelas cenas de cime, nem de perfume de gardnia ou encontros 
clandestinos no meio da noite!
      Com um suspiro de alvio, lamentou as noites mal-dormidas, quando percorria quilmetros para se encontrar com uma amante, e era obrigado a se levantar da cama 
quente durante a madrugada para enfrentar a noite fria,  fim de evitar que algum marido o surpreendesse nos braos da esposa traidora!
      De repente, seu pensamento havia voltado para Karina e para a sensao agradvel que experimentara ao carreg-la at o quarto, beijando-lhe os lbios.
      Sem pestanejar, Droxford se levantara da poltrona e subira correndo para o quarto de Karina. Porm, quando ia abrir a porta, Martha havia surgido, dizendo 
baixinho:
      -  A condessa est descansando, senhor. Ela no pegou no sono durante a noite e creio que seria melhor deix-la descansar um pouco.
      -  Sim,  claro. Quando ela acordar transmita o meu bom-dia e diga-lhe que a espero para o jantar dessa noite.
      -  Darei o recado, senhor.
      -  Obrigado.
      Dito isso, Droxford se virou para descer ao trreo, observando dois criados que seguiam em direo  escadaria secundria, dando a impresso de ter sado do 
quarto de vestir de Karina.
      No prestara muita ateno quele detalhe, mas agora, a caminho de Ascot, vinha-lhe  mente que os dois criados carregavam um ba!
      Por que no usaram a escadaria principal? O que havia dentro do ba? Bem, talvez Karina fosse levar roupas velhas para algum necessitado...
      De repente, lembrou um outro detalhe que havia passado despercebido. Quando Martha sara do quarto de Karina, havia luz l dentro... Se a esposa estava dormindo, 
por que ento a criada abrira as cortinas?
      "Alguma coisa est errada", pensou Droxford, sentindo seu corao se acelerar.
      No instante seguinte, preso de um terrvel pressentimento, ele gritou para o cocheiro:
      - Vamos voltar para Londres!
      - O que aconteceu? H algo de errado com a carruagem?
      - No, no! Esqueci uma coisa importante! 
      A carruagem deu meia-volta na estrada e, como fazia pouco tempo que tinham sado, Droxford calculou que chegariam em casa por volta do meio-dia.
      L ele arranjaria uma desculpa plausvel e insistiria em ver Karina; de qualquer maneira, antes de partir novamente.
      Ainda faltavam dez minutos para o meio-dia quando o rudo de rodas alertou os criados que se encontravam no vestbulo. A porta foi aberta de imediato, antes 
mesmo que Droxford chegasse ao vestbulo, onde Newman aguardava com uma expresso inquieta no olhar.
      - Quero falar com a condessa. Ela j deve estar acordada.
      - A condessa j partiu. Pensei que o senhor soubesse dos planos dela.
      - Que planos? Para onde ela foi?
      - No sei. A condessa pediu uma carruagem de aluguel que chegou minutos depois que o senhor partiu para as corridas.
      - Uma carruagem de aluguel?
      - Exato! Lady Droxford deixou um bilhete para o senhor, eu o coloquei sobre sua escrivaninha.
      Querendo evitar que os criados ouvissem a conversa, Droxford foi para a biblioteca, seguido por Newman. E, depois que o mordomo fechou a porta, perguntou, 
furioso:
      - Onde voc estava com a cabea para deixar a condessa viajar numa carruagem de aluguel? Aqui no estbulo no faltam carruagens.
      - Eu sei, tambm fiquei surpreso, senhor... Talvez deva inform-lo que, mais ou menos quinze minutos depois que a condessa partiu, sir Guy Merrick esteve aqui.
      - Guy?
      Sim, senhor. Ele me perguntou se eu sabia para onde a condessa tinha ido... Desconfio de que um dos criados, um homem com quem nunca simpatizei, recebia gorjetas 
de sir Guy para inform-lo dos movimentos da condessa. Tenho certeza, senhor, de que foi dessa forma que sir Guy descobriu que ela havia partido.
      - Mas ele no sabe para onde ela foi - comentou Droxford, como se falasse consigo mesmo.
      - No, senhor, mas ele perguntou onde a carruagem havia sido alugada. E James, sem pedir permisso, lhe contou que tinha sido na Estalagem Urso Branco.
      Dispensando-o com um gesto de cabea, Droxford se ps a abrir a carta. Em seguida, ele fitou o papel branco por alguns instantes, como se no conseguisse compreender 
o que estava escrito.
      Finalmente, leu:
      "Alton,
      Depois de todos os problemas em que o envolvi, achei melhor abandonar Londres e me estabelecer no campo. Estarei em segurana e imploro que no me procure, 
nem tente me encontrar, pois pretendo voltar assim que me sinta descansada. S posso lhe pedir desculpas pela maneira como tenho me comportado e rezar para que possa 
obter o seu perdo.
      Da sua humilde esposa:
      Karina."
      A mensagem prosseguia, mas de forma contraditria:
      "P.S.: Acabo de saber pelo jornal que lorde Sibley morreu. Entendo perfeitamente o seu desejo de estar livre para se casar com Georgette Sibley, que  a dona 
do seu corao... Quero a sua felicidade, Alton. Acho melhor eu sumir de vez e dentro de trs meses voc anunciar a minha morte. Ningum descobrir que  mentira 
e voc nunca mais me ver."
      Aps reler a carta diversas vezes, incapaz de compreend-la, ele saiu apressado da biblioteca, entrando no vestbulo.
      Pegou a cartola e as luvas que lhe oferecia um criado e, sem dizer uma palavra a Newman, saiu da casa em direo  carruagem.
      Chegando  Estalagem Urso Branco, chamou o gerente e perguntou sobre o destino da carruagem alugada pela condessa de Droxford, que partira h cerca de quarenta 
e cinco minutos.
      - Que coisa estranha! - o gerente comentou. - O senhor   segunda pessoa que me pergunta isso! Bem, o nome da aldeia  Severn.
      Depois de gratific-lo com uma moeda, Droxford dirigiu os cavalos para fora do ptio, numa velocidade que surpreendeu o criado que o acompanhava.
      Quando atingiu os arredores de Londres, deixou os animais correrem  vontade, imaginando que se Guy estivesse guiando seus cavalos baios, a nica vantagem 
para alcan-lo era a familiaridade com a estrada para Severn, uma aldeia prxima a Droxford Park.
      Quase sem enxergar a estrada, Droxford soltava cada vez mais as rdeas, uma expresso preocupada no rosto e completamente alheio ao temor demonstrado pelo 
criado a cada curva.
      Duas horas depois chegaram sos e salvos s vizinhanas da aldeia. Mas no havia sinal da carruagem de Guy. Quando se aproximaram dos primeiros casebres da 
aldeia, Droxford avistou uma carruagem de aluguel em sentido contrrio.
      Sem hesitar, colocou os cavalos em diagonal na estrada, obrigando o coche da Estalagem Urso Branco a diminuir e parar a alguns metros de distncia.
      -  Que diabos est fazendo? - o cocheiro perguntou, com voz agressiva.
      -  Quero saber para onde levou sua passageira.  bem verdade que posso descobrir sozinho, mas se voc cooperar vai me poupar tempo.
      Enquanto falava, tirou uma moeda de ouro do bolso do colete e o cocheiro replicou, com um olhar ganancioso:
      -  Eu a deixei no chal da sra. Lavender; fica no final da aldeia, na divisa com o bosque.
      Entregando a gorjeta ao homem, Droxford continuou.
      Provavelmente Guy chegaria antes dele; por outro lado, Karina fizera a viagem num espao de tempo longo, pois, apesar de bons, os cavalos da carruagem de aluguel 
no podiam ser comparados aos seus ou aos de Guy.
      A primeira coisa que identificou ao localizar o chal da sra. Lavender foi a carruagem de Guy parada  porta da entrada, os famosos baios suando numa prova 
evidente de que tinham acabado de chegar.
      Espiando para dentro do veculo, Alton verificou que no havia qualquer sinal de Guy.
      Rpido, entregou as rdeas para o criado e atravessou o porto, seguindo at a porta do pequeno chal.
      Depois de alguns segundos uma mulher j idosa veio atender. Seus cabelos grisalhos estavam num coque sobre a nuca, e o vestido cinza, recoberto por um avental 
branco, era caracterstico da tradicional figura de uma bab.
      - Quero falar com a condessa - ele anunciou, calmamente.
      - Karina... Quero dizer, a condessa de Droxford foi dar um passeio no bosque. Um homem j esteve aqui perguntando por ela.
      - Obrigado pela informao. Sou o conde de Droxford; poderia me informar como encontr-la no bosque?
      - Pois no! Basta seguir o atalho at o final do jardim. - Porm, antes que Droxford comeasse a caminhar na direo indicada, a sra. Lavender completou, num 
tom preocupado: - O senhor no vai brigar com ela, no  mesmo? Karina estava muito infeliz quando chegou e, embora no tenha dito nada, sei que alguma coisa de 
errado aconteceu.
      Fitando-a de maneira carinhosa, o conde respondeu com tranqilidade:
      - Fique sossegada! Tentarei ajud-la a resolver o que h de errado. Sem dizer mais nada, ele deu meia-volta e foi entrando pelo bosque, olhando em volta,  
procura de algum sinal, at que finalmente ouviu vozes.
      Diminuiu o passo e se aproximou da clareira, onde Karina conversava com Guy.
      Usando um vestido de musseline branca, e sentada sobre um tronco, ela parecia uma verdadeira ninfa da histria de fadas, constatou Droxford, parando atrs 
de um pinheiro enorme, cuja localizao lhe permitia ouvir com nitidez o que a esposa e Guy conversavam:
      - Como pode ir embora sozinha? - perguntou Guy, asperamente.
      - No irei sozinha. Vou levar minha velha bab comigo.
      - Como sabe que seus parentes na Irlanda vo aceit-la, se nunca os viu?
      - Caso no aceitem, posso comprar um chalezinho em alguma parte isolada do pas. Nana e eu podemos viver muito bem sozinhas e ningum nos encontrar.
      - E voc acha mesmo que vou deix-la fazer isso? No seja irresponsvel, Karina... se quer se esconder, ento me esconderei com voc. Venha comigo, podemos 
ir para qualquer lugar do mundo!
      - Voc j me sugeriu isso antes...
      - E recebi uma recusa! Naquela poca no insisti por ter imaginado que Alton a fazia feliz, mas agora que voc fugiu dele, o ltimo obstculo foi removido. 
Perdi o constrangimento que senti quando voc me negou o seu amor, me oferecendo apenas amizade.
      - Meus sentimentos no mudaram, Guy. Tenho uma grande afeio por voc e sempre terei, mas no o amo e sou incapaz de viver com voc.
      - E acredita que vou deix-la partir para a Irlanda acompanhada apenas por uma velha bab? Minha querida, pense um pouco! Quando perceberem que est desprotegida, 
todos os homens vo se aproximar de voc e desrespeit-la.  muito delicada para correr tantos riscos, Karina!
      - Mas  exatamente isso o que pretendo fazer.
      - De maneira alguma, querida. Voc voltar comigo e partiremos, para uma viagem ao redor do mundo. Se voc no me acompanhar de livre e espontnea vontade, 
eu a levarei  fora. - Ele suspirou fundo, antes de continuar: - Meu iate nos levar para algum lugar distante, onde possamos fazer planos sobre o nosso futuro. 
Eu a amo, Karina! Estou apaixonado por voc desde a primeira vez em que a vi e tenho certeza de que uma dia voc tambm me amar de todo o corao!
      - No, Guy. Espero que voc me desculpe, mas eu... nunca poderei am-lo. Tambm no irei com voc. De jeito nenhum...
      - Ento vou lev-la  fora. 
      Dito isso, Guy, esticou os braos, tentando abra-la, indiferente aos gritos de Karina. Nesse instante Droxford saiu do esconderijo atrs do pinheiro, avisando 
com firmeza:
      - Antes que voc continue, Guy, precisa se lembrar de que tenho algumas opinies a respeito desse assunto.
      - Alton! Que diabos significa isso? Atnita, ela no conseguia esboar qualquer reao. Por um longo momento, Droxford e Guy ficaram parados, um de frente 
para o outro, se encarando de modo desafiador. Eram mais ou menos da mesma altura e havia uma estranha semelhana entre eles, talvez devido aos muitos anos de convivncia 
que tiveram.
      Na verdade, poderiam ser irmos. Irmos que se fitavam com um dio inconfundvel no olhar.
      - J agentei muito de voc, Guy. Agora quero pr tudo em pratos limpos. Vou lhe dar a lio que voc est merecendo h tanto tempo!
      - Ento sugere que aquele que ganhar a luta ter Karina como prmio!
      - Deixe de ser tolo, no estamos falando de negcios! Ela  minha esposa, entendeu?
      -Uma esposa para quem voc no liga a mnima! Uma esposa que o adora tanto, que no hesitou em fugir para se esconder em algum ponto da Irlanda, esperando 
nunca mais ser encontrada!
      - Poupe-me do absurdo das suas concluses, sim? Karina, volte para o chal e espere por mim!
      Sem hesitar, Alton colocou a cartola e as luvas sobre o tronco de rvore onde ela estivera sentada e comeou a tirar o casaco.
      Aterrorizada pela maneira como o marido pronunciara as ltimas palavras, Karina se aproximou dele, pousando a mo em seu ombro.
      - Por favor. . . no brigue com Guy.
      - Voc ouviu o que eu lhe pedi, Karina? Por favor, volte para o chal.
      - No quero que ele... machuque voc - ela respondeu, num suspiro.
      Droxford a olhou com uma expresso furiosa e falou impaciente:
      - Ele no vai me machucar, Karina!
      Sentindo-se intil e sem coragem para presenciar a cena que se seguiria, Karina deu meia-volta e andou alguns metros, a princpio calmamente, mas logo comeou 
a correr feito louca, com medo de escutar o barulho da luta que j devia ter comeado.
      No suportaria ouvir um grito de dor ou o baque surdo de um corpo caindo no cho!
      Desesperada, entrou no chal e, atravessando a pequena sala, se atirou nos braos da antiga bab.
      -  Oh, Nana! Eles esto brigando. Q que fosso fazer?
      - No se preocupe, minha pequena. Sente-se um pouco enquanto lhe preparo um copo de leite.
      Karina se acomodou no pequeno sof, torcendo as mos, num gesto cheio de nervosismo.
      -  Reze, minha criana, quem for melhor vencer a luta.
      -  Eu no quero que nenhum dos dois se machuque. . .
      Mas era Droxford quem ela amava. Por que fora coloc-lo naquela situao? Se algo acontecesse a ele, ou mesmo a Guy, a culpa caberia nica e exclusivamente 
a ela.
      
      CAPITULO XI
      
      "Deus todo poderoso, eu lhe imploro, faa Alton vencer a brigai Por favor, no deixe que Guy o machuque! Eu o amo tanto... Rogo humildemente que nada de mal 
lhe acontea!"
      Karina tentava rezar, mas seu crebro estava to confuso que era impossvel se concentrar. S tinha um desejo: que Droxford vencesse a luta e voltasse para 
ela o mais rpido possvel!
      Quando o vira surgir de trs do pinheiro, na clareira, precisara se conter para no correr e se atirar em seus braos, pedindo-lhe que a protegesse para sempre. 
A muito custo conseguira se controlar e fingir que a presena dele lhe era indiferente, pelo menos at o incio da violenta discusso com Guy.
      Agora, na segurana da casa de Nana, sua angstia crescia a cada minuto, aumentando-lhe o desespero por ter colocado Droxford naquela situao. Se algo acontecesse 
a ele, Karina tinha certeza de que morreria!
      Mergulhada em profunda depresso, ela recusou o leite que a bab lhe ofereceu. Tambm no foi capaz de desabafar com a boa senhora, que a fitou com ternura.
      Depois de alguns minutos de intensa agonia, ela ouviu uns passos se aproximando no jardim. Levantou-se assustada, com o rosto plido, achando que no conseguiria 
resistir quando visse a pessoa que entraria pela porta!
      Quem teria vencido: Guy ou Droxford? Para seu alvio completo, Droxford surgiu  porta, uma expresso indefinvel no rosto.
      Olhou-o apreensiva, esperando v-lo machucado e com a roupa rasgada, mas estranhamente Droxford estava como sempre, tendo apenas a gravata meio fora do lugar.
      -  Vamos, Karina - ele disse, com um tom de voz gelado.
      Por um momento Karina imaginou se deveria ou no acompanh-lo, mas resolveu segui-lo no momento em que Alton se virou e ordenou ao criado que lhe transportasse 
a bagagem.
      Desconcertada, ela colocou o chapu que Nana lhe entregou e vestiu o casaco de seda verde, que usara durante a viagem.
      -  O conde  um homem muito bom, Karina. Tente viver bem com ele que ser bem melhor para voc, minha filha.
      Karina se limitou a assentir com a cabea, incapaz de dizer qualquer coisa  velha bab, e se dirigiu para a carruagem.
      Imediatamente, Droxford chicoteou os cavalos e o veculo se afastou, deixando a distncia Guy. Ele permanecia parado na frente do chal.
      Como o criado os acompanhava, ela sentiu-se intimidada para perguntar a Droxford o que havia acontecido para a fuga ter sido descoberta antes da noite. Mas, 
mesmo que estivessem a ss, ela duvidava da sua capacidade de se expressar com um mnimo de coerncia, tamanha a confuso de seus pensamentos.
      "Por que ele voltou de Ascot?", perguntava-se, enquanto os cavalos avanavam em direo a Londres.
      Sabia que s poderia descobrir isso quando chegassem em casa, e a simples perspectiva de precisar enfrent-lo a ss era motivo mais do que suficiente para 
lhe reavivar o desejo de desaparecer.
      De repente, porm, Karina se deu conta de que aquela no era a estrada para Londres! Apesar de seu mal-estar, estava lcida o suficiente para perceber que 
no estava voltando para a manso. Ia sim, em direo a Droxford Park!
      A grande propriedade, localizada a apenas trs quilmetros da aldeia de Severn, logo surgiu  sua frente com seus imponentes portes de ferro, as rvores centenrias 
e sua arquitetura suntuosa.
      Os cisnes negros continuavam a desfilar sua majestade pelo lago.
      Assim que a carruagem parou na frente da porta principal, os criados desceram apressados os degraus de pedra, ajudando Karina a saltar e comeando a transportar 
a bagagem. 
      Pouco depois, j no vestbulo, Alton falou, com gentileza:
      - Sem dvida voc est cansada e seria melhor que fosse para o seu quarto. Conversaremos mais tarde, uma hora antes do jantar, combinado? Desejo que tenha 
um bom sono.
      Sentindo que os acontecimentos lhe fugiam ao controle, ela subiu a escadaria atrs do mordomo sendo recebida no hall superior por uma governanta, que trazia 
um molho de chaves nas mos.
      - Bom dia, condessa!  um orgulho para ns receb-la aqui.
      - Muito obrigada!
      Em seguida, a mulher de aspecto austero a encaminhou a um quarto magnfico, com as paredes recobertas por espelhos de cristal decorados com anjinhos dourados, 
um tapete cor-de-rosa e uma imensa cama de casal forrada por uma colcha de cetim branco, bordado a ouro.
      Apesar do luxo e do bom gosto do ambiente, Karina se encontrava to esgotada pelos ltimos acontecimentos que no fez qualquer comentrio, nem se deteve admirando 
os detalhes da moblia, como era seu hbito.
      Depois de muita insistncia por parte da governanta, ela se viu obrigada a provar um pedao de torta e um copo de leite. Na verdade, em vez de comer, preferia 
ficar a ss com sua tristeza.
      Por isso suspirou aliviada, quando finalmente as cortinas foram fechadas e as criadas se retiraram. Sem precisar continuar reprimindo o choro, deixou que as 
lgrimas cassem livremente, banhando-lhe o rosto.
      Ao final de algum tempo, exausta pelos soluos, adormeceu, um sono repleto de pesadelos e sobressaltos que a impediam de relaxar.
      Quatro horas mais tarde, quando a governanta a despertou, j lhe havia preparado um banho numa bela tina de madeira, em frente a uma lareira.
      - Embora seja vero, esses quartos imensos sempre so frios! - a mulher explicou, notando o espanto de Karina.
      A gua morna a ajudou a relaxar os msculos, provocando um suave torpor em suas pernas e deixando-a com um aspecto bem melhor. Ao final, enrolada numa toalha 
felpuda, Karina se ps a revirar as malas, procurando uma roupa adequada.
      Para seu dissabor, porm, Martha seguira rigidamente suas instrues e s havia mandado os vestidos mais simples. Dessa forma, ela foi obrigada a se contentar 
com um modelo de organdi ingls muito singelo e sem enfeites, apesar de desejar um traje mais fino e elegante, que combinasse com a suntuosidade de Droxford Park.
      Dando-se por satisfeita com a imagem refletida no espelho, Karina desceu ao vestbulo, onde o mordomo a aguardava para encaminh-la, atravs de vrios corredores, 
at uma bela sala com vista para o jardim.
      Os raios de sol, filtrados pelas longas janelas} revelavam os tesouros da sala, refletindo-os nos enormes espelhos de moldura em estilo Chippendale, que se 
espalhavam pelas paredes.
      Droxford,  escrivaninha, estava extremamente elegante com a gravata alta, enfeitada apenas com uma prola negra cercada de diamantes.
      Assim que a viu, ele se levantou e lhe indicou uma poltrona, dizendo:
      -  Venha aqui, Karina.
      Trmula, ela se aproximou e, desanimada, viu sobre a mesa a carta que lhe escrevera em Londres.
      Impassvel, ele a fitou no fundo dos olhos e perguntou, de maneira impessoal:
      -  Quero que me explique uma coisa, no post scriptum voc escreveu: "Quero a sua felicidade, Alton". O que pretendia dizer com isso? - Com a garganta seca 
e os pensamentos confusos, Karina sentiu que todas as palavras lhe fugiam da boca. Ele continuou: - Bem, no sabe explicar? Ento quem sabe voc possa me dizer por 
que foi embora. - Mais uma vez Karina no conseguiu se expressar e, depois de um momento, ele insistiu: - Quero saber a resposta.
      - Eu achei que seria melhor... - ela murmurou, desviando o olhar.
      - Melhor para quem? Para voc ou para mim? E de que maneira? Quero a verdade, Karina. Combinamos que sempre seramos francos um com o outro e jamais permitiramos 
que existisse fingimento entre nos, lembra? Foi parte do nosso trato, no foi? Pois bem, estou lhe fazendo uma pergunta bastante simples. Por que voc foi embora? 
- Sentindo as mos trmulas, Karina entrelaou os dedos diante do corpo e levantou a cabea, a viso embaada pelas lgrimas. - Vamos, Karina, me d uma resposta!
      Ela fez meno de falar, mas novamente sua garganta se recusou a emitir qualquer som. Percebendo o nervosismo dela, Alton disse com suavidade:
      -  Coragem, Karina. . .
      -  Voc quer a verdade no ? Ento eu falo! Quando nos casamos fizemos um trato. . . Prometi que me tornaria uma esposa submissa e tolerante! Como voc sabe, 
no consegui ser submissa pois tenho criado situaes difceis e provocado comentrios maldosos! Agora quebrei a segunda parte do trato e tambm no sou mais.. . 
tolerante. - Houve um silncio tenso e, de repente, como se os ltimos vestgios de autocontrole a abandonassem, Karina gritou: - Voc pediu a verdade, eu disse 
e agora preciso ir embora!
      Antes que ela pudesse abandonar a sala, Droxford lhe prendeu o pulso.
      - Por que voc no consegue mais ser tolerante?
      - Voc quer saber mesmo a resposta?
      Apesar das lgrimas que lhe embargavam a voz, a raiva transparecia em suas palavras como uma acusao por Droxford estar fazendo questo de tortur-la.
      - Sim. Eu quero.
      -  porque eu o amo... No consigo deixar de am-lo...
      Em vo Karina se debateu, tentando se libertar daqueles dedos que a prendiam como duas tenazes. Mas para seu espanto, as mos de Alton se tornaram gentis, 
enquanto a envolviam num abrao cheio de ternura.
      - Voc me ama? Oh, meu amor, por que no me disse isso antes?
      Sem lhe dar chances de retrucar, os lbios dele pousaram sobre os de Karina com um misto de avidez e ternura, que lhe provocou um xtase desconhecido, capaz 
de fazer com que o mundo girasse aos seus ps.
      Sentiu que experimentava uma sensao de leveza e deslumbramento nicos, que jamais sonhara antes. Seu corpo vibrava intensamente ao mesmo tempo que uma chama 
ardente lhe invadia o corao.
      Pouco depois, afastando-a de si com gentileza, Alton a encarou, murmurando, num tom de pura felicidade.
      - Voc me ama? Voc me ama, minha esposa desobediente e rebelde!
      Mais uma vez ele se inclinou sobre Karina, beijando-a daquela maneira delicada e possessiva que a fazia sentir-se transportada ao paraso.
      Instantes depois, Droxford levantou a cabea e fitou-lhe o rosto corado, os lbios entreabertos e os olhos verdes radiantes de alegria.
      - Voc  linda, minha doura! Encantadora! Como pde imaginar que eu seria louco a ponto de deix-la partir?
      - Pensei que voc amasse...
      - Eu a amo! Ningum mais a no ser voc, minha querida! No existe outra mulher na minha vida. Entenda, Karina, eu a amo desde o momento em que nos casamos, 
e eu fui ao seu quarto, afirmando que s queria fazer valer meus direitos de marido. Como fui tolo! Na verdade eu a desejava e a amava, embora ainda no tivesse 
conscincia disso! - De repente, sua voz se tornou mais grave e ele acrescentou: - Quando me mandou embora, pensei que sentisse averso por mim e me achei um louco 
por ter casado com voc sem antes ganhar seu corao.
      - ... verdade?
      - Claro, meu amor! Nem imagina como foi difcil me conter durante estas semanas! Eu a queria, embora meu orgulho me segurasse, porque pensei que voc estivesse 
interessada em Guy! Eu o odiava, e fiquei to louco de cime que no quis sequer competir com ele. - Droxford deu um longo suspiro antes de continuar: - S hoje, 
quando recebi sua carta, percebi que se voc me abandonasse, a minha vida se tornaria vazia e sem graa. Eu a amo muito, Karina, mais do que j amei qualquer outra 
mulher na vida!
      - Tem mesmo certeza, Alton? Sonhei tanto com voc me dizendo essas coisas. . . Nunca pensei que isso pudesse se tornar realidade.
      - Agora no  mais sonho, meu bem. - Droxford a beijou novamente e, um longo tempo depois, disse com suavidade: - Vamos esquecer as tristezas e os mal-entendidos 
que aconteceram desde que nos casamos? Que acha de voltarmos no tempo e comear tudo de novo, fingindo que a cerimnia acabou neste instante e estamos em nossa lua-de-mel?
      - P-podemos fazer isso? Aprender a nos conhecermos? Descobrirmos juntos a fora do nosso amor?
      Esquivando-se de responder diretamente, ele a soltou, beijou-lhe as mos com carinho e disse, sorrindo:
      - Viva minha noiva! Seja bem-vinda ao seu novo lar, condessa. Espero que goste de Droxford Park!
      - Muito obrigada... Eu adoraria estar usando o meu vestido mais bonito!
      - Ora, ora, as preocupaes das mulheres! O que h de errado com essa roupa? Voc me parece encantadora!
      -  simples e pouco apropriada. Como sua noiva, quero que voc me ache bonita...
      - E como eu poderia no achar? - Como ela desviasse o olhar, encabulada, ele lhe tomou o queixo entre as mos e beijou-a de leve, anunciando: - Quero lhe dar 
um presente, meu anjo. Talvez sirva para diminuir o seu desapontamento com o vestido. ..
      - Um presente?
      Sob o olhar espantado da esposa, ele foi at a escrivaninha e tirou vrias caixas de veludo de dentro de uma gaveta, contendo um diadema, um largo colar, braceletes, 
brincos e um anel de turquesa e diamantes.
      - Meu Deus, que jias maravilhosas, Alton!
      - Pertenceram a minha me. Antes de morrer ela as entregou para mim, recomendando que as presenteasse a minha esposa, no dia mais feliz da minha vida. . . 
Creio que este dia  hoje, meu amor! Voc as aceita?
      - Oh, Alton, claro que sim! - Sorrindo de satisfao, Droxford colocou as jias em Karina, que se olhou no espelho, admirada: - Agora fiquei bonita para voc!
      Nesse momento, ele tornou a abra-la, mas a porta se abriu, e o mordomo anunciou:
      - O jantar est servido.
      Com um gesto galante, Alton lhe ofereceu o brao, conduzindo-a para o vestbulo e dali, em vez de virar na direo da imensa sala de banquetes, seguiram at 
a escada.
      No hall do andar superior o mordomo abriu a porta ao lado do quarto de Karina, revelando uma pequena sala oval, decorada do cho at o teto com flores brancas.
      As inmeras guirlandas e buqus de lrios, cravos e rosas brancas, deixavam o ambiente envolto num perfume embriagador.
      Emocionada, Karina olhou para o marido, murmurando:
      -  Voc fez isso para mim?
      - Para a minha noiva adorada! - A mesa, iluminada por velas em candelabros de ouro, estava coberta por orqudeas brancas, e eles sentaram-se em cadeiras forradas 
de veludo. - Um brinde a ns dois - sussurrou Alton, levantando a taa. - Ao nosso amor, minha querida!
      Durante o restante da refeio, Karina no parou de sorrir, achando tudo delicioso e especial, sem conseguir pensar em nada, a no ser no homem que,  sua 
frente, no parava de observ-la com olhos apaixonados.
      - Daqui a alguns dias quero lev-la a Paris, Karina. Quando chegarmos l quero lhe mostrar uma poro de coisas maravilhosas!
      - Que timo!
      - Viajaremos s ns dois, meu bem.
      - Vai ser maravilhoso!
      - Assim que o jantar terminou, os criados tiraram a mesa, e o mordomo se retirou, Karina se ps a contemplar o marido, com verdadeira adorao.
      Jamais vira um homem to elegante quanto ele em toda a sua vida. Ao mesmo tempo, ele emanava uma masculinidade que se sobressaa em qualquer lugar onde estivesse.
      Mergulhada nessas reflexes, ela nem se deu conta de que uma corrente de ar abria a porta de comunicao com o quarto de dormir. Mas o olhar insinuante de 
Alton a fez voltar-se para aquela direo, corando  simples viso da cama de casal.
      - Est feliz, minha querida?
      - Como nunca! Alton, preciso saber uma coisa...
      - Sobre Guy?
      - O que aconteceu?
      - Bem, ele lhe deu sua verso sobre o que aconteceu h anos, agora quero que voc oua a minha. Eu amava Guy e nunca o teria trado!
      - No?
      - No. Guy era meu amigo, confidente e irmo, desde a infncia. Pensvamos do mesmo jeito, ramos das mesmas coisas e gostvamos de estar juntos.
      Droxford parou de falar, com uma sombra de tristeza, estampada no rosto.
      - Quando ele contou que pretendia fugir com minha prima, me preocupei no devido a Cleone, mas por ele! Eu sabia que minha prima, alm de m, era temperamental 
e desequilibrada!
      - Como assim?
      - Guy no foi o primeiro homem que Cleone seduziu. Com apenas quinze anos, ela se envolveu com o professor do irmo. No ano seguinte houve um escndalo ainda 
maior, por causa do comportamento abominvel dela com um amigo do meu tio, um homem casado e com trs filhos! Claro que todos alegavam que a culpa pertencia aos 
homens, mas eu nunca me deixei enganar pelo rosto inocente de Cleone! Por isso, me perturbei ao descobrir que ela estava seduzindo Guy!
      - Que situao!
      - Ela era muito bonita e foi impossvel fazer com que Guy raciocinasse naquele momento. Mas quando ele me contou que ia fugir com ela, achei que precisava 
impedi-lo, mesmo sabendo que seria intil discutir com ele. Por isso contei ao meu pai, que era um homem bastante compreensivo, na esperana de que ele conseguisse 
fazer Guy recuperar o bom senso.
      - Ento foi seu pai quem contou para lorde Ward?
      - No. Enquanto meu pai e eu discutamos sobre o que fazer, descobrimos que Guy e Cleone j haviam partido. Naquele momento, por uma triste coincidncia, meu 
tio chegou disposto a levar Cleone para casa, pois o duque havia decidido antecipar o casamento.
      - Ento vocs se viram obrigados a contar que Cleone tinha fugido?
      - Exatamente. Era impossvel mentir. Depois disso meu tio, louco de raiva, se comportou da maneira horrvel que Guy deve ter lhe contado. Ele encontrou os 
fugitivos a caminho de Baldock. Deixou Guy doente de tanto apanhar e informou a Cleone sobre o casamento com o duque.
      - Na certa, sua prima deve ter se desesperado com essa idia, no  mesmo!
      - Embora Guy no saiba, Cleone o esqueceu assim que chegou na casa do pai. De repente, ela descobriu que adoraria se tornar uma duquesa! E, para falar a verdade, 
acho que o nico homem capaz de atur-la seria o duque com quem ia casar!
      - Mas ela se suicidou!
      - Isso no  verdade. Houve muitas fofocas em torno da morte de Cleone, mas o que aconteceu de fato foi que ela quis cavalgar a qualquer custo um garanho 
selvagem, que nenhum homem conseguia montar.
      - Guy me falou que ela esperava um filho dele...
      - Podia ser de Guy, ou de qualquer outro. Cleone era uma garota volvel e muito m tambm. Por causa dela perdi a amizade de Guy...
      - Por que voc no o ajudou, na poca?
      - Eu tentei. Mas Guy se recusava a me ver, convencido de que eu tinha agido como um traidor! Fiquei chocado com essa atitude dele e por isso parei de procur-lo. 
- Ele suspirou profundamente, antes de continuar: - Como os jovens so teimosos! Algumas palavras poderiam desfazer o mal-entendido surgido entre ns. Em vez disso, 
falvamos mal um do outro para estranhos, que repetiam sem parar os nossos comentrios venenosos.
      - A partir da vocs construram uma barreira de dio...
      - Uma barreira que at hoje eu imaginei indestrutvel.
      - Por que at hoje?
      - Afinal, o que aconteceu com ele?
      Houve uma pequena pausa antes do conde continuar.
      -  Quando voc nos deixou, Guy me perguntou se eu a amava. Afirmou que tinha certeza de que voc no gostava dele. E me garantiu que sairia do meu caminho 
se eu a protegesse como voc merecia.
      -  E o que voc respondeu?
      - Eu disse a verdade... disse que a amava, Karina. E que sabia que mesmo que ele quisesse, eu no poderia me bater com ele,pois fomos como irmos na juventude.
      - E ele... que vai fazer?
      - Vai para a Jamaica. Possui propriedade imensas l, que foram deixadas por um tio. Quando voltar diz que vai ser padrinho de nossos... filhos!
      - Ser que Guy tinha razo, meu amor? - perguntou ele, apertando-a contra si. - Voc gosta mesmo de mim?
      - Voc sabe que eu o amo... demais!...
      - Ento nossos filhos sero bonitos e inteligentes. .. No  assim que so as crianas nascidas do amor?
      - Sim.. .
      Droxford a conduziu para o grande sof ao lado da lareira e sentou-se ao lado de Karina, beijando-a com gentileza. Ao sentir que os lbios dela correspondiam 
aos seus e que o corpo delicado tremia de prazer, suas carcias foram se tornando mais possessivas e exigentes.
      Depois de algum tempo, tirou o diadema que ela usava, colocando-o cuidadosamente sobre uma mesa lateral, antes de remover-lhe os grampos dos cabelos, deixando-os 
cair sobre os ombros.
      Em seguida, tirou o colar de turquesa e beijou-lhe o pescoo, provocando-lhe um arrepio de excitao.
      - Era assim que eu queria v-la, meu amor. Quando fui ao seu quarto na noite do nosso casamento, percebi que nunca havia conhecido uma mulher to bonita e 
sedutora como voc com seus cabelos maravilhosos, espalhados sobre os travesseiros e sobre... -Droxford parou de falar, abraando-a com mais fora.
      - Droxford!
      - Quero lhe perguntar uma coisa, meu bem. Voc sempre dorme nua?
      Karina sentiu o sangue lhe subir ao rosto e baixou os olhos, encabulada.
      - No.  que a minha camisola era velha e estava feia eu no o esperava!
      - Preciso confessar que desde aquele dia a beleza de seu corpo tem me perseguido! Quero v-la de novo daquele jeito.
      Envergonhada, Karina escondeu o rosto. 
      - Eu adoro voc! - murmurou ele.
      - Tem certeza? - perguntou Karina.
      -  Mais do que tudo na vida!
      -  Como estou feliz, Alton!
      - Eu a desejo tanto, Karina! 
      - Eu tambm preciso de voc, meu querido!
      Droxford se levantou e puxou-a para si, com delicadeza.
      - Voc  minha, agora e para sempre! Nunca mais a deixarei fugir de mim, meu amor! Nunca mais passarei um s minuto longe de voc!
      Encorajada pela fora daquelas palavras, Karina o abraou com paixo, trazendo-o para perto de seu corpo. .. Ento Droxford tomou-a nos braos e, com o corao 
reflete de felicidade, levou-a para o quarto nupcial.


*                  *                *
Barbara Cartland                Amor: o pacto quebrado

The complacent wife                                                                               2
